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terça-feira, 4 de junho de 2013

Músicas para Escrever LV, Collapse Under The Empire - Captured Moments

Hoje tive que ouvir música e escrever, imperativamente. São demasiado os infortúnios que necessito de expurgar do meu pensamento e tantos as vontades e visões que tenho que guardar bem gravadas, ainda que em cicatrizes para nunca me esquecer o que representam porque as cicatrizes são mais permanentes e incógnitas que a tatuagens.
As minhas noites oscilam entre pesadelos mórbidos e melancólicos e sonhos que desejava serem realidade. A ironia é que não quero acordar nem dos pesadelos, nem dos maravilhosos sonhos que com eles se alternam. Os pesadelos, quero resolvê-los e dar-lhes um final digno e os sonhos não os quero abandonar, ao ponto de não saber se, por vezes, são realidade ou imaginário e, nesses casos, apodera-se de mim a angústia quando desperto para dita realidade, que também não prefiro em detrimento dos pesadelos.
Num dos pesadelos paguei com o consentimento da minha lobotomia uma vida que queria salvar de um contínuo decepamento. E a anestesia, os perder dos sentidos era real que acabei por perecer num túnel numa manhã de nevoeiro e não terá sido um parecer no seu lato sensu, mas sim num stricto sensu que me terá abandonada num hospício perdido, de onde um dia me hei-de resgatar. Outras vezes a visão é demasiado trôpega e cansada que me encontro em lugares desconhecidos, estando só em cenários de um pós-apocalipse que levou para longe todos aqueles que conheço e não quero despertar, pois naquele pesadelo, ainda que assim o seja, consigo encontrar esperança para me perder na busca de alguém e, no oscilar da noite, essas personagens cruzam habilmente as fronteiras da noite que separam os sonhos dos pesadelos.
Eu sou o homem de lugar nenhum que busca incessantemente o bem e o mal, o infortúnio e a graça, o ódio e o amor, a dor e a cura, a escassez e a abundância, as chagas e o bálsamo porque tenho uma necessidade imperante em sentir-me vivo e a dor faz parte desse processo, a imunidade cria-se assim, os objectivos e os caminhos que seguimos traçam-se assim.



domingo, 2 de junho de 2013

Músicas para Escrever LIV, Fever Ray – If I Had a Heart


Ele nunca disse nada, não porque as palavras fossem poucas ou porque sofresse de mudez em determinados momentos. Não disse, nem dizia, porque, no seu entendimento, não deveria afectar as decisões ou as acções das pessoas que o rodeavam. Este era o seu meio de respeitar a liberdade total de quem conhecia.
O seu silêncio de liberdade era considerado muitas vezes como uma apatia profunda e estagnação emocional. Na verdade, tinha os seus momentos de apatia e solidão por ser incompreendido, no entanto, também compreendia as pessoas e estava consciente da condição de repressão sentimental. Ele próprio havia diagnosticado essa patologia em si mesmo.
Muitas vezes não falava porque não lhe perguntavam e não se lembrava de que às vezes era necessário ceder.
Muitas vezes não falava porque algo o prendia bem lá dentro.
Mas ele não era apático. Ele adorava as pessoas e queria conhecer sempre mais pessoas e, de facto, conheci-as, mas os quilómetros de distância eram uma constante sempre que conhecia alguém. Muita gente pensaria talvez que seriam as pessoas erradas, mas isso foi algo que nunca lhe ocorreu. Ele próprio havia sido desde sempre uma deambulante, aqui e ali, sem um lar fixo, pois qualquer sofá poderia ser o seu lar perfeito.
Um dia apoderou-se dele uma enfermidade gravíssima e foi aí que tudo começou a desabar, tornou-se um desgraçado mendigo de emoções que não sabia processar ou expressar. O seu mundo já não era o mesmo. Uma fobia social foi-se apoderando dele. Já não falava em público. Já não caminhava de cabeça erguida. Os seus projectos já não saiam mais do pensamento, a vontade estava perdida ou esquecia-se sempre dele para onde quer que fosse e isso era o que mais o dilacerava e os seus olhos estavam baços como nunca haviam estado, tinham perdido o brilho de tantas lágrimas que tinham salgado a pele áspera do seu rosto e, em consequência disso, a visão havia-se deturpado, vendo apenas sombras em alguns momentos.
Um dia, estando a passear numa falésia, tentando encontrar respostas, aproximou-se demasiado do limite e, esquecendo a sua vontade viver, caiu e não mais foi visto. Quero acreditar que encontrou conforto naquele mar imenso tão salgado quanto as suas incontáveis lágrimas.





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Músicas para Escrever LIII, Fever Ray - Concrete Walls


O local ao qual chamava lar é agora um ambiente funesto que gera asfixia. Temo que em breve os que nela habitam comecem a perecer vítimas de apoplexia induzida ou de venenos letais cada vez mais semeados em lugares onde costumávamos fazer picnics e passeávamos em tardes de Verão. 
Em tempos vivíamos felizes e dedicados por mantê-lo assim, talvez, as minhas memórias são ainda reduzidas, mas lembro-me de ter sido feliz e ter acreditado num futuro. Hoje esse lugar é apenas uma memória e a felicidade encontra paredes sempre que tenta mover-se. A felicidade dos que ainda vivem neste lugar não é felicidade mas, sim, apenas uma memória daquilo que foi a felicidade como a sensação da presença de um ente querido nos primeiros tempos após o seu último suspiro. Mas um dia tudo isso desaparecerá totalmente também…E nesse dia nem os fantasma vão querer ficar mais, nem um minuto que seja. 
Já não chamo lar a esse local! Também não tenciono desenvolver por ele ou pelos seres vis e infames, que o mitigaram, uma espécie de Síndroma de Estocolmo como já terá acontecido a algumas pessoas. Este lugar ao qual chamei lar é um local onde a esperança se encontra em estado vegetativo e não me espanta que, sem escrúpulos, dêem ordem para que a máquina da qual depende seja desligada. 
O local ao qual chamava lar já não é o meu lar. É agora um pequeno apartamento, semelhante a uma sala, pelo qual pago uma renda demasiado cara. Um espaço frio que já não reconheço e me provoca insónias ou pesadelos, quando penso que afortunadamente adormeci. Aqui o tempo passa como noutros sítios mas sem rumo e a cada dia a angústia cresce porque o que queremos alcançar está muito distante ainda e o tempo que teremos para desfrutar será o resto de uma vida miserável. 
Este é a minha carta de despedida para uma partida cada vez mais inevitável, para a qual só comprarei um bilhete de ida sem regresso. 
Pobre local ao qual chamei lar que em breve não serás mais do um deserto com fronteiras litorais formadas por falésias de onde mais nenhuma nau partirá com optimismo ou saudade, embaciando os olhos dos seus corajosos tripulantes.




terça-feira, 12 de março de 2013

Músicas para Escrever LI, Mono - Pure as Snow (Trails of the Winter Storm)

05h31m: Ainda tenho duas horas para dormir.

07h30m: Depois de ter desligado o despertador após um anunciante one, two, three, four, voltei a adormecer (constantemente peço mais cinco minutos ao despertador, mas hoje, sem querer desliguei-o).

08h04m: Acordei cerca de meia hora depois com uma voz feminina muito dócil que sussurrou o meu nome, “António!”, uma única vez. Abri os olhos lentamente e não era ninguém, quando julguei ter sentido uma respiração bem junto do meu rosto. Olhei novamente e não havia mais ninguém ali no quarto.

08h08m: Abri a janela e levantei-me preguiçosamente para mais um dia em busca de respostas, conclusões, soluções…talvez algumas considerações também.

Não sei se aquela voz misteriosa seria a minha consciência a relembrar-me que tinha que acordar para não faltar às aulas. Tenho a certeza que não! A voz da minha consciência é parecida ou igual à minha, é aquela voz que ouço nos meus monólogos constantes e plurilingues, na maioria das vezes, que ocorrem no banho, quando conduzo ou quando tento combater as insónias.
A verdade é que gostei daquela voz, ainda a ouço constantemente, agora mesmo, como um eco porque se repete vezes e vezes sem conta. Quero voltar a ouvi-la, mesmo que não conheça a forma física que a pronuncia.
Talvez esteja a enlouquecer. Talvez um pouco mais. E a loucura total tem como pano de fundo vozes assim? Se sim, então, é para lá que quero caminhar.
Boa noite, noctívagos e noctívagas. Não digo até amanhã, mas até que essa voz me volte a despertar.




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"A Morte do Autor" (Barthes, 1987)


O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”
Há já vários anos que o Autor reflectia sobre as palavras de Roland Barthes, tentando encontrar nelas algum sentido para a sua moderna existência e para o seu futuro, ora trémulo ou pungente, ora corroborado ou exaltado. Todos esses anos, sob reflexões sobre essas palavras de Barthes, foram também os necessários para o Autor produzir a sua última obra, que seria a mais brilhante e aclamada. Este foi o tempo profícuo da sua existência, da sua vida, talvez da sua longa linhagem, da qual não contarei já o desfecho.
Desde o final da Idade Média, com o Renascimento e os seus ideais humanistas antropocêntricos de afirmação do indivíduo, com o racionalismo francês, com a Reforma Protestante, com o empirismo inglês, com o positivismo, instalou-se no mundo ocidental a família do Autor, uma estirpe centrada no “prestígio pessoal do indivíduo”. É uma família com imensos membros que começaram a afirmar-se e a vigorar, um pouco por todo o lado, detendo a autoria de tudo o que iam produzindo, criando uma cisão com o anonimato ou colectivos anteriores dos apreciados cancioneiros.
A verdade é que ainda hoje os vários membros deste clã Autor reinam na história da literatura, nas biografias dos escritores, em revistas, em jornais, em entrevistas, nas críticas devido à incapacidade dos críticos em dissociar a obra e a pessoa que a produz, na feroz necessidade de encontrar na obra os gostos, os ideais, as paixões, a pessoa, o carácter autobiográfico do Autor, levando a que a imagem da literatura destes tempos seja “tiranicamente centrada no autor”.
De facto, o Autor detinha, na sua enorme mansão, um grande espólio de recortes, registos de tudo aquilo que havia sido centrado nele: entrevistas, resenhas e críticas literárias, biografias oficiais e não oficiais, autorizadas e não autorizadas, artigos de jornais ou de blogues, estudos que entrelaçam o escritor e a obra. Tudo isto estava num mausoléu que criou, como um santuário, o seu próprio santuário, que ele próprio venerava mas que, nesses últimos tempos, pensando nas palavras de Barthes, havia descuidado e o pó amontoava-se sobre todos aqueles livros, a luz ia fazendo desaparecer as letras dos recortes, assim como a humidade os ia fazendo apodrecer.
Anteriormente, o Autor queria ser ele próprio conhecido através da escrita que considerava sua, de uma linguagem que também pensava ser sua, de tudo que cria ser centrado em si. Mas a escrita não era sua, a linguagem também não o era. Nada era seu, a não ser a mão que escrevia e a vontade! Primeiro estranhou: o seu mundo, até ali tão idílico, aparentemente inefável e tão seu, abalou-se, desmoronou-se, desconstrui-se. Depois entranhou-se: a sensação era boa, sentia uma liberdade correr em toda a sua inspiração. A linguagem passou a falar por ela própria e não o Autor, que sentia a magia de desaparecer, como um mago, deixando apenas um pouco de magia que daria liberdade total a quem a recebesse. A performance descentralizou-se assim, passando do “eu” para a “linguagem”, dando seguimento à poética de Mallarmé: “suprimir o autor em proveito da escrita”. É isto que passa a ser importante para esse intitulado Autor que, assim sendo, já não é mais Autor, mas simplesmente aquele que escreve. Durante algum tempo, o Autor invejou Proust pelo sei feito de, ao invés de passar a sua vida para o romance, fazer da sua vida uma obra. Depois descobriu o seu próprio caminho.
Previamente, durante o Surrealismo viveu um período de eremitismo. A ideia de partilhar um texto com alguém, de experimentar uma escrita a vários fazia-lhe confusão, provoca-lhe náuseas por ter de misturar uma substância, que considerava tão sua, com a de outrem, que provavelmente nunca havia conhecido. Sentiu raiva com o contributo dos surrealistas “para dessacralizar a imagem do autor”, que fez do Autor aquele que simplesmente escreve, passando a linguagem apenas a conhecer o “sujeito” e não a “pessoa”. O Autor, isolado em sua ermida, sentia a dor de algo que considerava uma doença que acometia outros membros da sua estirpe e, esse foi um tempo diferente, não produziu nada.
Após esses tempos de isolamento, novas tendências vieram e o Autor ia ficando atento, no entanto, mantendo a sua distância, preservando a sua integridade de Autor. Continuava sem escrever, aumentava-lhe a angústia dessa solidão, desse individualismo, desse reconhecimento massivo impertinente em tudo aquilo que escrevia e do qual nunca conseguia dissociar-se. Mas, eis, que chegou o dia e muralhas de conceitos e ideias se demoveram para deixar entrar em si algo novo, algo conquistado por uma liberdade que no fundo, sem que o soubesse, lhe agradava. Nasceu em si, então, o scriptor. Começou a fazer sentido em si o aqui e o agora, ao invés de eternidades monótonas que com ele se arrastavam, como correntes das quais não conseguia libertar-se. Esse seu íntimo scriptor nasceu quando começou a escrever o seu texto, esse derradeiro texto de liberdade, que será delegada, de dimensões múltiplas, entre matrimónios e uniões de escritas variadas, que originam novas escritas, sem que nenhuma delas fosse contudo original, quando sem amarras oferecer o texto ao mundo. Assim, já não detém, como anteriormente, quando acerrimamente se afirmava como “o Autor”, paixões, impressões, sensações, sentimentos, ilusões, “mas sim esse imenso dicionário onde vai buscar uma escrita que não pode conhecer nenhuma paragem”.
O Autor, agora ancião, mas dotado de uma nova perspetiva plena de liberdade, sua e dos que receberem o texto que escreveu, já não procura impor-se à sua obra ou impor ao seu texto um último e derradeiro significado, castrando o desconstruir que possa vir a ser processado pelo leitor para deslindar o que lê, fazendo disso “coisa” do passado, dos seus antepassados retrógrados.
Após todos esses anos, o Autor encontra um herdeiro, que nunca imaginou vir a ter. Todo o seu individualismo e tentativas de exaltação levaram ao seu isolamento, a uma envelhecer solitário. Desconstruíram-se, então, ideias e pensamentos tidos como verdades absolutas e, assim, um texto passou a ser “feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação.” No entanto, há um lugar, alguém onde tudo se encontra e esse alguém é o herdeiro do Autor, que passou a scriptor, o leitor, alguém que até li nunca tinha sido valorizado. É este leitor que dará vida ao escrito porque é para ele que, afinal de contas, o escrito conflui.
Terminado o seu texto, o Autor em tempos, agora scriptor, consciente da realidade e da liberdade que se propõe a delegar, após entregar o texto ao leitor, bebe o seu derradeiro cálice de licor onde acrescentou algumas gotas de cianeto porque “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. Era uma bela tarde de primavera e o sol brilhava no horizonte. Na mesa onde se sentava, de frente para uma jardim que começa a ganhar imensas cores, restou uma carta que serviria de testamento e havia um único pedido:
“Por toda a felicidade e tranquilidade que a escrita me trouxe, pelo sentido que ela deu à minha débil existência, nestes derradeiros anos e pela companhia que me foi oferecida pelo scriptor, peço gentilmente que não tirem liberdade ao derradeiro texto que envio ao mundo, que quando lido será do leitor e não meu, e, ao invés de um nome, vigente durante séculos, que comigo quero enterrar, conste apenas o scriptor”.
O texto percorreu o mundo, em várias línguas até, como nunca havia acontecido, e, respeitando a último pedido de quem escreveu, sem que ninguém soubesse quem era o misterioso “o scriptor”, o texto foi desconstruído inúmeros vezes, deslindado pela milésima vez, lido vez sem conta porque ninguém sabia que paixões alheias procurar, que pessoas procurar. Afirmou-se o aqui e agora, rodeado de “sujeito” e não “pessoas”. Era um texto sobre a loucura e ninguém sabia se essa era a loucura do Autor, que ninguém conhecia, do scriptor, do “sujeito”, da “pessoa”, do leitor, de alguém. Era a loucura para quem quisesse vivê-la, para quem quisesse experimentá-la, interpretá-la à sua maneira e seria sempre diferente, dependendo do aqui e do agora, da circunstância da sua leitura.




António Campos Soares



Bibliografia específica

BARTHES, Roland – “A morte do autor”, O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, pp. 49-53

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever L, Mono - The Battle To Heaven


"Car tous les hommes désirent d'être heureux: cela est sans exception. Quelques différens moyens qu'ils y emploient , ils endent tous à ce but. Ce qui fait que l'un va à la guerre, et que l'autre n'y va pas, c'est ce même désir qui est dans tous deux accompagné de différentes vues." 

Blaise Pascal


A vida é como um texto porque a língua – escrita ou não – é também uma forma de acção. Não é que todas as regras que envolvem a língua tenham que ser seguidas escrupulosamente porque, se deténs o conhecimento formal que é fundamental, podes reinventar.
Podes usar reticências ao invés de um ponto final. Podes escrever frases mais longas e fazê-las semelhantes a um sonho que queres prolongar ou a uma divagação que não queres abandonar e continuar... Podes fazer essas mesmas frases curtas! É contigo! Podes adulterar a ortografia, se assim entenderes, porque há palavras que ditas ou escritas de outra maneira, em alguma circunstância, te soam melhor assim, te fazem rir, te perpetuam aquele momento, te relembrar alguma pessoa – infelizmente agora não me estou a lembrar de nenhuma mas isso acontece! Podes jogar com as palavras porque, em determinado momento, uma mesa pode ter sido muito mais que uma mesa onde costumas jantar só e naquele exacto momento não estavas sozinho ou sozinha. Podes florear para criar cenários idílicos que pretendes levar ao mais ínfimo dos pormenores ou criar charadas de quem foste realmente ou de como apenas te representaste nas histórias que escreveste quando não o pudeste ser na realidade. Tudo isto porque, quando conheces bem, dominas ainda melhor. E aprende, aprende a cada dia e com cada palavra.
O importante é não deixar nada em suspenso, pelo menos para ti, que escreves o teu texto. As dúvidas não fazem bem porque são como cruzamentos duvidosos e muito mal sinalizados em que, enquanto decides avançar ou não, podes ser surpreso por alguma infelicidade, por isso, não fiques na dúvida e se, no final daquele parágrafo, deverias ter deixado reticência, ou por fraqueza não quiseste colocar um ponto final, ou se aquele pensamento, esquecido entre outras frases, deveria ter tido destaque e passado a uma intervenção tua, mesmo que sem deixa, certifica-te que isso não te passou em vão.
Não deixes frases inacabadas em que, na posterioridade, alguém perversamente possa alterar o sentido de alguma circunstância que te envolveu ou em que, com a melhor das intenções, te envolveste apesar do anonimato que injustamente te atribuíram no final da história quando alguém gritou vitória e te esqueceu.
Talvez a razão de muito mal-estar que nos mitiga seja mesmo a falta de coerência e sanidade que nos assoma quando deixamos pontas soltas em algo que, ainda não estando o nosso texto acabado, pensamos lá voltar para resolvê-las, no entanto, não o fazemos porque são tantas e nos esquecemos e quando está publicado o nosso texto já é tarde demais. FIM!





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVIII, Aesthesys - Scrolling In Mind Images Of The Past Day Before Falling Asleep

À beira mar tudo parece mais sereno ainda que o mar queira mostrar a sua força.
Quando está calmo, faço barcos de papel e neles embarco os meus sonhos e ordeno que cheguem a um porto seguro e acolhedor, longe da angústia que está para lá do que fica à beira mar. Quanto está bravo, atiro nele e nas suas ondas as minhas mágoas e tristezas para que se dissolvam e encontrem algum repouso longe.
Estou cansado, mitigado e esta esperança, outrora mais forte que um colete à prova de bala, é hoje um casaco de malha desfeito que me dá aparência de mendigo. E quem sabe, sou mesmo um mendigo, não à procura de esmola, mas sim de um porto de abrigo.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIV, Julia Holter - Marienbad



Elegantemente saiu do seu banho, onde se submergia em espuma colorida e sais aromáticos. Continuou em bicos de pé pela casa fora, deixando que a espuma lhe assentasse como uma vestido colorido, visível pela luz das velas, e aroma dos sais deixasse um rasto. Dirigiu-se para pátio em frente ao jardim. Da janela do seu quarto propagava-se a música que saía da sua grafonola, que despertou todos aqueles que já se deixando apagar pelo sono.
No interior da enorme casa, as janelas preenchiam-se de rostos indignados de gente que segurava candelabros  Ela dançava entregue à música que a ia envolvendo e todas as plantas do jardim a acompanhavam amparadas pela brisa nocturna. A indignação não durou muito, dando lugar ao deleite de contemplar tamanha beleza, que o luar sem hesitar cobria de brilho salientando os seus contornos. Dançou até que sol viesse para a cortejar mas, com a elegância que para ali se dirigiu, voltou aos seus aposentos, entregando-se a um amante, que certamente num sonho a aguardava.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLII, Aesthesys - I Am Free, That Is Why I'm Lost


Será um ser dependente enquanto seguir os caminho que não são os seus. Não será vitorioso enquanto lhe atribuírem sucessos atingidos numa batalha que não é a sua. Será um feliz sem ânimo enquanto apenas contribuir para uma felicidade que não é a sua. Este é o mais que conhecido Fidalgo Maldição. 
Continua sentado com a chávena de chá que se vai esfriando nas suas mãos. Há muito que os dias que contempla pela ampla janela, onde a vidraça é fustigada por fortes chuvas, são cinzentos e com muito poucas horas de luz. É uma tempestade perene e já não guarda em si esperança de avistar dias de bonança.
Rodeia-se de diplomas encaixilhados e cobertos por pó que se vai acumulando porque se cansou de os limpar e os exibir magistralmente. Também não deixa que os abrilhantem mais, salvo para um propósito diferente, que nunca aparece. Até hoje não o levaram a nenhuma saída que não fosse a previsibilidade dos mesmos resultados de sempre. É este o seu (só seu?) triste apanágio.
Está já gasto o veludo dessa poltrona majestosa onde se senta e as almofadas estão côncavas, como um caixão feito à medida para que o cadáver não se mova com a mínima trepidação. Se tarda a bonança, sabe que não deve tardar o tempo para apenas sair dali solenemente deitado e embrulhado num lençol de linho branco com insígnias que o prenderam e de pouco lhe valeram.
Decisões dos passados tempos de bonança com pesadas correntes consequenciais que o prendem num luxuoso salão nobre quando já passou o tempo da nobreza e esse é o seu cárcere.
Cai-lhe a chávena, espalhando-se os cacos nesse lustroso chão que emana o cheiro da cera. Arremessa os candelabros com velas acesas e começa a ver o fim, uma luz forte que se propaga e o aquece como os dias de sol que há tanto espera contemplar. Deixa para trás traz o robe de cores ridículas  que rapidamente é consumido pelo fogo, assim como todos aqueles papéis escritos pela rotina. Sai e assoma-se-lhe o espanto quando vê o sol e apercebe-se que todo o cinzento, que via da janela, era uma ilusão criada pela desilusão que sentia. Quebra-se assim a Maldição do Fidalgo que, celebrando as ruínas de tudo aquilo que o prendia, se torna Fidalgo Libertação, Fidalgo Criação, Fidalgo Imaginação, Filho De Algo que há tanto ansiava.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XL, Sleep Dealer - Point Of No Return


Vamos embora daqui? 
Já viste quantos é que já partiram também e não são mais do que nós?
Pois, eu conheço esse aceno. Quanto dinheiro tens no bolso?
Eu tenho o mesmo. Chega para os dois. Não podemos esperar mais um dia ou tiram-nos o pouco que guardamos.
Tens comida?
Chega. Duas sandes para cada um chegarão para a viagem. Depois, quando chegarmos, lá nos orientaremos.
Assim apanhámos o comboio há uns meses. Libertámo-nos dessa mendicidade que nos corrompia. Éramos mendigos e o pouco dinheiro que juntávamos servia para engordar quem mais tinha. Davam-nos esmolas magras, sabendo que a eles voltariam obesas quantias. Deixámos de os alimentar e, nesses dias, em que ninguém sentiu a falta do nosso contributo, juntámos uma escassa quantia para comprar o bilhete e assim partimos.
Por alguns tempos vivemos num nomadismo que não tinha uma ínfima comparação com o sedentarismo da nossa realidade passada. Cruzámos planícies, montanhas, pontes, rios, cidades...os dias passavam e o mapa que levávamos connosco ia ficando com mais anotações do que com nomes de cidades.
De onde viemos, não havia notícias. Deixaram de dar importância a esse sítio de onde só ouviam misérias e de misérias toda a gente se farta e, por vezes, há que saber virar as costas, ou comprometermos a nossa felicidade porque nunca tudo, nem nunca nada.
Um dia, o que começou como uma brincadeira num labirinto, fez-me perder-te. Durante dias percorri cada espaço desse labirinto, sem sucesso, sem pistas, sem nada. Gritei por ti, não te ouvia. Estava só, estava longe, estava perdido também.
Voltei ao comboio, mas não voltei a atrás.
Decidi continuar a minha jornada. Se não te encontrei, nem viva, nem morta, é porque ainda por aí estarás e, se continuas também a tua jornada, aquela que começámos juntos num lúgubre apeadeiro, em algum ponto, te encontrarei, talvez solucionando um outro labirinto, num outro sítio, num outro momento, numa outra esperança...




Músicas para Escrever XXXIX, Epigram - The Spectator (Interlude 2)


Já imaginaste a escuridão que se vincularia à noite se, a cada oportunidade de brilhar, cada estrela se desertasse da constelação que integra em busca de um brilho a solo num "sabe-se lá onde", que ninguém conseguiria achar? Ficaríamos sob a monotonia de uma manto unicamente negro onde, talvez, apenas restasse a lua, já que é o único planeta secundário que assegura algum destaque. Mas o que é cada estrela a brilhar individualmente, ainda mais longe, um ponto cintilante ainda mais imperceptível?
A beleza das estrelas deixaria de existir com o colapsar das constelações, esses conjuntos que integram e que todos os que vêem procuram encontrar porque são belos, porque neles há uma geometria natural criadora de harmonia, porque são tão antigos que nos serviram de inspiração e, em torno deles, criámos lendas, demos repouso a personagens únicas.
E da lua? O que seria dela sem o adorno das estrelas e das constelações? Um pobre corpo nu sem qualquer amparo, que não conquistaria outro corpo, nem com essa exibição de nudez. Que comparação teria ela, no restante firmamento, para se vangloriar do seu brilho que, mesmo não sendo mais do que um reflexo, é o que mais se destaca à nossa vista quando a noite nos envolve?
Talvez outro Big Bang não fosse, de todo, uma má ideia. Todos os corpos desfeitos e novos corpos feitos com os restos espartilhados de todos esses corpos desfeitos.




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!




Músicas para Escrever XXXV, I Am The Architect - Quit


Estou exausto, sem ter mais nada para oferecer, sem ter mais nada para brilhar, mais ninguém para me aquecer. Toda a minha vida fui como uma caixa de fósforos nas mãos de diferentes "alguéns" e, enquanto havia mais algum fósforo para incendiar, eu fui feliz, eu aqueci,eu criei luz, eu deixei memórias ou, na maioria da vezes, fui apenas ocasionalmente útil, como alguém que é prostituído sem saber o que realmente lhe estará a acontecer. A princípio tudo era fulminantemente belo e radiante, aquela áurea inicial era o um fascínio nunca me apercebi da sua efemeridade de tão cego que o clarão me deixava... Aos poucos fui-me apercebendo que, a a cada fósforo que esses "alguéns" acendiam, a minha insanidade começava a alastrar-se como um cavalo num galope furtivo. Houve dias em que não distinguia a realidade e as miragens, ficava perdido sem ter para onde ir, cada vez mais mentalmente instável e enfermidades me foram acometendo o interior. Este é o meu último momento de sanidade, antes de se queimar o último fósforo e este sou eu que o quero acender e, assim que o fizer, será disparada a bala destinada para o meu fuzilamento.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIV, Epigram - This Is Not Where We Are Supposed to Be


Ele despediu-se, desceu as escadas lentamente e saiu de onde não queria sair e acreditou que ela também não queria que ele saísse. Assim teve que ser – talvez não, não tinha que ter sido assim, pensa hoje! Caminhou rua abaixo, hesitando cada passo, sentia-os pesados como se o chão o agarrasse porque, no fundo, até o chão sabia que ele se movia contra a sua vontade. Antes de virar a esquina olhou novamente para trás, talvez imaginando como seria se não tivesse saído, mas os "ses" são o mais drástico inicio de qualquer pergunta, levam sempre ao arrebatador arrependimento. Não sabia se ela ainda o observava, mas queria acreditar que sim. Bem lá dentro acreditava e sentia-se feliz, explodindo em palpitações.
Dessa vez não se irritou por estar a chuviscar  pelo contrário, desejou que aquela chuva caísse mais intensamente e o molhasse completamente e, num acto de "não quero saber", voltasse para trás com o pretexto de pedir abrigo e não tivesse que ir embora, mas não o fez porque a chuva também não realizou o seu desejo. Continuou, olhando uma derradeira vez, não imaginando nunca que fosse a última, na esperança de ver a sua silhueta espreitar por trás da cortina de alguma das janelas, mas não viu nada.
Chegou ao quarto e pensou deitar-se vestido sobre a cama. A sua roupa detinha a fragrância do espaço dela e, por momentos, perdia a noção do seu quarto e acreditava que, afinal, não teria ido embora mas, quando abria os olhos, via-se novamente no seu cubículo, completamente sozinho. Despiu-se, enfiou-se na cama e quis adormecer depressa. Assim aconteceu.
Dias, noites, semanas, meses, anos passaram...ainda continua à espera e desespera a cada dia, a cada noite, a cada semana, a cada mês, a cada ano.
Nunca mais a viu!
Nunca mais a viu da mesma maneira como quando se despediram naquela noite.
Hoje vive na mesma rua onde tudo aconteceu, numa casa mesmo em frente onde ela vivia, mas ela já não vive ali. Já não sabe onde ela vive, no entanto, todos os dias, antes de se deitar, vem ao jardim e pára a olhar para as janelas onde outrora desejou ver a sua silhueta.




domingo, 30 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIII, Epigram - What's Mine Is Yours


Jazia sozinho no sofá, embrulhando-se numa manta colorida por remendos. Nem nas noites mais frias de Inverno dormia na sua cama. Ficava no sofá da pequena sala com uma porta para a rua e nunca trancava a porta, acreditando que alguém poderia querer entrar para lhe dar algum conforto. A televisão ligada toda a noite para ter algumas companhia e já lhe eram familiares as vozes mais comuns como a voz de alguém próximo que o saúda na abertura do primeiro jornal e lhe deseja boa noite depois das últimas notícias, já que mais ninguém o faz.
A sua amada morrera acamada e havia-se habituado a ocupar o sofá para não perturbar o sono da pessoa que havia amado ao longo de toda a sua vida. Ali ficava e quando, por algum motivo, despertava durante a noite, espreitava pela porta entreaberta do quarto mas rapidamente voltava para o sofá para adormecer e esquecer que sua amada já ali não jazia como ele. A cama que, para ele, não fazia sentido, pelo menos só para ele.
Todas as manhãs, quando acordava, voltava ao quarto para enfrentar a sua dor e ter a certeza da sua solidão, abria a janela e voltava a fazer a cama que ainda guardava duas marcas corporais no colchão.
Nesse noite, decidiu ficar no quarto. Estava cansado das mesmas vozes da televisão que, apesar de o saudarem ou dele se despedirem, apenas lhe traziam notícias de um mundo triste, talvez mais triste do que ele. Adormeceu, ao lado do espaço côncavo da sua amada, para não mais acordar.



sábado, 29 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXII, Mono - Halo (II)


NOITE DESAFORTUNADA: Bom dia, ESQUECIMENTO!

(Porque é que a luz do quarto tinha que estar programada para se acender quando toca o despertador? Má ideia para dias como este!)

Não é que, de facto, seja um bom dia, mas então, por que raio, é que digo bom dia ao ESQUECIMENTO e não me calo ou me viro para o outro lado e adormeço de novo e tento, assim, curar esta ressaca de sentimentos? Que mania de cumprimentar tudo e todos e, na maioria das vezes, fazer figura de idiota porque não se é correspondido, como aquele aceno que ninguém vê, ou as palavras que ninguém ouve. Que mania de se acreditar que todos reagirão do mesmo modo que se reage com eles. Tretas!, na maioria das vezes não é porque não vêem, mas sim porque ignoram! Quem é que nunca ignorou um aceno ou desviou o olhar para evitar alguém?

(Por que é que tinha que estar a chover hoje também?)

Espera, já me lembro do porquê de ter dito bom dia:
Quis fazer-me amigo do ESQUECIMENTO para que ele levasse tudo o que tenho no pensamento para bem longe e me fizesse esquecer a quem tinha entregue as minhas MEMÓRIAS. Ontem deitei-me e não consegui sonhar, pelo menos, com não aquilo que necessito e que me ajudaria a encontrar uma realidade que se vai esfumando sem deixar rasto entre as minhas MEMÓRIAS e as imagens desse sonho vão ficando, aos poucos, cada vez mais desfocadas. Mas até o ESQUECIMENTO se esqueceu de mim ou me ignora: acenei-lhe, ensonado, e não reagiu, disse-lhe bom dia, para me fazer ouvir e, nem aí, obtive algo recíproco.

(Será que vale a pena sair da cama hoje? Será?)

O conforto caloroso da cama nesta manhã fria e chuvosa faz com que este cenário se torne num dos melhores remédios para tão agressiva ressaca de sentimentos porque oferece várias hipóteses: hibernação social ou alheamentos através de sonhos, sem termos que ver quem ou aquilo que nos esquece, ou pior ainda, encontrar quem ou aquilo que nos vimos forçados a esquecer sem intervenção voluntária do ESQUECIMENTO.
Se ainda alguém me trouxesse um chá à cama era perfeito. No entanto, há algo que se assemelha a um medo quando penso na hipótese de atravessar a porta do quarto e involuntariamente ver alguém pela janela, ou que esse alguém me veja a mim através dela.  Mas terá que ser, vou à cozinha rapidamente e volto para me enfiar aqui, como um ninja.

A CAMPAINHA!? (Quase deixei cair a chávena do chá!)

Alguém me viu. Não, não! Não pode ter visto! 
Não estou em casa. Deixa-me ficar aqui quieto.

Não, vou lá espreitar em silêncio.

- Abre a porta, sei que estás aí!

Como é que...?

- Sei que estás aí. Dá para ver a tua sombra por baixo da porta?

Eu não disse que deveria temer as janelas? Não diretamente por elas, mas através da luz que entra por elas, acabei por ser visto. Que faço agora?
Deixa-me entrar!

- Bom dia! - (Disse isto outra vez, depois de ceder e abrir a porta.)
- Tens a certeza disso?
- Definitivamente, não!
- Anda cá!
- Não sei se será boa ideia...
- Acredita que é a melhor.
- E se partes de novo?
- Não parto! Anda cá!

Não dei mais passos, deixei-me cair na direção desse alguém que me descobriu e se me ofereceu delicadamente.
E foi assim que vim ter a este estado de quarentena, que eu próprio criei para me proteger!