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domingo, 2 de junho de 2013

Músicas para Escrever LIV, Fever Ray – If I Had a Heart


Ele nunca disse nada, não porque as palavras fossem poucas ou porque sofresse de mudez em determinados momentos. Não disse, nem dizia, porque, no seu entendimento, não deveria afectar as decisões ou as acções das pessoas que o rodeavam. Este era o seu meio de respeitar a liberdade total de quem conhecia.
O seu silêncio de liberdade era considerado muitas vezes como uma apatia profunda e estagnação emocional. Na verdade, tinha os seus momentos de apatia e solidão por ser incompreendido, no entanto, também compreendia as pessoas e estava consciente da condição de repressão sentimental. Ele próprio havia diagnosticado essa patologia em si mesmo.
Muitas vezes não falava porque não lhe perguntavam e não se lembrava de que às vezes era necessário ceder.
Muitas vezes não falava porque algo o prendia bem lá dentro.
Mas ele não era apático. Ele adorava as pessoas e queria conhecer sempre mais pessoas e, de facto, conheci-as, mas os quilómetros de distância eram uma constante sempre que conhecia alguém. Muita gente pensaria talvez que seriam as pessoas erradas, mas isso foi algo que nunca lhe ocorreu. Ele próprio havia sido desde sempre uma deambulante, aqui e ali, sem um lar fixo, pois qualquer sofá poderia ser o seu lar perfeito.
Um dia apoderou-se dele uma enfermidade gravíssima e foi aí que tudo começou a desabar, tornou-se um desgraçado mendigo de emoções que não sabia processar ou expressar. O seu mundo já não era o mesmo. Uma fobia social foi-se apoderando dele. Já não falava em público. Já não caminhava de cabeça erguida. Os seus projectos já não saiam mais do pensamento, a vontade estava perdida ou esquecia-se sempre dele para onde quer que fosse e isso era o que mais o dilacerava e os seus olhos estavam baços como nunca haviam estado, tinham perdido o brilho de tantas lágrimas que tinham salgado a pele áspera do seu rosto e, em consequência disso, a visão havia-se deturpado, vendo apenas sombras em alguns momentos.
Um dia, estando a passear numa falésia, tentando encontrar respostas, aproximou-se demasiado do limite e, esquecendo a sua vontade viver, caiu e não mais foi visto. Quero acreditar que encontrou conforto naquele mar imenso tão salgado quanto as suas incontáveis lágrimas.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"A Morte do Autor" (Barthes, 1987)


“O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”
Há já vários anos que o Autor reflectia sobre as palavras de Roland Barthes, tentando encontrar nelas algum sentido para a sua moderna existência e para o seu futuro, ora trémulo ou pungente, ora corroborado ou exaltado. Todos esses anos, sob reflexões sobre essas palavras de Barthes, foram também os necessários para o Autor produzir a sua última obra, que seria a mais brilhante e aclamada. Este foi o tempo profícuo da sua existência, da sua vida, talvez da sua longa linhagem, da qual não contarei já o desfecho.
Desde o final da Idade Média, com o Renascimento e os seus ideais humanistas antropocêntricos de afirmação do indivíduo, com o racionalismo francês, com a Reforma Protestante, com o empirismo inglês, com o positivismo, instalou-se no mundo ocidental a família do Autor, uma estirpe centrada no “prestígio pessoal do indivíduo”. É uma família com imensos membros que começaram a afirmar-se e a vigorar, um pouco por todo o lado, detendo a autoria de tudo o que iam produzindo, criando uma cisão com o anonimato ou colectivos anteriores dos apreciados cancioneiros.
A verdade é que ainda hoje os vários membros deste clã Autor reinam na história da literatura, nas biografias dos escritores, em revistas, em jornais, em entrevistas, nas críticas devido à incapacidade dos críticos em dissociar a obra e a pessoa que a produz, na feroz necessidade de encontrar na obra os gostos, os ideais, as paixões, a pessoa, o carácter autobiográfico do Autor, levando a que a imagem da literatura destes tempos seja “tiranicamente centrada no autor”.
De facto, o Autor detinha, na sua enorme mansão, um grande espólio de recortes, registos de tudo aquilo que havia sido centrado nele: entrevistas, resenhas e críticas literárias, biografias oficiais e não oficiais, autorizadas e não autorizadas, artigos de jornais ou de blogues, estudos que entrelaçam o escritor e a obra. Tudo isto estava num mausoléu que criou, como um santuário, o seu próprio santuário, que ele próprio venerava mas que, nesses últimos tempos, pensando nas palavras de Barthes, havia descuidado e o pó amontoava-se sobre todos aqueles livros, a luz ia fazendo desaparecer as letras dos recortes, assim como a humidade os ia fazendo apodrecer.
Anteriormente, o Autor queria ser ele próprio conhecido através da escrita que considerava sua, de uma linguagem que também pensava ser sua, de tudo que cria ser centrado em si. Mas a escrita não era sua, a linguagem também não o era. Nada era seu, a não ser a mão que escrevia e a vontade! Primeiro estranhou: o seu mundo, até ali tão idílico, aparentemente inefável e tão seu, abalou-se, desmoronou-se, desconstrui-se. Depois entranhou-se: a sensação era boa, sentia uma liberdade correr em toda a sua inspiração. A linguagem passou a falar por ela própria e não o Autor, que sentia a magia de desaparecer, como um mago, deixando apenas um pouco de magia que daria liberdade total a quem a recebesse. A performance descentralizou-se assim, passando do “eu” para a “linguagem”, dando seguimento à poética de Mallarmé: “suprimir o autor em proveito da escrita”. É isto que passa a ser importante para esse intitulado Autor que, assim sendo, já não é mais Autor, mas simplesmente aquele que escreve. Durante algum tempo, o Autor invejou Proust pelo sei feito de, ao invés de passar a sua vida para o romance, fazer da sua vida uma obra. Depois descobriu o seu próprio caminho.
Previamente, durante o Surrealismo viveu um período de eremitismo. A ideia de partilhar um texto com alguém, de experimentar uma escrita a vários fazia-lhe confusão, provoca-lhe náuseas por ter de misturar uma substância, que considerava tão sua, com a de outrem, que provavelmente nunca havia conhecido. Sentiu raiva com o contributo dos surrealistas “para dessacralizar a imagem do autor”, que fez do Autor aquele que simplesmente escreve, passando a linguagem apenas a conhecer o “sujeito” e não a “pessoa”. O Autor, isolado em sua ermida, sentia a dor de algo que considerava uma doença que acometia outros membros da sua estirpe e, esse foi um tempo diferente, não produziu nada.
Após esses tempos de isolamento, novas tendências vieram e o Autor ia ficando atento, no entanto, mantendo a sua distância, preservando a sua integridade de Autor. Continuava sem escrever, aumentava-lhe a angústia dessa solidão, desse individualismo, desse reconhecimento massivo impertinente em tudo aquilo que escrevia e do qual nunca conseguia dissociar-se. Mas, eis, que chegou o dia e muralhas de conceitos e ideias se demoveram para deixar entrar em si algo novo, algo conquistado por uma liberdade que no fundo, sem que o soubesse, lhe agradava. Nasceu em si, então, o scriptor. Começou a fazer sentido em si o aqui e o agora, ao invés de eternidades monótonas que com ele se arrastavam, como correntes das quais não conseguia libertar-se. Esse seu íntimo scriptor nasceu quando começou a escrever o seu texto, esse derradeiro texto de liberdade, que será delegada, de dimensões múltiplas, entre matrimónios e uniões de escritas variadas, que originam novas escritas, sem que nenhuma delas fosse contudo original, quando sem amarras oferecer o texto ao mundo. Assim, já não detém, como anteriormente, quando acerrimamente se afirmava como “o Autor”, paixões, impressões, sensações, sentimentos, ilusões, “mas sim esse imenso dicionário onde vai buscar uma escrita que não pode conhecer nenhuma paragem”.
O Autor, agora ancião, mas dotado de uma nova perspetiva plena de liberdade, sua e dos que receberem o texto que escreveu, já não procura impor-se à sua obra ou impor ao seu texto um último e derradeiro significado, castrando o desconstruir que possa vir a ser processado pelo leitor para deslindar o que lê, fazendo disso “coisa” do passado, dos seus antepassados retrógrados.
Após todos esses anos, o Autor encontra um herdeiro, que nunca imaginou vir a ter. Todo o seu individualismo e tentativas de exaltação levaram ao seu isolamento, a uma envelhecer solitário. Desconstruíram-se, então, ideias e pensamentos tidos como verdades absolutas e, assim, um texto passou a ser “feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação.” No entanto, há um lugar, alguém onde tudo se encontra e esse alguém é o herdeiro do Autor, que passou a scriptor, o leitor, alguém que até li nunca tinha sido valorizado. É este leitor que dará vida ao escrito porque é para ele que, afinal de contas, o escrito conflui.
Terminado o seu texto, o Autor em tempos, agora scriptor, consciente da realidade e da liberdade que se propõe a delegar, após entregar o texto ao leitor, bebe o seu derradeiro cálice de licor onde acrescentou algumas gotas de cianeto porque “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. Era uma bela tarde de primavera e o sol brilhava no horizonte. Na mesa onde se sentava, de frente para uma jardim que começa a ganhar imensas cores, restou uma carta que serviria de testamento e havia um único pedido:
“Por toda a felicidade e tranquilidade que a escrita me trouxe, pelo sentido que ela deu à minha débil existência, nestes derradeiros anos e pela companhia que me foi oferecida pelo scriptor, peço gentilmente que não tirem liberdade ao derradeiro texto que envio ao mundo, que quando lido será do leitor e não meu, e, ao invés de um nome, vigente durante séculos, que comigo quero enterrar, conste apenas o scriptor”.
O texto percorreu o mundo, em várias línguas até, como nunca havia acontecido, e, respeitando a último pedido de quem escreveu, sem que ninguém soubesse quem era o misterioso “o scriptor”, o texto foi desconstruído inúmeros vezes, deslindado pela milésima vez, lido vez sem conta porque ninguém sabia que paixões alheias procurar, que pessoas procurar. Afirmou-se o aqui e agora, rodeado de “sujeito” e não “pessoas”. Era um texto sobre a loucura e ninguém sabia se essa era a loucura do Autor, que ninguém conhecia, do scriptor, do “sujeito”, da “pessoa”, do leitor, de alguém. Era a loucura para quem quisesse vivê-la, para quem quisesse experimentá-la, interpretá-la à sua maneira e seria sempre diferente, dependendo do aqui e do agora, da circunstância da sua leitura.




António Campos Soares



Bibliografia específica

BARTHES, Roland – “A morte do autor”, O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, pp. 49-53

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever L, Mono - The Battle To Heaven


"Car tous les hommes désirent d'être heureux: cela est sans exception. Quelques différens moyens qu'ils y emploient , ils endent tous à ce but. Ce qui fait que l'un va à la guerre, et que l'autre n'y va pas, c'est ce même désir qui est dans tous deux accompagné de différentes vues." 

Blaise Pascal


A vida é como um texto porque a língua – escrita ou não – é também uma forma de acção. Não é que todas as regras que envolvem a língua tenham que ser seguidas escrupulosamente porque, se deténs o conhecimento formal que é fundamental, podes reinventar.
Podes usar reticências ao invés de um ponto final. Podes escrever frases mais longas e fazê-las semelhantes a um sonho que queres prolongar ou a uma divagação que não queres abandonar e continuar... Podes fazer essas mesmas frases curtas! É contigo! Podes adulterar a ortografia, se assim entenderes, porque há palavras que ditas ou escritas de outra maneira, em alguma circunstância, te soam melhor assim, te fazem rir, te perpetuam aquele momento, te relembrar alguma pessoa – infelizmente agora não me estou a lembrar de nenhuma mas isso acontece! Podes jogar com as palavras porque, em determinado momento, uma mesa pode ter sido muito mais que uma mesa onde costumas jantar só e naquele exacto momento não estavas sozinho ou sozinha. Podes florear para criar cenários idílicos que pretendes levar ao mais ínfimo dos pormenores ou criar charadas de quem foste realmente ou de como apenas te representaste nas histórias que escreveste quando não o pudeste ser na realidade. Tudo isto porque, quando conheces bem, dominas ainda melhor. E aprende, aprende a cada dia e com cada palavra.
O importante é não deixar nada em suspenso, pelo menos para ti, que escreves o teu texto. As dúvidas não fazem bem porque são como cruzamentos duvidosos e muito mal sinalizados em que, enquanto decides avançar ou não, podes ser surpreso por alguma infelicidade, por isso, não fiques na dúvida e se, no final daquele parágrafo, deverias ter deixado reticência, ou por fraqueza não quiseste colocar um ponto final, ou se aquele pensamento, esquecido entre outras frases, deveria ter tido destaque e passado a uma intervenção tua, mesmo que sem deixa, certifica-te que isso não te passou em vão.
Não deixes frases inacabadas em que, na posterioridade, alguém perversamente possa alterar o sentido de alguma circunstância que te envolveu ou em que, com a melhor das intenções, te envolveste apesar do anonimato que injustamente te atribuíram no final da história quando alguém gritou vitória e te esqueceu.
Talvez a razão de muito mal-estar que nos mitiga seja mesmo a falta de coerência e sanidade que nos assoma quando deixamos pontas soltas em algo que, ainda não estando o nosso texto acabado, pensamos lá voltar para resolvê-las, no entanto, não o fazemos porque são tantas e nos esquecemos e quando está publicado o nosso texto já é tarde demais. FIM!





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVIII, Aesthesys - Scrolling In Mind Images Of The Past Day Before Falling Asleep

À beira mar tudo parece mais sereno ainda que o mar queira mostrar a sua força.
Quando está calmo, faço barcos de papel e neles embarco os meus sonhos e ordeno que cheguem a um porto seguro e acolhedor, longe da angústia que está para lá do que fica à beira mar. Quanto está bravo, atiro nele e nas suas ondas as minhas mágoas e tristezas para que se dissolvam e encontrem algum repouso longe.
Estou cansado, mitigado e esta esperança, outrora mais forte que um colete à prova de bala, é hoje um casaco de malha desfeito que me dá aparência de mendigo. E quem sabe, sou mesmo um mendigo, não à procura de esmola, mas sim de um porto de abrigo.




sábado, 12 de janeiro de 2013

Músicas Para Escrever XLV, God Is an Astronaut - Point Plesant

Não olhes para mim assim, não outra vez, por favor - digo-te eu em silêncio porque não consigo fazer com que as palavras me saiam e não estou seguro se entenderás este meu constrangedor silêncio. Sabes que há nisso uma extrema crueldade? Sabes que a minha resistência, não é, de facto, uma resistência? Sabes que não é uma aceitação, mas sim uma dor difícil de se suportar? Não o faças, por favor, se ficarei só novamente, não terei força para esse confronto. Sabes que levas a melhor das vantagens sempre que o fazes e matas-me, matas-me de cada vez que isso acontece porque não está na minha natureza contrariar-te, nem repudiar-te, nem esquecer-te, nem desejar vingança. Ainda que na minha vontade, bem na sua essência eu possa contrariar-te e, no mais recôndito secretismo, ter-te, não ouso deixar-te sabê-lo, ou incorreria no meu penitenciário fim.
Fazes surgir em mim instintos fortes e de enorme adrenalina  que não consigo revelar porque esse teu olhar me petrifica. E aceito-me, assim, em condição de serventia, sendo o lacaio enamorado pela senhora que me prende, talvez sem saber, talvez tirando prazer desse arrebatamento que provocas em mim porque há diferentes fontes de prazer: uns por desejar, outros por infligir, outros por reconfigurar e aproveitar. Talvez tu mesma sejas vítima de uma condição e essa condição criou em mim uma outra condição inferior, uma ligação feita por um elo extremamente defeituoso que, ainda assim, se aguenta. E tu sabes, assim morrerei, sem ti, mas contigo por perto.

Elle s'appellait Belle, la plus Belle Fantasie que je pouvais croie.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Mort que je pouvais attendre.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Vie que j'ai eu.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle mort qu'un Misérable pouvait avoir.




quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLII, Aesthesys - I Am Free, That Is Why I'm Lost


Será um ser dependente enquanto seguir os caminho que não são os seus. Não será vitorioso enquanto lhe atribuírem sucessos atingidos numa batalha que não é a sua. Será um feliz sem ânimo enquanto apenas contribuir para uma felicidade que não é a sua. Este é o mais que conhecido Fidalgo Maldição. 
Continua sentado com a chávena de chá que se vai esfriando nas suas mãos. Há muito que os dias que contempla pela ampla janela, onde a vidraça é fustigada por fortes chuvas, são cinzentos e com muito poucas horas de luz. É uma tempestade perene e já não guarda em si esperança de avistar dias de bonança.
Rodeia-se de diplomas encaixilhados e cobertos por pó que se vai acumulando porque se cansou de os limpar e os exibir magistralmente. Também não deixa que os abrilhantem mais, salvo para um propósito diferente, que nunca aparece. Até hoje não o levaram a nenhuma saída que não fosse a previsibilidade dos mesmos resultados de sempre. É este o seu (só seu?) triste apanágio.
Está já gasto o veludo dessa poltrona majestosa onde se senta e as almofadas estão côncavas, como um caixão feito à medida para que o cadáver não se mova com a mínima trepidação. Se tarda a bonança, sabe que não deve tardar o tempo para apenas sair dali solenemente deitado e embrulhado num lençol de linho branco com insígnias que o prenderam e de pouco lhe valeram.
Decisões dos passados tempos de bonança com pesadas correntes consequenciais que o prendem num luxuoso salão nobre quando já passou o tempo da nobreza e esse é o seu cárcere.
Cai-lhe a chávena, espalhando-se os cacos nesse lustroso chão que emana o cheiro da cera. Arremessa os candelabros com velas acesas e começa a ver o fim, uma luz forte que se propaga e o aquece como os dias de sol que há tanto espera contemplar. Deixa para trás traz o robe de cores ridículas  que rapidamente é consumido pelo fogo, assim como todos aqueles papéis escritos pela rotina. Sai e assoma-se-lhe o espanto quando vê o sol e apercebe-se que todo o cinzento, que via da janela, era uma ilusão criada pela desilusão que sentia. Quebra-se assim a Maldição do Fidalgo que, celebrando as ruínas de tudo aquilo que o prendia, se torna Fidalgo Libertação, Fidalgo Criação, Fidalgo Imaginação, Filho De Algo que há tanto ansiava.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost


How long? How long? This is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't figure out why I'm still here awake for days or months perhaps. Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent. É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de mémoires.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIV, Epigram - This Is Not Where We Are Supposed to Be


Ele despediu-se, desceu as escadas lentamente e saiu de onde não queria sair e acreditou que ela também não queria que ele saísse. Assim teve que ser – talvez não, não tinha que ter sido assim, pensa hoje! Caminhou rua abaixo, hesitando cada passo, sentia-os pesados como se o chão o agarrasse porque, no fundo, até o chão sabia que ele se movia contra a sua vontade. Antes de virar a esquina olhou novamente para trás, talvez imaginando como seria se não tivesse saído, mas os "ses" são o mais drástico inicio de qualquer pergunta, levam sempre ao arrebatador arrependimento. Não sabia se ela ainda o observava, mas queria acreditar que sim. Bem lá dentro acreditava e sentia-se feliz, explodindo em palpitações.
Dessa vez não se irritou por estar a chuviscar  pelo contrário, desejou que aquela chuva caísse mais intensamente e o molhasse completamente e, num acto de "não quero saber", voltasse para trás com o pretexto de pedir abrigo e não tivesse que ir embora, mas não o fez porque a chuva também não realizou o seu desejo. Continuou, olhando uma derradeira vez, não imaginando nunca que fosse a última, na esperança de ver a sua silhueta espreitar por trás da cortina de alguma das janelas, mas não viu nada.
Chegou ao quarto e pensou deitar-se vestido sobre a cama. A sua roupa detinha a fragrância do espaço dela e, por momentos, perdia a noção do seu quarto e acreditava que, afinal, não teria ido embora mas, quando abria os olhos, via-se novamente no seu cubículo, completamente sozinho. Despiu-se, enfiou-se na cama e quis adormecer depressa. Assim aconteceu.
Dias, noites, semanas, meses, anos passaram...ainda continua à espera e desespera a cada dia, a cada noite, a cada semana, a cada mês, a cada ano.
Nunca mais a viu!
Nunca mais a viu da mesma maneira como quando se despediram naquela noite.
Hoje vive na mesma rua onde tudo aconteceu, numa casa mesmo em frente onde ela vivia, mas ela já não vive ali. Já não sabe onde ela vive, no entanto, todos os dias, antes de se deitar, vem ao jardim e pára a olhar para as janelas onde outrora desejou ver a sua silhueta.




domingo, 30 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIII, Epigram - What's Mine Is Yours


Jazia sozinho no sofá, embrulhando-se numa manta colorida por remendos. Nem nas noites mais frias de Inverno dormia na sua cama. Ficava no sofá da pequena sala com uma porta para a rua e nunca trancava a porta, acreditando que alguém poderia querer entrar para lhe dar algum conforto. A televisão ligada toda a noite para ter algumas companhia e já lhe eram familiares as vozes mais comuns como a voz de alguém próximo que o saúda na abertura do primeiro jornal e lhe deseja boa noite depois das últimas notícias, já que mais ninguém o faz.
A sua amada morrera acamada e havia-se habituado a ocupar o sofá para não perturbar o sono da pessoa que havia amado ao longo de toda a sua vida. Ali ficava e quando, por algum motivo, despertava durante a noite, espreitava pela porta entreaberta do quarto mas rapidamente voltava para o sofá para adormecer e esquecer que sua amada já ali não jazia como ele. A cama que, para ele, não fazia sentido, pelo menos só para ele.
Todas as manhãs, quando acordava, voltava ao quarto para enfrentar a sua dor e ter a certeza da sua solidão, abria a janela e voltava a fazer a cama que ainda guardava duas marcas corporais no colchão.
Nesse noite, decidiu ficar no quarto. Estava cansado das mesmas vozes da televisão que, apesar de o saudarem ou dele se despedirem, apenas lhe traziam notícias de um mundo triste, talvez mais triste do que ele. Adormeceu, ao lado do espaço côncavo da sua amada, para não mais acordar.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXX, Isis - Weight


Quando confrontado com abismos tentadores, que encantam como curandeiros com remédios para algumas dores e opressões, agradeço não me ser possível recorrer a eles. Quando confrontado com o cano do revólver arranhando-me o céu da boca, agradeço que a bala não possa ser disparada disparada. Quando confrontado com a corda bem justa ao pescoço, agradeço que ela se rompa se, por algo motivo, acabar por saltar.
Se saltasse, se disparasse, se me pendurasse ficaria a dor e a opressão por se libertarem e o meu cadáver estilhaçado lá no fundo do precipício, o rosto parcialmente desfigurado, o pescoço com um colar tatuado pela esmagadora força da corda, não teriam libertado nada e apenas perderia o albergue de uma espírito melancólico que vagueia entre várias falésias numa incessante busca de respostas.
E volto ao ponto de partida pelo mesmo caminho que percorri para este fim de curso porque todos nascemos para viver e resistir. O caminho de volta é mais mais sinuoso, ainda que a vida esteja salvaguardada por momentos, que podem ser estendidos, no entanto, o âmago não se cura com remédios passageiros ou antibióticos tomados pela metade. Tudo isso, a seu tempo, apenas fortalece os vírus que destroçam o interior, que já é pouco mais do que um mundo num período pós-apocalíptico. 
Não quero morrer gradualmente, perdendo uma víscera de cada vez, vomitando remorsos, tossindo arrependimentos ensanguentados!



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXIX, Mogwai - Christmas Song


Foi mais um dia. Um dia de lareira e chuvas alternadas com luzernas.
Um dia de agudos e graves. Agudos momentos de recordações e graves momentos de moleza num sofá que hesita libertar qualquer um que nele procure conforto para aproveitar algum calor, seja ele vindo da lareira ou humano. Como terá sido o balanço do conforto neste dia?
Eu marquei o meu lugar entre esse sofá e o divagar pelos corredores da casa ou pelo jardim quando a chuva dava tréguas.
Invejei os pássaros em debandada, aproveitando os momentos em que o céu se apresentava limpo. Invejei as nuvens que se moviam, para locais cada vez mais longínquos, amparadas pelo vento. Invejei a chuva pela adrenalina de cada gota em precipitação.
Foi mais um dia e promessas e propagandas humanistas que voltarão novamente, apenas no próximo ano (e espero estar errado). Posso não ter aproveitado devidamente este dia. Talvez porque não aprecie coisas demasiado efémeras, talvez porque prefiro ver o lado bom das pessoas todos os dias e não apenas neste dia que passou, ou nas suas vésperas coloridas por imensas luzinhas e canções imortalizadas  É, de facto, bom que, em algum momentos, este sentimentos de humanismos e humanidade sejam instigados, no entanto, é triste que tenha que haver uma época para fazê-lo. Nem tudo tem que ser tão específico quando se trata de revelar a humanidade que há em cada Ser.




terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXVIII, God Is an Astronaut - In The Distance Fading


A minha visão está turva. O que está na distância não é mais do que uma aguarela cada vez menos nítida.
Não é só obra do que enche este copo que me faz companhia. Todo o meu rosto está lavado e não é apenas chuva, nem são apenas lágrimas. São dois tipos de gotas ou gotículas unidos, como uma mão que lava a outra, como uma boca que beija a outra, como dois corpos que se unem um ao outro, num abraço ou sobre o deslizar de um lençol. As lágrimas salgam as gotas de chuva e o chão onde caem prova um novo aroma. As gotas de chuva confundem-se com as lágrimas e não é perceptível se choro ou não.
Talvez porque choro à chuva, porque faço dela uma confidente, nunca ninguém me viu a chorar e passo por ser alguém com ventrículos de gelo. Posso limpar os olhos para afastar as lágrimas, ou posso limpá-los porque a chuva me continua a turvar a visão. Ou serão as lágrimas que, ao se formarem, me embaciam os olhos? Ou será o vinho que já não me deixa ver nitidamente?
Não distingo e ainda bem, não quero dissipar esta confusão que não me atormenta. Não me fixo apenas nas lágrimas ou na chuva, na dor ou no frio, nos que partiram ou nos que partirão ou, pior, ainda, nos que vejo partir, quando acontece e não há nada que possa fazer. Estou sozinho porque ninguém veio para a chuva comigo. Porque não quiserem, porque estava frio, porque não se queriam molhar, ou porque não convidei. O problema não terá que estar sempre em apenas uma das partes!
Lágrimas de mágoa, chuva que as vai dissolvendo, dando-me algum conforto. Arrojadas gotas de chuva que me percorrem o corpo, como uma mão fria que me acaricia e arrepia. Não quero levantar-me daqui, não pares chuva, quero continuar a sentir-te. Dissolve a minha mágoa de saber que, mais tarde ou mais cedo, todos os que conheço partem.
Hoje é uma noite de chuva e sinto que o céu chora pelos mesmos motivos que também eu choro, que tu choras, que alguém chorará também...Quando voltar, voltarei apenas de uma circunstância em que andei banalmente à chuva, mas, ainda que encharcado, voltarei mais leve, sem o incomensurável peso das lágrimas soltei e que, pela chuva, foi dissolvido e expiado.




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Músicas par Escrever XXVII, Ludovico Einaudi - Lady Labyrinth


Flor de laranjeira...Esta fragrância inconfundível que enche todo o espaço onde permaneço.
Se fechar os olhos imagino-me num laranjal florido e a brisa traz-me todas as memórias que me levam a esse vale, entre montanhas, onde reina a serenidade.
Lamento ter partido e ainda mais lamento não saber voltar.
Preciso que essa fragrância não seja passageira e se prolongue. Preciso disso porque já não me bastam as memórias. Preciso do prolongamento dessa fragrância a flor de laranjeira para voltar a esse vale porque há em mim uma necessidade de forjar novas memórias.
Preciso de partir antes que parta também para longe esta fragrância porque com ela partiriam as poucas memórias que restam.
Peço à noite que se continue a acompanhar desta fragrância e, se assim acontecer, em breve partirei.



domingo, 23 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXVI, Russian Circles - Verses


Ali vai o idiota...!
E riem-se quando o idiota passa e não lhe passam bola porque ele não é perspicaz, não lhe dão hipótese porque ele não sabe fazer nada de jeito. Não lhe dão crédito porque é idiota! E geralmente é isso que se faz com os idiotas!

Aqui está o idiota...!
Falam com ele e não levam nada a sério porque ele não vai a lado nenhum. Cumprimentam-no porque ele se aproxima humildemente para lhes falar. Dão-lhe uma palmadinha sarcástica nas costas e porque o idiota é idiota vai acreditar que isso é um incentivo e vai ficar feliz.
É idiota, pensou que falaram a sério. É idiota, vai-se agarrar a isso. Que idiota!

Ali vai o idiota...!
Acena um "adeus", que idiota, levantam-lhe a mão também quando ele já se virou para a frente e fazem-lhe um mangalho. Que idiota!

E o idiota?
Perguntam numa gargalhada no mesmo sítio onde o viram, onde falaram com ele, onde o gozaram, onde lhe deram um sarcástico incentivo. O idiota? Já nem me lembrava dele.
Já não se ouve falar dele há bastante tempo. Deve estar lá com as coisas idiotas dele!
E riem-se até lhes parar a respiração...e acabam os motivos para rir quando algo está diferente!

Olha! Está ali o idiota!?
É ele?

Olha! Estão ali os idiotas!



sábado, 22 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXV, God Is an Astronaut - Lost Kingdom


Há um destino que se vai traçando lentamente, sem que se possa fazer frente. O chão vai-se desfazendo como espaços de um tabuleiro de xadrez, que vão caindo quando nos aproximamos. É difícil alcançá-los, ainda mais quando se é Peão e os estreitamentos, incontornavelmente, vão-se alargando cada vez mais, criando um mundo de países com fronteiras cada vez mais difíceis de serem cruzadas. Não esperemos que essas fronteiras se alastrem ainda mais e que o mar vá preenchendo esses estreitamentos, formando ilhas cada vez mais distantes umas das outras e isoladas num imenso azul, onde reinará novamente o medo de velejar. Se isso acontecer, termos que nos esforçar ainda mais porque será necessário criar pontes robustas, que ofereçam estabilidade para quem as quiser cruzar. Não importa se és Rei ou Rainha, terás que te esforçar, ou serás um Rei ou uma Rainha sem reino e perecerás.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXIII, God Is an Astronaut - Golden Sky


O "Ingénuo" era "Ingénuo" porque toda a gente lhe chamava assim, ou se não chamava, pelo menos, pensava. Era o "Ingénuo" porque era diferente. Acreditava em toda a gente, mas não por ser parvo. Gostava de todas as pessoas, convidava-as com tudo o que tinha para fazerem parte da sua vida. Dava o que podia para fazer as pessoas felizes e, muitas vezes, era infeliz porque acabava esquecido. O "Ingénuo" ouviu muitas histórias mas fez parte de muito poucas, não porque não quisesse  mas porque de grande anfitrião passava a ser o convidado a quem os convites nunca chegavam. E, ainda assim, sentia-se feliz quando as pessoas se realizavam, mesmo que as suas pegadas tivessem sido apagadas pelo esquecimento.
Doía-lhe que lhe chamassem o "Ingénuo" mas não desistia. Sempre que era preciso lá estava ele, pronto, feliz, sorrindo, esperando, quando era preciso e voltando a casa sozinho, muitas vezes, ou agindo em anonimato, sabendo que os seus créditos nunca apareceriam no final do filme, ainda que em letras minúsculas.
O "Ingénuo" teve uma morte precoce. Pereceu sozinho, esperando por alguém que nunca apareceu. Ninguém soube da sua morte, ninguém sentiu a sua falta nos momentos que se seguiram. O tempo passou e esse tal sujeito a quem todos chamavam o "Ingénuo" deixou de aparecer quando alguém precisava, então, aí, a sua falta foi sentida e uma mágoa imensa instalou-se no coração das pessoas e todos choraram.




terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXII, The Best Pessimist - When Time Stood Still


Pega nos teus sonhos, nos teus desejos, nas tuas vontades, nas tuas aspirações. Recolhe as boas memórias, as histórias que te fazem sentir vivo, as imagens que te fazem feliz. Reúne os teus sucessos, as tuas vitórias. Adiciona a isso tudo o que aprendeste, ainda que tenhas sido derrotado a tentar mas, porque tentaste, aprendeste, saíste triunfante ao inverter a situações. Certifica-te que nenhum desgosto, angústia, medo, pessimismo te passou despercebido para não amargurar o momento.
Está?
Coloca tudo bem aconchegado no fornilho e, com um fósforo de esperança, acende o teu cachimbo da paz e, se achares por bem, partilha.