terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever VII, Takahiro Kido - Smile - Spotter Chronicle (Fleursy Music)



E assim acelera o batimento cardíaco, arrastando consigo a respiração e todas as sensações se tornam  desmesuradamente perceptíveis porque a pele não hesita em tornar-se o veículo de um sensibilidade imensa capaz de absorver o mais leve dos toques. E assim permaneço, quieto, estático,numa tentativa de sentir e guardar, através dos sentidos, sentimentos, emoções, tudo aquilo que possa restaurar um interior que não é mais do que um frágil palácio de fino e puro cristal do qual apenas resta um esqueleto.
Milhares de estilhaços rodeiam todo esse esqueleto que resta e, agora que os dias, outrora insistentemente dolorosos, tendem a não se inibir debaixo de um vasto manto de algodão negro saturado de amarguras e desassossego encharcado de lágrimas, que lentamente se vai dissipando. Esses estilhaços brilham incessantemente num inebriante convite a um recompor.
Está na hora de reconstruir esta ruína e mostrar de novo esplendor e aí voltar a acolher fervorosamente, é hora de cultivar novos jardins ao seu redor, repletos de fragrâncias que erradiquem odores de mal-estar, novos pomares cujos frutos saboreiem bocas azedadas pela infelizes circunstâncias,  é hora de fazer brotar novas fontes que matem a sede de quem entretanto se esqueceu do que é sentir. E aí, a tristeza não morrerá à entrada desse Paraíso, convidá-la-ei a entrar e sorrirei-lhe-ei quando ela descobrir que, afinal, os lábios poderão ter outra expressão, que não mais quererá trocar.





domingo, 2 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever VI, Alcest - Souvenirs d'un autre Monde


Quando a insónia decide partilhar o leito comigo sem ser convidada e sem ter a amabilidade de me dirigir uma única palavras, o relógio é a minha melhor e também pior companhia. Relembra-me que a hora de sair da cama está cada vez mais próxima mas também me prega as suas partidas, parecendo arrastar-se, quando me escapa a atenção. Para não mencionar também que a sua maneira de me contar histórias é demasiado monótona e, ainda assim, não consigo adormecer como numa daquelas aulas desprovidas de interesse. Em outros momentos esse objecto que mede o tempo, uma e outra vez, sem se cansar de repetir a mesma tarefa vezes sem conta, brincaria comigo de outra forma, acelerando-se o mais que consegue e haveria algum "tic-tac" sarcástico sobre o meu eterno pensamento"passou tão rápido". É, então, nesses momentos, que são fugazes como estrelas cadentes e em que todos os desejos são pedidos, que desejo ser um fantasma. Isso mesmo, um fantasma. Desejo-o desde que ouvi o "Doctor Casares" descrever esse "acontecimento" no filme "El Espinazo Del Diablo". Sim, queria ser um fantasma ainda que fosse "um instante de dor, talvez", pois, como dor, poderia ser qualquer outro "sentimento suspenso no tempo" que "voltaria a repetir-se uma e outra vez", quem sabe, porque sobre a vontade não há limites. E esse seria eu, sem fazer contas ao tempo.




Músicas para Escrever V, Mogwai - Friend of the Night



Por que baila sozinha a bailarina sobre a sua caixinha de música e eu me deixo ficar estático a apreciar o seu movimento elíptico e perfeito? É tão grande o meu egoísmo de me deixar pelo comodismo de apenas dar à corda outro e mais outro bocadinho, noite fora, até que o dia nasça e seja hora de voltar à minha rotina, sempre com aquela silhueta a ocupar-me o pensamento, desejando que o dia rapidamente acabe para que eu possa recolher-me no meu minúsculo quarto e passar mais uma noite a fazê-la dançar para mim. É a minha companhia, é o meu perder tempo, numa infindável busca pela inspiração e companhia de alguém. Hoje sinto algo diferente bem cá dentro, como se de uma vontade diferente se tratasse e já não quero dar mais à corda e cansar essa bailarina, ou fazer com que ela se canse sozinha apenas em função de uma vontade alheia e egoísta. Hoje, mais do que qualquer coisa, gostava de fazer parte desse movimento elíptico e partilhar a sua dança, delegando a tarefa de dar vida a esta dança a outro alguém que não se importasse de dar à corda nesta velha e mágica caixinha de música. Mas antes, permite-me, bailarina, que restaure esse sorriso dos teus lábios que o tempo fez perder.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever IV, Ludovico Einaudi - In Un'Altra Vita



São luzes de esperança estas que entram pela janela deste quarto onde estou preso. O fim é inevitável, tão inevitável que me acorrentaram a esta cama ferrugenta  Não recordo a última visita que tive, apenas lembro as suas palavras "adeus, voltaremos", no entanto, sempre soube que o "adeus" não retribui esperança porque faz com que a vontade desapareça. As únicas visitas que dão consolo são estes escassos e irreverentes raios de luz que irrompem pelos pequenos espaçamentos que alguém permitiu que existissem nas grades de uma minúscula janela e se esse alguém soubesse a felicidade que isso dá ou deu a quem já por cá passou, não as teria feito assim. Gosto desses raios de luz porque, quando vêm com mais vigor, aquecem-me o corpo como um forte abraço em que dois corpos sentem a troca de temperatura e insistem em perpetuar esse momento para que não seja apenas um instante. Gosto desses raios de luz porque insistem, mesmo que chova ou o céu esteja negro, em visitar-me. Gosto deles, apesar da inspiração que a noite me dá e pelos seus sonhos. Gosto desses raios de luz, acima de tudo, porque voltam sempre. Despedem-se apenas num "até já" e quando desperto e abro os olhos, esses raios de luz são a primeira coisa que vejo, são as carícias que me acalmam a dor, são os primeiros e únicos beijos que recebo. O fim é, pois, cada vez mais próximo e já não preciso de mais visitas. Apesar de venerar a capacidade de sonhar, poderosa expansão de imaginário inconsciente que a condição física não me tira, decidi que não quero partir num sonho, tranquilamente sem dar por isso. Quero que a minha partida seja no momento em que essa luz me abraça e lentamente me deixa fechar os olhos depois de sussurrar "até já!"