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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Músicas para Escrever LVI, Mumford & Sons - Awake My Soul



Era o fim de tarde de um dos últimos dias quentes de verão, sentou-se na laje do túmulo que nunca quis ver edificado, tirou um papel do bolso e leu-lhe aquele carta, a sua última carta, a carta que queria que fosse lida, que lhe queria enviar mas que, por infortúnio da vida, nunca lhe havia de chegar.


"Morreste-me demasiado cedo…

Como aquele infante nascido demasiado prematuro, que ninguém acredita que sobreviverá, mas sobrevive, e tu morreste-me!

A questão não se põe no quando, mas no facto de que não me deverias ter morrido.

As pessoas como tu não merecem morrer assim, cedo e em agonia. As pessoas como tu são genuínas, constituídas por uma matéria tão pura que se fossem escarnadas, laminadas, analisadas ao mais ínfimo dos pormenores, não lhes seria encontrada uma ponta de maldade ou qualquer tipo de mácula.

Morreste-me demasiado cedo, quando precisava de ti e porque ainda preciso. E se não me tivesses morrido, os meus monólogos não seriam tantos nem tão longos e o meu olhar não se perderia tanto na linha do horizonte à espera de ver-te chegar um dia, ou nas longas noites de insónia a imaginar como seria cada momento que passei se não me tivesses morrido.

Estou certo que todos teremos o momento de largar este corpo e eu não me atreveria a pedir que ficasses cá para sempre, pois, isso seria sobrecarregar-te de sofrimento. Se não me tivesses morrido, apenas pediria que partisses um pouco antes de mim porque, se já sofri uma vez com a tua partida, voltaria a sofrer, no entanto, de maneira diferente porque teria vivido muito mais ao teu lado.

Aquilo que pensámos ser um enorme círio, cujo pavio poderia arder durante uma vida, tornou-se numa pequena vela que fulminantemente se consumiu.

Morreste-me demasiado cedo porque és insubstituível. Cada pessoa é única, no entanto, e concordarão comigo, há pessoas que, apesar da sua característica una, podem ser substituídas, dependendo das suas circunstâncias, mas tu és insubstituível, não importando o lugar, o dia ou a circunstância.


Morreste-me demasiado cedo ontem, hoje e amanhã porque a tua morte é uma ferida sem cura que vai infeccionando cada vez mais com a alastrar do tempo e se retirar a minha camisola verás que tenho já meio corpo com chagas abertas. Vou acalmando a minha dor lambendo essas chagas com memórias, mas essa cura não se tem mostrado eficaz.

Morreste-me demasiado cedo e a incerteza de saber se me ouves enquanto te leio esta carta também me corrói porque sou um homem de pouca fé, mas hoje, que te leio, quero acreditar que me ouves, ainda que não saiba se eventualmente, de alguma forma, me responderás.


Dadas todas as incertezas da vida, e sem saber para onde me levam as marés do tempo, despeço-me num até já porque o adeus fere-me e remete-me novamente à tua despedida, o dia em que essa chaga abriu e começou a alastrar em mim como uma peste.



Com amor,

Até já!"


Dobrando novamente a carta humedecida pelas lágrimas que lhe foram caindo, guardou-a novamente no bolso. Desse mesmo bolso tirou uma pequena caixa de fósforos, acendeu uma vela e despediu-se. Não tinha dado três passos quando voltou para trás, retirou a carta do bolso e deixou-a em cima da vela para que ali se consumisse.




sábado, 12 de janeiro de 2013

Músicas Para Escrever XLV, God Is an Astronaut - Point Plesant

Não olhes para mim assim, não outra vez, por favor - digo-te eu em silêncio porque não consigo fazer com que as palavras me saiam e não estou seguro se entenderás este meu constrangedor silêncio. Sabes que há nisso uma extrema crueldade? Sabes que a minha resistência, não é, de facto, uma resistência? Sabes que não é uma aceitação, mas sim uma dor difícil de se suportar? Não o faças, por favor, se ficarei só novamente, não terei força para esse confronto. Sabes que levas a melhor das vantagens sempre que o fazes e matas-me, matas-me de cada vez que isso acontece porque não está na minha natureza contrariar-te, nem repudiar-te, nem esquecer-te, nem desejar vingança. Ainda que na minha vontade, bem na sua essência eu possa contrariar-te e, no mais recôndito secretismo, ter-te, não ouso deixar-te sabê-lo, ou incorreria no meu penitenciário fim.
Fazes surgir em mim instintos fortes e de enorme adrenalina  que não consigo revelar porque esse teu olhar me petrifica. E aceito-me, assim, em condição de serventia, sendo o lacaio enamorado pela senhora que me prende, talvez sem saber, talvez tirando prazer desse arrebatamento que provocas em mim porque há diferentes fontes de prazer: uns por desejar, outros por infligir, outros por reconfigurar e aproveitar. Talvez tu mesma sejas vítima de uma condição e essa condição criou em mim uma outra condição inferior, uma ligação feita por um elo extremamente defeituoso que, ainda assim, se aguenta. E tu sabes, assim morrerei, sem ti, mas contigo por perto.

Elle s'appellait Belle, la plus Belle Fantasie que je pouvais croie.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Mort que je pouvais attendre.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Vie que j'ai eu.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle mort qu'un Misérable pouvait avoir.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIV, Julia Holter - Marienbad



Elegantemente saiu do seu banho, onde se submergia em espuma colorida e sais aromáticos. Continuou em bicos de pé pela casa fora, deixando que a espuma lhe assentasse como uma vestido colorido, visível pela luz das velas, e aroma dos sais deixasse um rasto. Dirigiu-se para pátio em frente ao jardim. Da janela do seu quarto propagava-se a música que saía da sua grafonola, que despertou todos aqueles que já se deixando apagar pelo sono.
No interior da enorme casa, as janelas preenchiam-se de rostos indignados de gente que segurava candelabros  Ela dançava entregue à música que a ia envolvendo e todas as plantas do jardim a acompanhavam amparadas pela brisa nocturna. A indignação não durou muito, dando lugar ao deleite de contemplar tamanha beleza, que o luar sem hesitar cobria de brilho salientando os seus contornos. Dançou até que sol viesse para a cortejar mas, com a elegância que para ali se dirigiu, voltou aos seus aposentos, entregando-se a um amante, que certamente num sonho a aguardava.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLII, Aesthesys - I Am Free, That Is Why I'm Lost


Será um ser dependente enquanto seguir os caminho que não são os seus. Não será vitorioso enquanto lhe atribuírem sucessos atingidos numa batalha que não é a sua. Será um feliz sem ânimo enquanto apenas contribuir para uma felicidade que não é a sua. Este é o mais que conhecido Fidalgo Maldição. 
Continua sentado com a chávena de chá que se vai esfriando nas suas mãos. Há muito que os dias que contempla pela ampla janela, onde a vidraça é fustigada por fortes chuvas, são cinzentos e com muito poucas horas de luz. É uma tempestade perene e já não guarda em si esperança de avistar dias de bonança.
Rodeia-se de diplomas encaixilhados e cobertos por pó que se vai acumulando porque se cansou de os limpar e os exibir magistralmente. Também não deixa que os abrilhantem mais, salvo para um propósito diferente, que nunca aparece. Até hoje não o levaram a nenhuma saída que não fosse a previsibilidade dos mesmos resultados de sempre. É este o seu (só seu?) triste apanágio.
Está já gasto o veludo dessa poltrona majestosa onde se senta e as almofadas estão côncavas, como um caixão feito à medida para que o cadáver não se mova com a mínima trepidação. Se tarda a bonança, sabe que não deve tardar o tempo para apenas sair dali solenemente deitado e embrulhado num lençol de linho branco com insígnias que o prenderam e de pouco lhe valeram.
Decisões dos passados tempos de bonança com pesadas correntes consequenciais que o prendem num luxuoso salão nobre quando já passou o tempo da nobreza e esse é o seu cárcere.
Cai-lhe a chávena, espalhando-se os cacos nesse lustroso chão que emana o cheiro da cera. Arremessa os candelabros com velas acesas e começa a ver o fim, uma luz forte que se propaga e o aquece como os dias de sol que há tanto espera contemplar. Deixa para trás traz o robe de cores ridículas  que rapidamente é consumido pelo fogo, assim como todos aqueles papéis escritos pela rotina. Sai e assoma-se-lhe o espanto quando vê o sol e apercebe-se que todo o cinzento, que via da janela, era uma ilusão criada pela desilusão que sentia. Quebra-se assim a Maldição do Fidalgo que, celebrando as ruínas de tudo aquilo que o prendia, se torna Fidalgo Libertação, Fidalgo Criação, Fidalgo Imaginação, Filho De Algo que há tanto ansiava.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLI, The Echelon Effect - Sleep Patterns


São sons de fundo: conversas, sussurros, passos, folhas de papel, músicas, vento, chuva, mar...
Em determinados momentos, para alguém avançar, alguém tem que ceder. Outras vezes, alguém tem que ceder para alguém avançar. Em algum dos casos, jogando correctamente  ninguém perderia porque, sempre que há mais do que uma pessoa no mesmo lugar, não é só um que aprende.
E se cedermos os dois? E se aprendermos os dois, um do outros, juntando os nossos sons, as nossas vivências, os nossos saberes, as nossa memórias?
Uma cedência não tem que ser uma imposição de uma das partes. De imposições estamos todos nós cansados e, talvez por isso, aprendemos a não ceder, vendo na cedência um sinal de fraqueza. Seguimos caminho diferentes mas, em determinado ponto, esses caminhos podem cruzar-se e, aí, não temos que virar costas um ao outro e voltar a seguir esses caminhos distintos. Podemos aproveitar esse vértice para comunicar, para receber e dar recomendações, para pedir ou dar ajuda. Por vezes, há até caminhos diferentes que se percorrem lado a lado e esse pequeno espaço que os separa não precisa de ser um muros de impedimentos para caminhar com palas.
Se me permitires, eu cedo e saltarei essa pequena distância que nos separa para fazer parte do caminho contigo e tu poderás fazer o mesmo, que te receberei de bom grado. Se a distância for maior, estou aqui para me certificar que não cais num abismo qualquer que possa existir nesse pequeno espaçamento que aparta os nossos caminhos  Há momentos em podemos e devemos transgredir para quebrar a monotonia que nos envolve. Agora, qual de nós salta?




Músicas para Escrever XL, Sleep Dealer - Point Of No Return


Vamos embora daqui? 
Já viste quantos é que já partiram também e não são mais do que nós?
Pois, eu conheço esse aceno. Quanto dinheiro tens no bolso?
Eu tenho o mesmo. Chega para os dois. Não podemos esperar mais um dia ou tiram-nos o pouco que guardamos.
Tens comida?
Chega. Duas sandes para cada um chegarão para a viagem. Depois, quando chegarmos, lá nos orientaremos.
Assim apanhámos o comboio há uns meses. Libertámo-nos dessa mendicidade que nos corrompia. Éramos mendigos e o pouco dinheiro que juntávamos servia para engordar quem mais tinha. Davam-nos esmolas magras, sabendo que a eles voltariam obesas quantias. Deixámos de os alimentar e, nesses dias, em que ninguém sentiu a falta do nosso contributo, juntámos uma escassa quantia para comprar o bilhete e assim partimos.
Por alguns tempos vivemos num nomadismo que não tinha uma ínfima comparação com o sedentarismo da nossa realidade passada. Cruzámos planícies, montanhas, pontes, rios, cidades...os dias passavam e o mapa que levávamos connosco ia ficando com mais anotações do que com nomes de cidades.
De onde viemos, não havia notícias. Deixaram de dar importância a esse sítio de onde só ouviam misérias e de misérias toda a gente se farta e, por vezes, há que saber virar as costas, ou comprometermos a nossa felicidade porque nunca tudo, nem nunca nada.
Um dia, o que começou como uma brincadeira num labirinto, fez-me perder-te. Durante dias percorri cada espaço desse labirinto, sem sucesso, sem pistas, sem nada. Gritei por ti, não te ouvia. Estava só, estava longe, estava perdido também.
Voltei ao comboio, mas não voltei a atrás.
Decidi continuar a minha jornada. Se não te encontrei, nem viva, nem morta, é porque ainda por aí estarás e, se continuas também a tua jornada, aquela que começámos juntos num lúgubre apeadeiro, em algum ponto, te encontrarei, talvez solucionando um outro labirinto, num outro sítio, num outro momento, numa outra esperança...




Músicas para Escrever XXXIX, Epigram - The Spectator (Interlude 2)


Já imaginaste a escuridão que se vincularia à noite se, a cada oportunidade de brilhar, cada estrela se desertasse da constelação que integra em busca de um brilho a solo num "sabe-se lá onde", que ninguém conseguiria achar? Ficaríamos sob a monotonia de uma manto unicamente negro onde, talvez, apenas restasse a lua, já que é o único planeta secundário que assegura algum destaque. Mas o que é cada estrela a brilhar individualmente, ainda mais longe, um ponto cintilante ainda mais imperceptível?
A beleza das estrelas deixaria de existir com o colapsar das constelações, esses conjuntos que integram e que todos os que vêem procuram encontrar porque são belos, porque neles há uma geometria natural criadora de harmonia, porque são tão antigos que nos serviram de inspiração e, em torno deles, criámos lendas, demos repouso a personagens únicas.
E da lua? O que seria dela sem o adorno das estrelas e das constelações? Um pobre corpo nu sem qualquer amparo, que não conquistaria outro corpo, nem com essa exibição de nudez. Que comparação teria ela, no restante firmamento, para se vangloriar do seu brilho que, mesmo não sendo mais do que um reflexo, é o que mais se destaca à nossa vista quando a noite nos envolve?
Talvez outro Big Bang não fosse, de todo, uma má ideia. Todos os corpos desfeitos e novos corpos feitos com os restos espartilhados de todos esses corpos desfeitos.




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost


How long? How long? This is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't figure out why I'm still here awake for days or months perhaps. Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent. É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de mémoires.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!




Músicas para Escrever XXXV, I Am The Architect - Quit


Estou exausto, sem ter mais nada para oferecer, sem ter mais nada para brilhar, mais ninguém para me aquecer. Toda a minha vida fui como uma caixa de fósforos nas mãos de diferentes "alguéns" e, enquanto havia mais algum fósforo para incendiar, eu fui feliz, eu aqueci,eu criei luz, eu deixei memórias ou, na maioria da vezes, fui apenas ocasionalmente útil, como alguém que é prostituído sem saber o que realmente lhe estará a acontecer. A princípio tudo era fulminantemente belo e radiante, aquela áurea inicial era o um fascínio nunca me apercebi da sua efemeridade de tão cego que o clarão me deixava... Aos poucos fui-me apercebendo que, a a cada fósforo que esses "alguéns" acendiam, a minha insanidade começava a alastrar-se como um cavalo num galope furtivo. Houve dias em que não distinguia a realidade e as miragens, ficava perdido sem ter para onde ir, cada vez mais mentalmente instável e enfermidades me foram acometendo o interior. Este é o meu último momento de sanidade, antes de se queimar o último fósforo e este sou eu que o quero acender e, assim que o fizer, será disparada a bala destinada para o meu fuzilamento.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIV, Epigram - This Is Not Where We Are Supposed to Be


Ele despediu-se, desceu as escadas lentamente e saiu de onde não queria sair e acreditou que ela também não queria que ele saísse. Assim teve que ser – talvez não, não tinha que ter sido assim, pensa hoje! Caminhou rua abaixo, hesitando cada passo, sentia-os pesados como se o chão o agarrasse porque, no fundo, até o chão sabia que ele se movia contra a sua vontade. Antes de virar a esquina olhou novamente para trás, talvez imaginando como seria se não tivesse saído, mas os "ses" são o mais drástico inicio de qualquer pergunta, levam sempre ao arrebatador arrependimento. Não sabia se ela ainda o observava, mas queria acreditar que sim. Bem lá dentro acreditava e sentia-se feliz, explodindo em palpitações.
Dessa vez não se irritou por estar a chuviscar  pelo contrário, desejou que aquela chuva caísse mais intensamente e o molhasse completamente e, num acto de "não quero saber", voltasse para trás com o pretexto de pedir abrigo e não tivesse que ir embora, mas não o fez porque a chuva também não realizou o seu desejo. Continuou, olhando uma derradeira vez, não imaginando nunca que fosse a última, na esperança de ver a sua silhueta espreitar por trás da cortina de alguma das janelas, mas não viu nada.
Chegou ao quarto e pensou deitar-se vestido sobre a cama. A sua roupa detinha a fragrância do espaço dela e, por momentos, perdia a noção do seu quarto e acreditava que, afinal, não teria ido embora mas, quando abria os olhos, via-se novamente no seu cubículo, completamente sozinho. Despiu-se, enfiou-se na cama e quis adormecer depressa. Assim aconteceu.
Dias, noites, semanas, meses, anos passaram...ainda continua à espera e desespera a cada dia, a cada noite, a cada semana, a cada mês, a cada ano.
Nunca mais a viu!
Nunca mais a viu da mesma maneira como quando se despediram naquela noite.
Hoje vive na mesma rua onde tudo aconteceu, numa casa mesmo em frente onde ela vivia, mas ela já não vive ali. Já não sabe onde ela vive, no entanto, todos os dias, antes de se deitar, vem ao jardim e pára a olhar para as janelas onde outrora desejou ver a sua silhueta.




domingo, 30 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIII, Epigram - What's Mine Is Yours


Jazia sozinho no sofá, embrulhando-se numa manta colorida por remendos. Nem nas noites mais frias de Inverno dormia na sua cama. Ficava no sofá da pequena sala com uma porta para a rua e nunca trancava a porta, acreditando que alguém poderia querer entrar para lhe dar algum conforto. A televisão ligada toda a noite para ter algumas companhia e já lhe eram familiares as vozes mais comuns como a voz de alguém próximo que o saúda na abertura do primeiro jornal e lhe deseja boa noite depois das últimas notícias, já que mais ninguém o faz.
A sua amada morrera acamada e havia-se habituado a ocupar o sofá para não perturbar o sono da pessoa que havia amado ao longo de toda a sua vida. Ali ficava e quando, por algum motivo, despertava durante a noite, espreitava pela porta entreaberta do quarto mas rapidamente voltava para o sofá para adormecer e esquecer que sua amada já ali não jazia como ele. A cama que, para ele, não fazia sentido, pelo menos só para ele.
Todas as manhãs, quando acordava, voltava ao quarto para enfrentar a sua dor e ter a certeza da sua solidão, abria a janela e voltava a fazer a cama que ainda guardava duas marcas corporais no colchão.
Nesse noite, decidiu ficar no quarto. Estava cansado das mesmas vozes da televisão que, apesar de o saudarem ou dele se despedirem, apenas lhe traziam notícias de um mundo triste, talvez mais triste do que ele. Adormeceu, ao lado do espaço côncavo da sua amada, para não mais acordar.



sábado, 29 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXII, Mono - Halo (II)


NOITE DESAFORTUNADA: Bom dia, ESQUECIMENTO!

(Porque é que a luz do quarto tinha que estar programada para se acender quando toca o despertador? Má ideia para dias como este!)

Não é que, de facto, seja um bom dia, mas então, por que raio, é que digo bom dia ao ESQUECIMENTO e não me calo ou me viro para o outro lado e adormeço de novo e tento, assim, curar esta ressaca de sentimentos? Que mania de cumprimentar tudo e todos e, na maioria das vezes, fazer figura de idiota porque não se é correspondido, como aquele aceno que ninguém vê, ou as palavras que ninguém ouve. Que mania de se acreditar que todos reagirão do mesmo modo que se reage com eles. Tretas!, na maioria das vezes não é porque não vêem, mas sim porque ignoram! Quem é que nunca ignorou um aceno ou desviou o olhar para evitar alguém?

(Por que é que tinha que estar a chover hoje também?)

Espera, já me lembro do porquê de ter dito bom dia:
Quis fazer-me amigo do ESQUECIMENTO para que ele levasse tudo o que tenho no pensamento para bem longe e me fizesse esquecer a quem tinha entregue as minhas MEMÓRIAS. Ontem deitei-me e não consegui sonhar, pelo menos, com não aquilo que necessito e que me ajudaria a encontrar uma realidade que se vai esfumando sem deixar rasto entre as minhas MEMÓRIAS e as imagens desse sonho vão ficando, aos poucos, cada vez mais desfocadas. Mas até o ESQUECIMENTO se esqueceu de mim ou me ignora: acenei-lhe, ensonado, e não reagiu, disse-lhe bom dia, para me fazer ouvir e, nem aí, obtive algo recíproco.

(Será que vale a pena sair da cama hoje? Será?)

O conforto caloroso da cama nesta manhã fria e chuvosa faz com que este cenário se torne num dos melhores remédios para tão agressiva ressaca de sentimentos porque oferece várias hipóteses: hibernação social ou alheamentos através de sonhos, sem termos que ver quem ou aquilo que nos esquece, ou pior ainda, encontrar quem ou aquilo que nos vimos forçados a esquecer sem intervenção voluntária do ESQUECIMENTO.
Se ainda alguém me trouxesse um chá à cama era perfeito. No entanto, há algo que se assemelha a um medo quando penso na hipótese de atravessar a porta do quarto e involuntariamente ver alguém pela janela, ou que esse alguém me veja a mim através dela.  Mas terá que ser, vou à cozinha rapidamente e volto para me enfiar aqui, como um ninja.

A CAMPAINHA!? (Quase deixei cair a chávena do chá!)

Alguém me viu. Não, não! Não pode ter visto! 
Não estou em casa. Deixa-me ficar aqui quieto.

Não, vou lá espreitar em silêncio.

- Abre a porta, sei que estás aí!

Como é que...?

- Sei que estás aí. Dá para ver a tua sombra por baixo da porta?

Eu não disse que deveria temer as janelas? Não diretamente por elas, mas através da luz que entra por elas, acabei por ser visto. Que faço agora?
Deixa-me entrar!

- Bom dia! - (Disse isto outra vez, depois de ceder e abrir a porta.)
- Tens a certeza disso?
- Definitivamente, não!
- Anda cá!
- Não sei se será boa ideia...
- Acredita que é a melhor.
- E se partes de novo?
- Não parto! Anda cá!

Não dei mais passos, deixei-me cair na direção desse alguém que me descobriu e se me ofereceu delicadamente.
E foi assim que vim ter a este estado de quarentena, que eu próprio criei para me proteger!




Músicas para Escrever XXXI, The Best Pessimist - Closeness


Foi o despertar mais angustiante da última temporada de noites mitigadas por pesadelos, no entanto, desenganem-se os que pensam que este angustiante despertar me libertou de um pesadelo. Pelo contrário, foi angustiante porque me despertou de um sonho que quase se tornava realidade, à medida que tudo se ia colorindo. Foi a noite de descanso mais arrebatador depois de tantas noites em que acordei sentido-me afogar sem conseguir vir à superfície e gritar por ajuda.
Esse sonho foi a cura, aliás, não foi, mas seria se não tivesse acordado. Insisto em continuá-lo sempre que me leva para longe a imaginação. E volto ao ponto de partida para esse meu despertar angustiante. Tudo é tão nítido como muitos poucos sonhos que tive até hoje.
Onde foi tudo isto? Onde estava eu?
Tudo me parecia familiar. Eu já vivi ali, seguramente. Conheci todos os espaços e quem lá estava não tinha feições desconhecidas.
Hoje deito-me na esperança de lá voltar e conseguir-me libertar desse rio de esquecimento onde me tenta derrotar o afogamento e nadar até uma margem segura. Então, aí, saberei onde encontrar essa realidade ou utopia, não me fará grande diferença, esperando não chegar demasiado tarde!



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXX, Isis - Weight


Quando confrontado com abismos tentadores, que encantam como curandeiros com remédios para algumas dores e opressões, agradeço não me ser possível recorrer a eles. Quando confrontado com o cano do revólver arranhando-me o céu da boca, agradeço que a bala não possa ser disparada disparada. Quando confrontado com a corda bem justa ao pescoço, agradeço que ela se rompa se, por algo motivo, acabar por saltar.
Se saltasse, se disparasse, se me pendurasse ficaria a dor e a opressão por se libertarem e o meu cadáver estilhaçado lá no fundo do precipício, o rosto parcialmente desfigurado, o pescoço com um colar tatuado pela esmagadora força da corda, não teriam libertado nada e apenas perderia o albergue de uma espírito melancólico que vagueia entre várias falésias numa incessante busca de respostas.
E volto ao ponto de partida pelo mesmo caminho que percorri para este fim de curso porque todos nascemos para viver e resistir. O caminho de volta é mais mais sinuoso, ainda que a vida esteja salvaguardada por momentos, que podem ser estendidos, no entanto, o âmago não se cura com remédios passageiros ou antibióticos tomados pela metade. Tudo isso, a seu tempo, apenas fortalece os vírus que destroçam o interior, que já é pouco mais do que um mundo num período pós-apocalíptico. 
Não quero morrer gradualmente, perdendo uma víscera de cada vez, vomitando remorsos, tossindo arrependimentos ensanguentados!



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXIX, Mogwai - Christmas Song


Foi mais um dia. Um dia de lareira e chuvas alternadas com luzernas.
Um dia de agudos e graves. Agudos momentos de recordações e graves momentos de moleza num sofá que hesita libertar qualquer um que nele procure conforto para aproveitar algum calor, seja ele vindo da lareira ou humano. Como terá sido o balanço do conforto neste dia?
Eu marquei o meu lugar entre esse sofá e o divagar pelos corredores da casa ou pelo jardim quando a chuva dava tréguas.
Invejei os pássaros em debandada, aproveitando os momentos em que o céu se apresentava limpo. Invejei as nuvens que se moviam, para locais cada vez mais longínquos, amparadas pelo vento. Invejei a chuva pela adrenalina de cada gota em precipitação.
Foi mais um dia e promessas e propagandas humanistas que voltarão novamente, apenas no próximo ano (e espero estar errado). Posso não ter aproveitado devidamente este dia. Talvez porque não aprecie coisas demasiado efémeras, talvez porque prefiro ver o lado bom das pessoas todos os dias e não apenas neste dia que passou, ou nas suas vésperas coloridas por imensas luzinhas e canções imortalizadas  É, de facto, bom que, em algum momentos, este sentimentos de humanismos e humanidade sejam instigados, no entanto, é triste que tenha que haver uma época para fazê-lo. Nem tudo tem que ser tão específico quando se trata de revelar a humanidade que há em cada Ser.




terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXVIII, God Is an Astronaut - In The Distance Fading


A minha visão está turva. O que está na distância não é mais do que uma aguarela cada vez menos nítida.
Não é só obra do que enche este copo que me faz companhia. Todo o meu rosto está lavado e não é apenas chuva, nem são apenas lágrimas. São dois tipos de gotas ou gotículas unidos, como uma mão que lava a outra, como uma boca que beija a outra, como dois corpos que se unem um ao outro, num abraço ou sobre o deslizar de um lençol. As lágrimas salgam as gotas de chuva e o chão onde caem prova um novo aroma. As gotas de chuva confundem-se com as lágrimas e não é perceptível se choro ou não.
Talvez porque choro à chuva, porque faço dela uma confidente, nunca ninguém me viu a chorar e passo por ser alguém com ventrículos de gelo. Posso limpar os olhos para afastar as lágrimas, ou posso limpá-los porque a chuva me continua a turvar a visão. Ou serão as lágrimas que, ao se formarem, me embaciam os olhos? Ou será o vinho que já não me deixa ver nitidamente?
Não distingo e ainda bem, não quero dissipar esta confusão que não me atormenta. Não me fixo apenas nas lágrimas ou na chuva, na dor ou no frio, nos que partiram ou nos que partirão ou, pior, ainda, nos que vejo partir, quando acontece e não há nada que possa fazer. Estou sozinho porque ninguém veio para a chuva comigo. Porque não quiserem, porque estava frio, porque não se queriam molhar, ou porque não convidei. O problema não terá que estar sempre em apenas uma das partes!
Lágrimas de mágoa, chuva que as vai dissolvendo, dando-me algum conforto. Arrojadas gotas de chuva que me percorrem o corpo, como uma mão fria que me acaricia e arrepia. Não quero levantar-me daqui, não pares chuva, quero continuar a sentir-te. Dissolve a minha mágoa de saber que, mais tarde ou mais cedo, todos os que conheço partem.
Hoje é uma noite de chuva e sinto que o céu chora pelos mesmos motivos que também eu choro, que tu choras, que alguém chorará também...Quando voltar, voltarei apenas de uma circunstância em que andei banalmente à chuva, mas, ainda que encharcado, voltarei mais leve, sem o incomensurável peso das lágrimas soltei e que, pela chuva, foi dissolvido e expiado.




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Músicas par Escrever XXVII, Ludovico Einaudi - Lady Labyrinth


Flor de laranjeira...Esta fragrância inconfundível que enche todo o espaço onde permaneço.
Se fechar os olhos imagino-me num laranjal florido e a brisa traz-me todas as memórias que me levam a esse vale, entre montanhas, onde reina a serenidade.
Lamento ter partido e ainda mais lamento não saber voltar.
Preciso que essa fragrância não seja passageira e se prolongue. Preciso disso porque já não me bastam as memórias. Preciso do prolongamento dessa fragrância a flor de laranjeira para voltar a esse vale porque há em mim uma necessidade de forjar novas memórias.
Preciso de partir antes que parta também para longe esta fragrância porque com ela partiriam as poucas memórias que restam.
Peço à noite que se continue a acompanhar desta fragrância e, se assim acontecer, em breve partirei.