segunda-feira, 30 de março de 2009

Onde estão os olhos de Inês?

Das muitas histórias que por aí vão passando, de boca em boca, ouvi uma, há uns tempos, sobre a povoação onde estava a pensar comprar uma casa de campo. Confesso que das vezes seguintes que lá fui mantive sempre uma atitude de observação e cepticismo relativamente a todos os pormenores que me rodeavam.
Conta-se que, nos montes que cercavam essa pequena povoação, algumas pessoas foram dadas como desaparecidas e apenas as encontravam longos tempos depois, já em estado de avançada decomposição e todas elas apresentando um peculiar e macabro pormenor. Ainda hoje, quando recordo essas descrições, sinto calafrios.
Era uma pequena povoação que vivia da lavoura, habitada apenas por duas famílias. A família Alves gozava de enormes possessões que lhe garantiam uma vida abastada. Tinham uma linda filha jovem, tez clara, longos cabelos negros e uns lindos olhos de um azul vivo, a bela Inês, menina dos olhos de Afonso, filho mais velho da família Oliveira. Os Oliveira eram uma família com cinco filhos varões. Viviam do trabalho da terra, eram os trabalhadores da grande propriedade Alves.
Afonso e Inês, desde tenra idade mantinham uma relação única. Eram como “unha e carne”. Os bosques que rodeavam a povoação foram o recreio de tantas brincadeiras de infância e, mais recentemente, o palco dos seus primeiros encontros amorosos de uma pueril paixão. Fora junto a um pequeno riacho, ladeado por uma densa vegetação e coberto por copas de carvalhos centenários, que deram o seu primeiro ósculo. Inês vestia um longo vestido branco. Afonso havia lá aparecido ao pôr-do-sol, como era habitual nos dias de Primavera e de Verão. Aquele era o seu refúgio.
O Outono aproximava-se, deixando aquele romântico lugar em repouso até aos primeiros dias soalheiros da próxima Primavera. Era uma sexta-feira e Afonso tardava em aparecer. Estranhando a ausência de Afonso, Inês decidiu voltar a casa. O sol não hesitava em despedir-se do outro lado da colina, dando um tom laranja e rosado a um céu que prometia ser estrelado.
Ao sair do bosque rumo a casa, algo não estava bem. Um grande alarido acompanhava uma coluna de fumo negro vindo das casas. Inês corre quanto pode até se deparar com um grupo de salteadores. Tudo havia sido saqueado, as colheitas queimadas, o melhor gado alinhado e pronto a ser levado. Os cadáveres dos pequenos varões Oliveira jaziam num monte, alimentando uma fogueira. Sua mãe jazia nua no chão. A senhora Oliveira deu o seu último grito de desespero depois de o seu violador a ter degolado. Seu pai estava enforcado ao lado do senhor Oliveira e, por fim, Afonso, o seu amor, já pouco dele restava. Havia sido morto para alimentar os cães de guerra esfomeados que os salteadores afagavam.
Seus lindos olhos dissolviam-se em lágrimas com todo aquele cenário, com todo aquele inferno. Estava prostrada por terra, a dor havia sugado todas as suas forças. O capataz do grupo, lentamente vai a seu encontro mas já nada lhe capta a atenção.
- Mestre, eis o acréscimo da sua parte do saque! – Diz um dos membros, limpando o sangue da sua espada.
- Preparem tudo p’ra que partamos dentro de duas horas! – Disse o mestre. Era assim que lhe chamavam. Era um homem alto, com uma enorme cicatriz forjada no rosto. Usava uma velha armadura negra com ornamentos macabros. No seu pescoço pendia uma caveira de prata.
Prendeu Inês ao seu cavalo e arrastou a inocente e pura jovem até ao bosque, até ao refúgio do amor. Uma vez lá, tratou de amarrá-la a um dos carvalhos, assegurando-se que a infeliz não escaparia. Da sua algibeira tira um conjunto de instrumentos, de tortura. Cozeu-lhe os olhos lentamente, saboreando o seu momento de prazer.
Inês chorava lágrimas de sangue, não consigo imaginar a sua dor, a sua raiva, o seu ódio, a vontade de vingança, apoderando-se de cada gota que restava ainda do seu sangue…
O mestre contemplava a sua arte, movendo a cabeça para a observar de vários ângulos. Rasgou-lhe o vestido. Inês estava nua, a virgem estava desprotegida por um acto depravado. O mestre prepara-se e, numa atitude animalesca, desflora a pobre Inês que geme com a dor provocada pela brutalidade, enquanto o seu violador desfruta de um prazer louco, como um feroz fornicador. Numa das mãos ostentava um punhal que ia deslizando sobre Inês, provocando profundo golpes que ia lambendo com a sua língua bifurcada.
Estava terminado o seu ritual, o mestre recolhe os seus haveres, corta uma trança de Inês e parte, deixando-a prostrada naquele solo, em tempos, cenário de maravilhosos momentos. O inferno havia emergido em detrimento de um paraíso construído por românticos sonhadores.
Anoitecera, Inês despertou. Era noite, mas nem com o brilhar da lua cheia ela poderia ver, suas pálpebras permaneciam cosidas. Apalpando o solo encontrou o seu vestido rasgado, que enrolou no seu corpo. Caminhou no vazio durante horas. Mas para onde? Naquele momento já nada conhecia… os seus últimos passos foram dados em direcção a uma ravina, a Ravina dos Corvos.
O corpo de Inês foi encontrado sete dias depois por um grupo de caçadores que por ali tentava a sua sorte. As pálpebras continuavam cosidas, no entanto, os olhos não estavam lá.
Dos salteadores não mais falaram…Mas quanto a Inês, bem, a sua inocência e pureza, converteram-se em ódio, raiva e vingança. Vários caçadores e lenhadores foram dados como desaparecidos e encontrados na ravina dos Corvos, com as pálpebras cosidas, desprovidos dos seus olhos.
Apenas há um relato de um monge eremita que escapou, era um estudioso de lendas e mitos que corria Portugal buscando novas histórias para compilar. Inês vestida de branco e olhos cozidos havia-lhe aparecido.
- Senhor, qual o caminho p’ra casa, por favor? Tenho frio e está tão escuro aqui… – Pergunta o espectro de Inês.
O monge sem conseguir responder, apenas aponta em direcção à povoação onde Inês havia vivido e veste-lhe um velho manto que trazia aos ombros. É então que o espectro desaparece por entre o nevoeiro rasteiro que reinava no bosque…
Mais casos foram relatados…Acredita-se que Inês apenas encontrará descanso quando alguém conseguir encontrar os seus lindos olhos. Onde estarão eles? Terá o salteador recolhido os olhos de Inês como trunfo máximo do seu saque?
Temam Inês…


António Campos Soares

quinta-feira, 26 de março de 2009

Tempo


Tempo, tiempo, temps, time, время, zeit…

Sinal da nossa condição mortal, marca do nosso envelhecimento prematuro, caminho para a insanidade profunda e perdição do alento. Quantos de nós não nos fechamos na nossa masmorra, quando pensamos no tempo ou vemos que aquele segundo, que o ponteiro do relógio arrastou consigo, não volta mais?
Aí começa a tortura, o fulminante descender do machado, a corda que aperta cada vez mais até sufocar completamente, deixando-nos como pêndulos…
Os impérios que criámos, tudo o que edificámos, desvanece, não nos imortalizamos. Rendemo-nos como débeis fracos, deixando o tempo triunfar. Tornamo-nos em frutos em pleno apodrecimento, sem sementes que garantam uma linhagem…
Pensaste todo o dia no futuro e, mesmo quando te deitas no teu leito, só pensas no amanhã.
Quando vives?
Fechas os olhos, dizendo “Até amanhã!”, mas amanhã já não é o teu tempo!
Descansa em paz


António Campos Soares


(Imgem por Quitéria Campos)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Um novo livro por António Campos!


Foram cinco anos a escrever!
Comecei em 2003. Depois de escrever letras somente em inglês, decidi começar a escrever em português. Estranha sensação, mas a língua soava bem para a poesia. Tomei-lhe o gosto, as palavras certas foram saindo....o convencional, as rimas, a métrica são assuntos que nunca me perturbaram, seguia apenas a inspiração, o instinto, a minha condição humana e as minhas aspirações empíricas.
Escrever no meio do nada, escrever contemplando paisagens, momentos, deixar que os sentimentos exalassem...Foram muitas as noites em que acordei, ainda apoderado pelo sono, e escrevi, lendo apenas aqueles versos na manhã seguinte: a receita resultava. As mesas de cafés boémios, o Albaicin e as ruelas escuras do palco da última conquista cristã da Península Ibérica, foram-me inspirando nas últimas criações.
Um confronto entre o bem e o mal, a luta entre a nossa frágil condição mortal e a imortalidade, ser o advogado do diabo, algumas vezes, o amor e a dor, a morte, a angústia, a nostalgia, a perda, e a solidão serviram-se de mim como um campo de batalha e, eis que o resultado será publicado nos próximos meses, num livro intitulado Lascas De Uma Rocha.
O livro contém 31 poemas:

O Início
A Nova Criação
O Fim do Demónio
Peste
Discipulus Mortis
Vagabundo
Guerra
Abismo
Velha Amiga
Mártir da Liberdade
Egoísmo
Caveira
Ciclo
Eternidade Solitária
Ruela da Morte
Espada de Dois Gumes
Não Quero Ser um Anjo, Quero Ser Deus!
Quando Não Vivo!
Soldado
À Deriva
Homo Lupus et Luna
MORS
Sete Anos Como Meu Anjo
Para o Meu Irmão
Minha Irmã, Novo Laço
Passado Presente
Arrependimento
Quem és?
A Procura
Navio Ancorado (Para Sempre?)

Mártir da Liberdade II

Eis a receita! Obrigado a todos os que me apoiaram e aos que me apoiarão também no futuro!

António Campos Soares

terça-feira, 10 de junho de 2008

Latim: Mas que raio de disciplina!

Geralmente, no fim do almoço, vou até ao "tasco" para tomar um café e ler o jornal. É sempre bom saber o que se passar por aí.
Ora hoje, quando estava a ler o JN deparei-me com um pequeno artigo, no fundo de uma coluna:

"Ensino
Aulas de Latim caem em desuso
Os alunos a aprender Latim diminuíram 80% nos últimos dois anos lectivos, o que leva especialistas a temer desaparecimento de uma disciplina que dizem facilitar a aprendizagem de outras línguas. Este ano, estão inscritos no exame final de latim 313 alunos, contra 1651 de há dois anos. E só 4% das escolas secundárias têm a disciplina."

Este facto deixa-me realmente preocupado: como se pode aprender devidamente português (ou outra língua latina) sem se conhecer o mínimo das bases das suas origens?
Eu sou um sortudo, ainda fui um dos 1651. É verdade, eu tive Latim e não imaginam o jeito que me tem dado. Graças a essa disciplina que está a cair em desuso consegui "safar-me" bastante bem em Linguística Descritiva, cadeira que tanto assombra grande parte dos alunos do meu curso, Línguas Aplicadas. É graças ao Latim que tenho uma maior facilidade para estudar espanhol e francês e assimilar as declinações em russo. Mas, ainda mais importante, é graças a esta língua morta que estruturei boas bases gramaticais e léxicas relativamente à minha língua materna.
Imaginem que agora a nos seminários o latim está a ser esquecido: a minha turma foi a última a beneficiar desta disciplina, as turmas que vieram posteriormente conseguiram-se "livrar".
E quando saí do seminário, foi o cabo dos trabalhos para arranjar uma escola onde pudesse concluir o 12º ano com latim. Acabei por ficar cá na secundária de Joane, mas éramos apenas três alunos. Fantástico, hein?
Talvez o motivo de o ensino do Latim estar a cair em desuso se deva ao facto de esta disciplina não estar na moda....Talvez se alguém se lembrasse de a publicitar numa determinada série televisiva tão "aliciante" para muitos jovens, o Latim poderia voltar a estar na moda...
Um agradecimento ao autor do artigo por recordar a gravidade da situação, uma informação útil e importante!


António Campos Soares