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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Músicas para Escrever LVI, Mumford & Sons - Awake My Soul



Era o fim de tarde de um dos últimos dias quentes de verão, sentou-se na laje do túmulo que nunca quis ver edificado, tirou um papel do bolso e leu-lhe aquele carta, a sua última carta, a carta que queria que fosse lida, que lhe queria enviar mas que, por infortúnio da vida, nunca lhe havia de chegar.


"Morreste-me demasiado cedo…

Como aquele infante nascido demasiado prematuro, que ninguém acredita que sobreviverá, mas sobrevive, e tu morreste-me!

A questão não se põe no quando, mas no facto de que não me deverias ter morrido.

As pessoas como tu não merecem morrer assim, cedo e em agonia. As pessoas como tu são genuínas, constituídas por uma matéria tão pura que se fossem escarnadas, laminadas, analisadas ao mais ínfimo dos pormenores, não lhes seria encontrada uma ponta de maldade ou qualquer tipo de mácula.

Morreste-me demasiado cedo, quando precisava de ti e porque ainda preciso. E se não me tivesses morrido, os meus monólogos não seriam tantos nem tão longos e o meu olhar não se perderia tanto na linha do horizonte à espera de ver-te chegar um dia, ou nas longas noites de insónia a imaginar como seria cada momento que passei se não me tivesses morrido.

Estou certo que todos teremos o momento de largar este corpo e eu não me atreveria a pedir que ficasses cá para sempre, pois, isso seria sobrecarregar-te de sofrimento. Se não me tivesses morrido, apenas pediria que partisses um pouco antes de mim porque, se já sofri uma vez com a tua partida, voltaria a sofrer, no entanto, de maneira diferente porque teria vivido muito mais ao teu lado.

Aquilo que pensámos ser um enorme círio, cujo pavio poderia arder durante uma vida, tornou-se numa pequena vela que fulminantemente se consumiu.

Morreste-me demasiado cedo porque és insubstituível. Cada pessoa é única, no entanto, e concordarão comigo, há pessoas que, apesar da sua característica una, podem ser substituídas, dependendo das suas circunstâncias, mas tu és insubstituível, não importando o lugar, o dia ou a circunstância.


Morreste-me demasiado cedo ontem, hoje e amanhã porque a tua morte é uma ferida sem cura que vai infeccionando cada vez mais com a alastrar do tempo e se retirar a minha camisola verás que tenho já meio corpo com chagas abertas. Vou acalmando a minha dor lambendo essas chagas com memórias, mas essa cura não se tem mostrado eficaz.

Morreste-me demasiado cedo e a incerteza de saber se me ouves enquanto te leio esta carta também me corrói porque sou um homem de pouca fé, mas hoje, que te leio, quero acreditar que me ouves, ainda que não saiba se eventualmente, de alguma forma, me responderás.


Dadas todas as incertezas da vida, e sem saber para onde me levam as marés do tempo, despeço-me num até já porque o adeus fere-me e remete-me novamente à tua despedida, o dia em que essa chaga abriu e começou a alastrar em mim como uma peste.



Com amor,

Até já!"


Dobrando novamente a carta humedecida pelas lágrimas que lhe foram caindo, guardou-a novamente no bolso. Desse mesmo bolso tirou uma pequena caixa de fósforos, acendeu uma vela e despediu-se. Não tinha dado três passos quando voltou para trás, retirou a carta do bolso e deixou-a em cima da vela para que ali se consumisse.




segunda-feira, 8 de abril de 2013

Músicas para Escrever LIII, Fever Ray - Concrete Walls


O local ao qual chamava lar é agora um ambiente funesto que gera asfixia. Temo que em breve os que nela habitam comecem a perecer vítimas de apoplexia induzida ou de venenos letais cada vez mais semeados em lugares onde costumávamos fazer picnics e passeávamos em tardes de Verão. 
Em tempos vivíamos felizes e dedicados por mantê-lo assim, talvez, as minhas memórias são ainda reduzidas, mas lembro-me de ter sido feliz e ter acreditado num futuro. Hoje esse lugar é apenas uma memória e a felicidade encontra paredes sempre que tenta mover-se. A felicidade dos que ainda vivem neste lugar não é felicidade mas, sim, apenas uma memória daquilo que foi a felicidade como a sensação da presença de um ente querido nos primeiros tempos após o seu último suspiro. Mas um dia tudo isso desaparecerá totalmente também…E nesse dia nem os fantasma vão querer ficar mais, nem um minuto que seja. 
Já não chamo lar a esse local! Também não tenciono desenvolver por ele ou pelos seres vis e infames, que o mitigaram, uma espécie de Síndroma de Estocolmo como já terá acontecido a algumas pessoas. Este lugar ao qual chamei lar é um local onde a esperança se encontra em estado vegetativo e não me espanta que, sem escrúpulos, dêem ordem para que a máquina da qual depende seja desligada. 
O local ao qual chamava lar já não é o meu lar. É agora um pequeno apartamento, semelhante a uma sala, pelo qual pago uma renda demasiado cara. Um espaço frio que já não reconheço e me provoca insónias ou pesadelos, quando penso que afortunadamente adormeci. Aqui o tempo passa como noutros sítios mas sem rumo e a cada dia a angústia cresce porque o que queremos alcançar está muito distante ainda e o tempo que teremos para desfrutar será o resto de uma vida miserável. 
Este é a minha carta de despedida para uma partida cada vez mais inevitável, para a qual só comprarei um bilhete de ida sem regresso. 
Pobre local ao qual chamei lar que em breve não serás mais do um deserto com fronteiras litorais formadas por falésias de onde mais nenhuma nau partirá com optimismo ou saudade, embaciando os olhos dos seus corajosos tripulantes.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Músicas para Escrever LII, God Is an Astronaut - Shining Through

A tormenta entre a razão e as matérias que envolvem a emoção é tudo o que resta de um ser que hoje não é mais do que um sopro errante. Desde sempre este dilema, que já foi e é comum a muitos outros como eu, me tem vindo a forjar estigmas.
Já não sei se existo mais para a vida para a qual acordo todos os dias ou para os sonhos que anseio a cada momento que tento adormecer. A vida é para mim cada vez mais diluída, mais imperceptível, mais fosca, como um livro escrito à mão cuja tinta se vai diluindo debaixo de uma chuva torrencial que as minhas lágrimas vão acentuando porque são elas a razão de toda esta precipitação absurda sobre este meu mundo de amorfia, paralisação e desassossego.
Já os sonhos, a cada noite que adormeço, apresentam-se mais nítidos e reais. São perceptíveis os sons, os rostos começam a deixar-me conhecê-los e os habitantes desses sonhos, talvez um mundo paralelo que sempre quis conhecer, deixam agora que me aproxime e que lhes possa tocar, como prova da sua real existência.
Talvez por passar demasiado tempo acordado, assimilei esta circunstância à qual chamam vida a um mundo real e talvez seja demasiado tarde para mudar as coisas e aquela voz que me acordou e que tento recordar todas as noites tarda em chegar. No entanto, a minha esperança em ouvi-la de novo continua.
Brevemente será hora de adormecer e sonhar, vivendo tranquilamente.




terça-feira, 12 de março de 2013

Músicas para Escrever LI, Mono - Pure as Snow (Trails of the Winter Storm)

05h31m: Ainda tenho duas horas para dormir.

07h30m: Depois de ter desligado o despertador após um anunciante one, two, three, four, voltei a adormecer (constantemente peço mais cinco minutos ao despertador, mas hoje, sem querer desliguei-o).

08h04m: Acordei cerca de meia hora depois com uma voz feminina muito dócil que sussurrou o meu nome, “António!”, uma única vez. Abri os olhos lentamente e não era ninguém, quando julguei ter sentido uma respiração bem junto do meu rosto. Olhei novamente e não havia mais ninguém ali no quarto.

08h08m: Abri a janela e levantei-me preguiçosamente para mais um dia em busca de respostas, conclusões, soluções…talvez algumas considerações também.

Não sei se aquela voz misteriosa seria a minha consciência a relembrar-me que tinha que acordar para não faltar às aulas. Tenho a certeza que não! A voz da minha consciência é parecida ou igual à minha, é aquela voz que ouço nos meus monólogos constantes e plurilingues, na maioria das vezes, que ocorrem no banho, quando conduzo ou quando tento combater as insónias.
A verdade é que gostei daquela voz, ainda a ouço constantemente, agora mesmo, como um eco porque se repete vezes e vezes sem conta. Quero voltar a ouvi-la, mesmo que não conheça a forma física que a pronuncia.
Talvez esteja a enlouquecer. Talvez um pouco mais. E a loucura total tem como pano de fundo vozes assim? Se sim, então, é para lá que quero caminhar.
Boa noite, noctívagos e noctívagas. Não digo até amanhã, mas até que essa voz me volte a despertar.




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"A Morte do Autor" (Barthes, 1987)


O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”
Há já vários anos que o Autor reflectia sobre as palavras de Roland Barthes, tentando encontrar nelas algum sentido para a sua moderna existência e para o seu futuro, ora trémulo ou pungente, ora corroborado ou exaltado. Todos esses anos, sob reflexões sobre essas palavras de Barthes, foram também os necessários para o Autor produzir a sua última obra, que seria a mais brilhante e aclamada. Este foi o tempo profícuo da sua existência, da sua vida, talvez da sua longa linhagem, da qual não contarei já o desfecho.
Desde o final da Idade Média, com o Renascimento e os seus ideais humanistas antropocêntricos de afirmação do indivíduo, com o racionalismo francês, com a Reforma Protestante, com o empirismo inglês, com o positivismo, instalou-se no mundo ocidental a família do Autor, uma estirpe centrada no “prestígio pessoal do indivíduo”. É uma família com imensos membros que começaram a afirmar-se e a vigorar, um pouco por todo o lado, detendo a autoria de tudo o que iam produzindo, criando uma cisão com o anonimato ou colectivos anteriores dos apreciados cancioneiros.
A verdade é que ainda hoje os vários membros deste clã Autor reinam na história da literatura, nas biografias dos escritores, em revistas, em jornais, em entrevistas, nas críticas devido à incapacidade dos críticos em dissociar a obra e a pessoa que a produz, na feroz necessidade de encontrar na obra os gostos, os ideais, as paixões, a pessoa, o carácter autobiográfico do Autor, levando a que a imagem da literatura destes tempos seja “tiranicamente centrada no autor”.
De facto, o Autor detinha, na sua enorme mansão, um grande espólio de recortes, registos de tudo aquilo que havia sido centrado nele: entrevistas, resenhas e críticas literárias, biografias oficiais e não oficiais, autorizadas e não autorizadas, artigos de jornais ou de blogues, estudos que entrelaçam o escritor e a obra. Tudo isto estava num mausoléu que criou, como um santuário, o seu próprio santuário, que ele próprio venerava mas que, nesses últimos tempos, pensando nas palavras de Barthes, havia descuidado e o pó amontoava-se sobre todos aqueles livros, a luz ia fazendo desaparecer as letras dos recortes, assim como a humidade os ia fazendo apodrecer.
Anteriormente, o Autor queria ser ele próprio conhecido através da escrita que considerava sua, de uma linguagem que também pensava ser sua, de tudo que cria ser centrado em si. Mas a escrita não era sua, a linguagem também não o era. Nada era seu, a não ser a mão que escrevia e a vontade! Primeiro estranhou: o seu mundo, até ali tão idílico, aparentemente inefável e tão seu, abalou-se, desmoronou-se, desconstrui-se. Depois entranhou-se: a sensação era boa, sentia uma liberdade correr em toda a sua inspiração. A linguagem passou a falar por ela própria e não o Autor, que sentia a magia de desaparecer, como um mago, deixando apenas um pouco de magia que daria liberdade total a quem a recebesse. A performance descentralizou-se assim, passando do “eu” para a “linguagem”, dando seguimento à poética de Mallarmé: “suprimir o autor em proveito da escrita”. É isto que passa a ser importante para esse intitulado Autor que, assim sendo, já não é mais Autor, mas simplesmente aquele que escreve. Durante algum tempo, o Autor invejou Proust pelo sei feito de, ao invés de passar a sua vida para o romance, fazer da sua vida uma obra. Depois descobriu o seu próprio caminho.
Previamente, durante o Surrealismo viveu um período de eremitismo. A ideia de partilhar um texto com alguém, de experimentar uma escrita a vários fazia-lhe confusão, provoca-lhe náuseas por ter de misturar uma substância, que considerava tão sua, com a de outrem, que provavelmente nunca havia conhecido. Sentiu raiva com o contributo dos surrealistas “para dessacralizar a imagem do autor”, que fez do Autor aquele que simplesmente escreve, passando a linguagem apenas a conhecer o “sujeito” e não a “pessoa”. O Autor, isolado em sua ermida, sentia a dor de algo que considerava uma doença que acometia outros membros da sua estirpe e, esse foi um tempo diferente, não produziu nada.
Após esses tempos de isolamento, novas tendências vieram e o Autor ia ficando atento, no entanto, mantendo a sua distância, preservando a sua integridade de Autor. Continuava sem escrever, aumentava-lhe a angústia dessa solidão, desse individualismo, desse reconhecimento massivo impertinente em tudo aquilo que escrevia e do qual nunca conseguia dissociar-se. Mas, eis, que chegou o dia e muralhas de conceitos e ideias se demoveram para deixar entrar em si algo novo, algo conquistado por uma liberdade que no fundo, sem que o soubesse, lhe agradava. Nasceu em si, então, o scriptor. Começou a fazer sentido em si o aqui e o agora, ao invés de eternidades monótonas que com ele se arrastavam, como correntes das quais não conseguia libertar-se. Esse seu íntimo scriptor nasceu quando começou a escrever o seu texto, esse derradeiro texto de liberdade, que será delegada, de dimensões múltiplas, entre matrimónios e uniões de escritas variadas, que originam novas escritas, sem que nenhuma delas fosse contudo original, quando sem amarras oferecer o texto ao mundo. Assim, já não detém, como anteriormente, quando acerrimamente se afirmava como “o Autor”, paixões, impressões, sensações, sentimentos, ilusões, “mas sim esse imenso dicionário onde vai buscar uma escrita que não pode conhecer nenhuma paragem”.
O Autor, agora ancião, mas dotado de uma nova perspetiva plena de liberdade, sua e dos que receberem o texto que escreveu, já não procura impor-se à sua obra ou impor ao seu texto um último e derradeiro significado, castrando o desconstruir que possa vir a ser processado pelo leitor para deslindar o que lê, fazendo disso “coisa” do passado, dos seus antepassados retrógrados.
Após todos esses anos, o Autor encontra um herdeiro, que nunca imaginou vir a ter. Todo o seu individualismo e tentativas de exaltação levaram ao seu isolamento, a uma envelhecer solitário. Desconstruíram-se, então, ideias e pensamentos tidos como verdades absolutas e, assim, um texto passou a ser “feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação.” No entanto, há um lugar, alguém onde tudo se encontra e esse alguém é o herdeiro do Autor, que passou a scriptor, o leitor, alguém que até li nunca tinha sido valorizado. É este leitor que dará vida ao escrito porque é para ele que, afinal de contas, o escrito conflui.
Terminado o seu texto, o Autor em tempos, agora scriptor, consciente da realidade e da liberdade que se propõe a delegar, após entregar o texto ao leitor, bebe o seu derradeiro cálice de licor onde acrescentou algumas gotas de cianeto porque “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. Era uma bela tarde de primavera e o sol brilhava no horizonte. Na mesa onde se sentava, de frente para uma jardim que começa a ganhar imensas cores, restou uma carta que serviria de testamento e havia um único pedido:
“Por toda a felicidade e tranquilidade que a escrita me trouxe, pelo sentido que ela deu à minha débil existência, nestes derradeiros anos e pela companhia que me foi oferecida pelo scriptor, peço gentilmente que não tirem liberdade ao derradeiro texto que envio ao mundo, que quando lido será do leitor e não meu, e, ao invés de um nome, vigente durante séculos, que comigo quero enterrar, conste apenas o scriptor”.
O texto percorreu o mundo, em várias línguas até, como nunca havia acontecido, e, respeitando a último pedido de quem escreveu, sem que ninguém soubesse quem era o misterioso “o scriptor”, o texto foi desconstruído inúmeros vezes, deslindado pela milésima vez, lido vez sem conta porque ninguém sabia que paixões alheias procurar, que pessoas procurar. Afirmou-se o aqui e agora, rodeado de “sujeito” e não “pessoas”. Era um texto sobre a loucura e ninguém sabia se essa era a loucura do Autor, que ninguém conhecia, do scriptor, do “sujeito”, da “pessoa”, do leitor, de alguém. Era a loucura para quem quisesse vivê-la, para quem quisesse experimentá-la, interpretá-la à sua maneira e seria sempre diferente, dependendo do aqui e do agora, da circunstância da sua leitura.




António Campos Soares



Bibliografia específica

BARTHES, Roland – “A morte do autor”, O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, pp. 49-53

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever L, Mono - The Battle To Heaven


"Car tous les hommes désirent d'être heureux: cela est sans exception. Quelques différens moyens qu'ils y emploient , ils endent tous à ce but. Ce qui fait que l'un va à la guerre, et que l'autre n'y va pas, c'est ce même désir qui est dans tous deux accompagné de différentes vues." 

Blaise Pascal


A vida é como um texto porque a língua – escrita ou não – é também uma forma de acção. Não é que todas as regras que envolvem a língua tenham que ser seguidas escrupulosamente porque, se deténs o conhecimento formal que é fundamental, podes reinventar.
Podes usar reticências ao invés de um ponto final. Podes escrever frases mais longas e fazê-las semelhantes a um sonho que queres prolongar ou a uma divagação que não queres abandonar e continuar... Podes fazer essas mesmas frases curtas! É contigo! Podes adulterar a ortografia, se assim entenderes, porque há palavras que ditas ou escritas de outra maneira, em alguma circunstância, te soam melhor assim, te fazem rir, te perpetuam aquele momento, te relembrar alguma pessoa – infelizmente agora não me estou a lembrar de nenhuma mas isso acontece! Podes jogar com as palavras porque, em determinado momento, uma mesa pode ter sido muito mais que uma mesa onde costumas jantar só e naquele exacto momento não estavas sozinho ou sozinha. Podes florear para criar cenários idílicos que pretendes levar ao mais ínfimo dos pormenores ou criar charadas de quem foste realmente ou de como apenas te representaste nas histórias que escreveste quando não o pudeste ser na realidade. Tudo isto porque, quando conheces bem, dominas ainda melhor. E aprende, aprende a cada dia e com cada palavra.
O importante é não deixar nada em suspenso, pelo menos para ti, que escreves o teu texto. As dúvidas não fazem bem porque são como cruzamentos duvidosos e muito mal sinalizados em que, enquanto decides avançar ou não, podes ser surpreso por alguma infelicidade, por isso, não fiques na dúvida e se, no final daquele parágrafo, deverias ter deixado reticência, ou por fraqueza não quiseste colocar um ponto final, ou se aquele pensamento, esquecido entre outras frases, deveria ter tido destaque e passado a uma intervenção tua, mesmo que sem deixa, certifica-te que isso não te passou em vão.
Não deixes frases inacabadas em que, na posterioridade, alguém perversamente possa alterar o sentido de alguma circunstância que te envolveu ou em que, com a melhor das intenções, te envolveste apesar do anonimato que injustamente te atribuíram no final da história quando alguém gritou vitória e te esqueceu.
Talvez a razão de muito mal-estar que nos mitiga seja mesmo a falta de coerência e sanidade que nos assoma quando deixamos pontas soltas em algo que, ainda não estando o nosso texto acabado, pensamos lá voltar para resolvê-las, no entanto, não o fazemos porque são tantas e nos esquecemos e quando está publicado o nosso texto já é tarde demais. FIM!





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVIII, Aesthesys - Scrolling In Mind Images Of The Past Day Before Falling Asleep

À beira mar tudo parece mais sereno ainda que o mar queira mostrar a sua força.
Quando está calmo, faço barcos de papel e neles embarco os meus sonhos e ordeno que cheguem a um porto seguro e acolhedor, longe da angústia que está para lá do que fica à beira mar. Quanto está bravo, atiro nele e nas suas ondas as minhas mágoas e tristezas para que se dissolvam e encontrem algum repouso longe.
Estou cansado, mitigado e esta esperança, outrora mais forte que um colete à prova de bala, é hoje um casaco de malha desfeito que me dá aparência de mendigo. E quem sabe, sou mesmo um mendigo, não à procura de esmola, mas sim de um porto de abrigo.




Músicas para Escrever XLVII, The Best Pessimist - Forgive me

Um dia vou escrever-te uma carta, ou talvez já a tenha escrito – não sei ao certo onde e "quando" estou. Será uma carta peculiar, que nunca esquecerás, assim o espero. Será a minha última carta para ti, só para ti, porque já terá o mundo desaparecido. Estaremos só, tu e eu, num vazio e poeirento universo. Estaremos os dois, não propriamente em carne e osso, mas em espírito, âmago, algo, aquilo em que acreditares e se acreditares em alguma destas coisas. Desde que a morte me enterrou dentro do ataúde, prometi que o meu âmago apenas encontraria descanso quando te encontrasse e te entregasse esta carta, que já foi um testamento, mas agora é demasiado tarde para isso.
Porque me desapareceste no dia em que prometeste voltar, não consegui fazer-te herdeira da minha felicidade, não consegui delegar-te a minha força, não pude deixar-te a minha vontade, nem pedir que me fizesses feliz naquele minuto antes de partir eternamente e fixar-me no céu, cuidando-te até que também tu viesses brilhar comigo. Foram duros os últimos dias em que escrevi, resistindo a enfermidades que me arrastavam para uma morte penosa e estas palavras foram escritas com sangue e lágrimas. Perdoa-me se alguma delas é imperceptível, mas tentei encontrar-te e ler-ta, em vão.
Não pretendo que amoleças este papel com lágrimas, não pretendo ocupar-te com tristeza ou remorsos porque o culpado aqui sou eu, que sentindo-te faltar, fui induzindo a minha morte. Apenas peço: recorda-me nesses dias de esplendor em que sabia sorrir!




sábado, 12 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVI, Isis - Maritime

A tragédia da vida é saber que, perante dois caminho bem distintos, ficaremos na bifurcação e ali acabaremos porque a nossa falta de esperança e felicidade não nos deixa avançar. Porque não acreditam em nós,  também nós, por arrastamento, muitas vezes, desacreditámos nos e, momentaneamente, sentímo-nos felizes perante a nossa estupidez porque sentimos uma mão que rapidamente nos afaga as costas, no entanto, como rapidamente se presta a afagar, rapidamente desaparece e voltamos a mergulhar na profunda desilusão que tem vindo a ilustrar as nossas vidas.
É tão infeliz a bifurcação que se pudesse pedir um último desejo, não preferiria morrer agora, nem pediria que me levassem para um momento futuro, onde só há promessas banhadas a ouro. Simplesmente pediria que me fosse possível voltar a um momento de passado, onde me sentaria tranquilamente e ali, como quem assista a um filme, e não importaria se soubesse qual o final, porque depois de tanto desilusão, nada mais desejo do que acabar e levar comigo, como última memórias, um final seguramente feliz, ao invés de acabar num caminho cinzento e húmido como um tumulto aberto, murmurando as mais que conhecidas palavras dilacerantes de toda a gente, que deixou de sonhar, profere na esperança de que as minhas lágrimas e a minha miséria regassem o seu jardim de lâminas e espetos que, vezes sem conta, deixaram em nós inesquecíveis cicatrizes.




Músicas Para Escrever XLV, God Is an Astronaut - Point Plesant

Não olhes para mim assim, não outra vez, por favor - digo-te eu em silêncio porque não consigo fazer com que as palavras me saiam e não estou seguro se entenderás este meu constrangedor silêncio. Sabes que há nisso uma extrema crueldade? Sabes que a minha resistência, não é, de facto, uma resistência? Sabes que não é uma aceitação, mas sim uma dor difícil de se suportar? Não o faças, por favor, se ficarei só novamente, não terei força para esse confronto. Sabes que levas a melhor das vantagens sempre que o fazes e matas-me, matas-me de cada vez que isso acontece porque não está na minha natureza contrariar-te, nem repudiar-te, nem esquecer-te, nem desejar vingança. Ainda que na minha vontade, bem na sua essência eu possa contrariar-te e, no mais recôndito secretismo, ter-te, não ouso deixar-te sabê-lo, ou incorreria no meu penitenciário fim.
Fazes surgir em mim instintos fortes e de enorme adrenalina  que não consigo revelar porque esse teu olhar me petrifica. E aceito-me, assim, em condição de serventia, sendo o lacaio enamorado pela senhora que me prende, talvez sem saber, talvez tirando prazer desse arrebatamento que provocas em mim porque há diferentes fontes de prazer: uns por desejar, outros por infligir, outros por reconfigurar e aproveitar. Talvez tu mesma sejas vítima de uma condição e essa condição criou em mim uma outra condição inferior, uma ligação feita por um elo extremamente defeituoso que, ainda assim, se aguenta. E tu sabes, assim morrerei, sem ti, mas contigo por perto.

Elle s'appellait Belle, la plus Belle Fantasie que je pouvais croie.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Mort que je pouvais attendre.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Vie que j'ai eu.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle mort qu'un Misérable pouvait avoir.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIV, Julia Holter - Marienbad



Elegantemente saiu do seu banho, onde se submergia em espuma colorida e sais aromáticos. Continuou em bicos de pé pela casa fora, deixando que a espuma lhe assentasse como uma vestido colorido, visível pela luz das velas, e aroma dos sais deixasse um rasto. Dirigiu-se para pátio em frente ao jardim. Da janela do seu quarto propagava-se a música que saía da sua grafonola, que despertou todos aqueles que já se deixando apagar pelo sono.
No interior da enorme casa, as janelas preenchiam-se de rostos indignados de gente que segurava candelabros  Ela dançava entregue à música que a ia envolvendo e todas as plantas do jardim a acompanhavam amparadas pela brisa nocturna. A indignação não durou muito, dando lugar ao deleite de contemplar tamanha beleza, que o luar sem hesitar cobria de brilho salientando os seus contornos. Dançou até que sol viesse para a cortejar mas, com a elegância que para ali se dirigiu, voltou aos seus aposentos, entregando-se a um amante, que certamente num sonho a aguardava.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLII, Aesthesys - I Am Free, That Is Why I'm Lost


Será um ser dependente enquanto seguir os caminho que não são os seus. Não será vitorioso enquanto lhe atribuírem sucessos atingidos numa batalha que não é a sua. Será um feliz sem ânimo enquanto apenas contribuir para uma felicidade que não é a sua. Este é o mais que conhecido Fidalgo Maldição. 
Continua sentado com a chávena de chá que se vai esfriando nas suas mãos. Há muito que os dias que contempla pela ampla janela, onde a vidraça é fustigada por fortes chuvas, são cinzentos e com muito poucas horas de luz. É uma tempestade perene e já não guarda em si esperança de avistar dias de bonança.
Rodeia-se de diplomas encaixilhados e cobertos por pó que se vai acumulando porque se cansou de os limpar e os exibir magistralmente. Também não deixa que os abrilhantem mais, salvo para um propósito diferente, que nunca aparece. Até hoje não o levaram a nenhuma saída que não fosse a previsibilidade dos mesmos resultados de sempre. É este o seu (só seu?) triste apanágio.
Está já gasto o veludo dessa poltrona majestosa onde se senta e as almofadas estão côncavas, como um caixão feito à medida para que o cadáver não se mova com a mínima trepidação. Se tarda a bonança, sabe que não deve tardar o tempo para apenas sair dali solenemente deitado e embrulhado num lençol de linho branco com insígnias que o prenderam e de pouco lhe valeram.
Decisões dos passados tempos de bonança com pesadas correntes consequenciais que o prendem num luxuoso salão nobre quando já passou o tempo da nobreza e esse é o seu cárcere.
Cai-lhe a chávena, espalhando-se os cacos nesse lustroso chão que emana o cheiro da cera. Arremessa os candelabros com velas acesas e começa a ver o fim, uma luz forte que se propaga e o aquece como os dias de sol que há tanto espera contemplar. Deixa para trás traz o robe de cores ridículas  que rapidamente é consumido pelo fogo, assim como todos aqueles papéis escritos pela rotina. Sai e assoma-se-lhe o espanto quando vê o sol e apercebe-se que todo o cinzento, que via da janela, era uma ilusão criada pela desilusão que sentia. Quebra-se assim a Maldição do Fidalgo que, celebrando as ruínas de tudo aquilo que o prendia, se torna Fidalgo Libertação, Fidalgo Criação, Fidalgo Imaginação, Filho De Algo que há tanto ansiava.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLI, The Echelon Effect - Sleep Patterns


São sons de fundo: conversas, sussurros, passos, folhas de papel, músicas, vento, chuva, mar...
Em determinados momentos, para alguém avançar, alguém tem que ceder. Outras vezes, alguém tem que ceder para alguém avançar. Em algum dos casos, jogando correctamente  ninguém perderia porque, sempre que há mais do que uma pessoa no mesmo lugar, não é só um que aprende.
E se cedermos os dois? E se aprendermos os dois, um do outros, juntando os nossos sons, as nossas vivências, os nossos saberes, as nossa memórias?
Uma cedência não tem que ser uma imposição de uma das partes. De imposições estamos todos nós cansados e, talvez por isso, aprendemos a não ceder, vendo na cedência um sinal de fraqueza. Seguimos caminho diferentes mas, em determinado ponto, esses caminhos podem cruzar-se e, aí, não temos que virar costas um ao outro e voltar a seguir esses caminhos distintos. Podemos aproveitar esse vértice para comunicar, para receber e dar recomendações, para pedir ou dar ajuda. Por vezes, há até caminhos diferentes que se percorrem lado a lado e esse pequeno espaço que os separa não precisa de ser um muros de impedimentos para caminhar com palas.
Se me permitires, eu cedo e saltarei essa pequena distância que nos separa para fazer parte do caminho contigo e tu poderás fazer o mesmo, que te receberei de bom grado. Se a distância for maior, estou aqui para me certificar que não cais num abismo qualquer que possa existir nesse pequeno espaçamento que aparta os nossos caminhos  Há momentos em podemos e devemos transgredir para quebrar a monotonia que nos envolve. Agora, qual de nós salta?




Músicas para Escrever XL, Sleep Dealer - Point Of No Return


Vamos embora daqui? 
Já viste quantos é que já partiram também e não são mais do que nós?
Pois, eu conheço esse aceno. Quanto dinheiro tens no bolso?
Eu tenho o mesmo. Chega para os dois. Não podemos esperar mais um dia ou tiram-nos o pouco que guardamos.
Tens comida?
Chega. Duas sandes para cada um chegarão para a viagem. Depois, quando chegarmos, lá nos orientaremos.
Assim apanhámos o comboio há uns meses. Libertámo-nos dessa mendicidade que nos corrompia. Éramos mendigos e o pouco dinheiro que juntávamos servia para engordar quem mais tinha. Davam-nos esmolas magras, sabendo que a eles voltariam obesas quantias. Deixámos de os alimentar e, nesses dias, em que ninguém sentiu a falta do nosso contributo, juntámos uma escassa quantia para comprar o bilhete e assim partimos.
Por alguns tempos vivemos num nomadismo que não tinha uma ínfima comparação com o sedentarismo da nossa realidade passada. Cruzámos planícies, montanhas, pontes, rios, cidades...os dias passavam e o mapa que levávamos connosco ia ficando com mais anotações do que com nomes de cidades.
De onde viemos, não havia notícias. Deixaram de dar importância a esse sítio de onde só ouviam misérias e de misérias toda a gente se farta e, por vezes, há que saber virar as costas, ou comprometermos a nossa felicidade porque nunca tudo, nem nunca nada.
Um dia, o que começou como uma brincadeira num labirinto, fez-me perder-te. Durante dias percorri cada espaço desse labirinto, sem sucesso, sem pistas, sem nada. Gritei por ti, não te ouvia. Estava só, estava longe, estava perdido também.
Voltei ao comboio, mas não voltei a atrás.
Decidi continuar a minha jornada. Se não te encontrei, nem viva, nem morta, é porque ainda por aí estarás e, se continuas também a tua jornada, aquela que começámos juntos num lúgubre apeadeiro, em algum ponto, te encontrarei, talvez solucionando um outro labirinto, num outro sítio, num outro momento, numa outra esperança...




Músicas para Escrever XXXIX, Epigram - The Spectator (Interlude 2)


Já imaginaste a escuridão que se vincularia à noite se, a cada oportunidade de brilhar, cada estrela se desertasse da constelação que integra em busca de um brilho a solo num "sabe-se lá onde", que ninguém conseguiria achar? Ficaríamos sob a monotonia de uma manto unicamente negro onde, talvez, apenas restasse a lua, já que é o único planeta secundário que assegura algum destaque. Mas o que é cada estrela a brilhar individualmente, ainda mais longe, um ponto cintilante ainda mais imperceptível?
A beleza das estrelas deixaria de existir com o colapsar das constelações, esses conjuntos que integram e que todos os que vêem procuram encontrar porque são belos, porque neles há uma geometria natural criadora de harmonia, porque são tão antigos que nos serviram de inspiração e, em torno deles, criámos lendas, demos repouso a personagens únicas.
E da lua? O que seria dela sem o adorno das estrelas e das constelações? Um pobre corpo nu sem qualquer amparo, que não conquistaria outro corpo, nem com essa exibição de nudez. Que comparação teria ela, no restante firmamento, para se vangloriar do seu brilho que, mesmo não sendo mais do que um reflexo, é o que mais se destaca à nossa vista quando a noite nos envolve?
Talvez outro Big Bang não fosse, de todo, uma má ideia. Todos os corpos desfeitos e novos corpos feitos com os restos espartilhados de todos esses corpos desfeitos.




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost


How long? How long? This is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't figure out why I'm still here awake for days or months perhaps. Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent. É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de mémoires.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!