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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Músicas para Escrever LVI, Mumford & Sons - Awake My Soul



Era o fim de tarde de um dos últimos dias quentes de verão, sentou-se na laje do túmulo que nunca quis ver edificado, tirou um papel do bolso e leu-lhe aquele carta, a sua última carta, a carta que queria que fosse lida, que lhe queria enviar mas que, por infortúnio da vida, nunca lhe havia de chegar.


"Morreste-me demasiado cedo…

Como aquele infante nascido demasiado prematuro, que ninguém acredita que sobreviverá, mas sobrevive, e tu morreste-me!

A questão não se põe no quando, mas no facto de que não me deverias ter morrido.

As pessoas como tu não merecem morrer assim, cedo e em agonia. As pessoas como tu são genuínas, constituídas por uma matéria tão pura que se fossem escarnadas, laminadas, analisadas ao mais ínfimo dos pormenores, não lhes seria encontrada uma ponta de maldade ou qualquer tipo de mácula.

Morreste-me demasiado cedo, quando precisava de ti e porque ainda preciso. E se não me tivesses morrido, os meus monólogos não seriam tantos nem tão longos e o meu olhar não se perderia tanto na linha do horizonte à espera de ver-te chegar um dia, ou nas longas noites de insónia a imaginar como seria cada momento que passei se não me tivesses morrido.

Estou certo que todos teremos o momento de largar este corpo e eu não me atreveria a pedir que ficasses cá para sempre, pois, isso seria sobrecarregar-te de sofrimento. Se não me tivesses morrido, apenas pediria que partisses um pouco antes de mim porque, se já sofri uma vez com a tua partida, voltaria a sofrer, no entanto, de maneira diferente porque teria vivido muito mais ao teu lado.

Aquilo que pensámos ser um enorme círio, cujo pavio poderia arder durante uma vida, tornou-se numa pequena vela que fulminantemente se consumiu.

Morreste-me demasiado cedo porque és insubstituível. Cada pessoa é única, no entanto, e concordarão comigo, há pessoas que, apesar da sua característica una, podem ser substituídas, dependendo das suas circunstâncias, mas tu és insubstituível, não importando o lugar, o dia ou a circunstância.


Morreste-me demasiado cedo ontem, hoje e amanhã porque a tua morte é uma ferida sem cura que vai infeccionando cada vez mais com a alastrar do tempo e se retirar a minha camisola verás que tenho já meio corpo com chagas abertas. Vou acalmando a minha dor lambendo essas chagas com memórias, mas essa cura não se tem mostrado eficaz.

Morreste-me demasiado cedo e a incerteza de saber se me ouves enquanto te leio esta carta também me corrói porque sou um homem de pouca fé, mas hoje, que te leio, quero acreditar que me ouves, ainda que não saiba se eventualmente, de alguma forma, me responderás.


Dadas todas as incertezas da vida, e sem saber para onde me levam as marés do tempo, despeço-me num até já porque o adeus fere-me e remete-me novamente à tua despedida, o dia em que essa chaga abriu e começou a alastrar em mim como uma peste.



Com amor,

Até já!"


Dobrando novamente a carta humedecida pelas lágrimas que lhe foram caindo, guardou-a novamente no bolso. Desse mesmo bolso tirou uma pequena caixa de fósforos, acendeu uma vela e despediu-se. Não tinha dado três passos quando voltou para trás, retirou a carta do bolso e deixou-a em cima da vela para que ali se consumisse.




terça-feira, 4 de junho de 2013

Músicas para Escrever LV, Collapse Under The Empire - Captured Moments

Hoje tive que ouvir música e escrever, imperativamente. São demasiado os infortúnios que necessito de expurgar do meu pensamento e tantos as vontades e visões que tenho que guardar bem gravadas, ainda que em cicatrizes para nunca me esquecer o que representam porque as cicatrizes são mais permanentes e incógnitas que a tatuagens.
As minhas noites oscilam entre pesadelos mórbidos e melancólicos e sonhos que desejava serem realidade. A ironia é que não quero acordar nem dos pesadelos, nem dos maravilhosos sonhos que com eles se alternam. Os pesadelos, quero resolvê-los e dar-lhes um final digno e os sonhos não os quero abandonar, ao ponto de não saber se, por vezes, são realidade ou imaginário e, nesses casos, apodera-se de mim a angústia quando desperto para dita realidade, que também não prefiro em detrimento dos pesadelos.
Num dos pesadelos paguei com o consentimento da minha lobotomia uma vida que queria salvar de um contínuo decepamento. E a anestesia, os perder dos sentidos era real que acabei por perecer num túnel numa manhã de nevoeiro e não terá sido um parecer no seu lato sensu, mas sim num stricto sensu que me terá abandonada num hospício perdido, de onde um dia me hei-de resgatar. Outras vezes a visão é demasiado trôpega e cansada que me encontro em lugares desconhecidos, estando só em cenários de um pós-apocalipse que levou para longe todos aqueles que conheço e não quero despertar, pois naquele pesadelo, ainda que assim o seja, consigo encontrar esperança para me perder na busca de alguém e, no oscilar da noite, essas personagens cruzam habilmente as fronteiras da noite que separam os sonhos dos pesadelos.
Eu sou o homem de lugar nenhum que busca incessantemente o bem e o mal, o infortúnio e a graça, o ódio e o amor, a dor e a cura, a escassez e a abundância, as chagas e o bálsamo porque tenho uma necessidade imperante em sentir-me vivo e a dor faz parte desse processo, a imunidade cria-se assim, os objectivos e os caminhos que seguimos traçam-se assim.



domingo, 2 de junho de 2013

Músicas para Escrever LIV, Fever Ray – If I Had a Heart


Ele nunca disse nada, não porque as palavras fossem poucas ou porque sofresse de mudez em determinados momentos. Não disse, nem dizia, porque, no seu entendimento, não deveria afectar as decisões ou as acções das pessoas que o rodeavam. Este era o seu meio de respeitar a liberdade total de quem conhecia.
O seu silêncio de liberdade era considerado muitas vezes como uma apatia profunda e estagnação emocional. Na verdade, tinha os seus momentos de apatia e solidão por ser incompreendido, no entanto, também compreendia as pessoas e estava consciente da condição de repressão sentimental. Ele próprio havia diagnosticado essa patologia em si mesmo.
Muitas vezes não falava porque não lhe perguntavam e não se lembrava de que às vezes era necessário ceder.
Muitas vezes não falava porque algo o prendia bem lá dentro.
Mas ele não era apático. Ele adorava as pessoas e queria conhecer sempre mais pessoas e, de facto, conheci-as, mas os quilómetros de distância eram uma constante sempre que conhecia alguém. Muita gente pensaria talvez que seriam as pessoas erradas, mas isso foi algo que nunca lhe ocorreu. Ele próprio havia sido desde sempre uma deambulante, aqui e ali, sem um lar fixo, pois qualquer sofá poderia ser o seu lar perfeito.
Um dia apoderou-se dele uma enfermidade gravíssima e foi aí que tudo começou a desabar, tornou-se um desgraçado mendigo de emoções que não sabia processar ou expressar. O seu mundo já não era o mesmo. Uma fobia social foi-se apoderando dele. Já não falava em público. Já não caminhava de cabeça erguida. Os seus projectos já não saiam mais do pensamento, a vontade estava perdida ou esquecia-se sempre dele para onde quer que fosse e isso era o que mais o dilacerava e os seus olhos estavam baços como nunca haviam estado, tinham perdido o brilho de tantas lágrimas que tinham salgado a pele áspera do seu rosto e, em consequência disso, a visão havia-se deturpado, vendo apenas sombras em alguns momentos.
Um dia, estando a passear numa falésia, tentando encontrar respostas, aproximou-se demasiado do limite e, esquecendo a sua vontade viver, caiu e não mais foi visto. Quero acreditar que encontrou conforto naquele mar imenso tão salgado quanto as suas incontáveis lágrimas.





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Músicas para Escrever LIII, Fever Ray - Concrete Walls


O local ao qual chamava lar é agora um ambiente funesto que gera asfixia. Temo que em breve os que nela habitam comecem a perecer vítimas de apoplexia induzida ou de venenos letais cada vez mais semeados em lugares onde costumávamos fazer picnics e passeávamos em tardes de Verão. 
Em tempos vivíamos felizes e dedicados por mantê-lo assim, talvez, as minhas memórias são ainda reduzidas, mas lembro-me de ter sido feliz e ter acreditado num futuro. Hoje esse lugar é apenas uma memória e a felicidade encontra paredes sempre que tenta mover-se. A felicidade dos que ainda vivem neste lugar não é felicidade mas, sim, apenas uma memória daquilo que foi a felicidade como a sensação da presença de um ente querido nos primeiros tempos após o seu último suspiro. Mas um dia tudo isso desaparecerá totalmente também…E nesse dia nem os fantasma vão querer ficar mais, nem um minuto que seja. 
Já não chamo lar a esse local! Também não tenciono desenvolver por ele ou pelos seres vis e infames, que o mitigaram, uma espécie de Síndroma de Estocolmo como já terá acontecido a algumas pessoas. Este lugar ao qual chamei lar é um local onde a esperança se encontra em estado vegetativo e não me espanta que, sem escrúpulos, dêem ordem para que a máquina da qual depende seja desligada. 
O local ao qual chamava lar já não é o meu lar. É agora um pequeno apartamento, semelhante a uma sala, pelo qual pago uma renda demasiado cara. Um espaço frio que já não reconheço e me provoca insónias ou pesadelos, quando penso que afortunadamente adormeci. Aqui o tempo passa como noutros sítios mas sem rumo e a cada dia a angústia cresce porque o que queremos alcançar está muito distante ainda e o tempo que teremos para desfrutar será o resto de uma vida miserável. 
Este é a minha carta de despedida para uma partida cada vez mais inevitável, para a qual só comprarei um bilhete de ida sem regresso. 
Pobre local ao qual chamei lar que em breve não serás mais do um deserto com fronteiras litorais formadas por falésias de onde mais nenhuma nau partirá com optimismo ou saudade, embaciando os olhos dos seus corajosos tripulantes.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Músicas para Escrever LII, God Is an Astronaut - Shining Through

A tormenta entre a razão e as matérias que envolvem a emoção é tudo o que resta de um ser que hoje não é mais do que um sopro errante. Desde sempre este dilema, que já foi e é comum a muitos outros como eu, me tem vindo a forjar estigmas.
Já não sei se existo mais para a vida para a qual acordo todos os dias ou para os sonhos que anseio a cada momento que tento adormecer. A vida é para mim cada vez mais diluída, mais imperceptível, mais fosca, como um livro escrito à mão cuja tinta se vai diluindo debaixo de uma chuva torrencial que as minhas lágrimas vão acentuando porque são elas a razão de toda esta precipitação absurda sobre este meu mundo de amorfia, paralisação e desassossego.
Já os sonhos, a cada noite que adormeço, apresentam-se mais nítidos e reais. São perceptíveis os sons, os rostos começam a deixar-me conhecê-los e os habitantes desses sonhos, talvez um mundo paralelo que sempre quis conhecer, deixam agora que me aproxime e que lhes possa tocar, como prova da sua real existência.
Talvez por passar demasiado tempo acordado, assimilei esta circunstância à qual chamam vida a um mundo real e talvez seja demasiado tarde para mudar as coisas e aquela voz que me acordou e que tento recordar todas as noites tarda em chegar. No entanto, a minha esperança em ouvi-la de novo continua.
Brevemente será hora de adormecer e sonhar, vivendo tranquilamente.




terça-feira, 12 de março de 2013

Músicas para Escrever LI, Mono - Pure as Snow (Trails of the Winter Storm)

05h31m: Ainda tenho duas horas para dormir.

07h30m: Depois de ter desligado o despertador após um anunciante one, two, three, four, voltei a adormecer (constantemente peço mais cinco minutos ao despertador, mas hoje, sem querer desliguei-o).

08h04m: Acordei cerca de meia hora depois com uma voz feminina muito dócil que sussurrou o meu nome, “António!”, uma única vez. Abri os olhos lentamente e não era ninguém, quando julguei ter sentido uma respiração bem junto do meu rosto. Olhei novamente e não havia mais ninguém ali no quarto.

08h08m: Abri a janela e levantei-me preguiçosamente para mais um dia em busca de respostas, conclusões, soluções…talvez algumas considerações também.

Não sei se aquela voz misteriosa seria a minha consciência a relembrar-me que tinha que acordar para não faltar às aulas. Tenho a certeza que não! A voz da minha consciência é parecida ou igual à minha, é aquela voz que ouço nos meus monólogos constantes e plurilingues, na maioria das vezes, que ocorrem no banho, quando conduzo ou quando tento combater as insónias.
A verdade é que gostei daquela voz, ainda a ouço constantemente, agora mesmo, como um eco porque se repete vezes e vezes sem conta. Quero voltar a ouvi-la, mesmo que não conheça a forma física que a pronuncia.
Talvez esteja a enlouquecer. Talvez um pouco mais. E a loucura total tem como pano de fundo vozes assim? Se sim, então, é para lá que quero caminhar.
Boa noite, noctívagos e noctívagas. Não digo até amanhã, mas até que essa voz me volte a despertar.




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever L, Mono - The Battle To Heaven


"Car tous les hommes désirent d'être heureux: cela est sans exception. Quelques différens moyens qu'ils y emploient , ils endent tous à ce but. Ce qui fait que l'un va à la guerre, et que l'autre n'y va pas, c'est ce même désir qui est dans tous deux accompagné de différentes vues." 

Blaise Pascal


A vida é como um texto porque a língua – escrita ou não – é também uma forma de acção. Não é que todas as regras que envolvem a língua tenham que ser seguidas escrupulosamente porque, se deténs o conhecimento formal que é fundamental, podes reinventar.
Podes usar reticências ao invés de um ponto final. Podes escrever frases mais longas e fazê-las semelhantes a um sonho que queres prolongar ou a uma divagação que não queres abandonar e continuar... Podes fazer essas mesmas frases curtas! É contigo! Podes adulterar a ortografia, se assim entenderes, porque há palavras que ditas ou escritas de outra maneira, em alguma circunstância, te soam melhor assim, te fazem rir, te perpetuam aquele momento, te relembrar alguma pessoa – infelizmente agora não me estou a lembrar de nenhuma mas isso acontece! Podes jogar com as palavras porque, em determinado momento, uma mesa pode ter sido muito mais que uma mesa onde costumas jantar só e naquele exacto momento não estavas sozinho ou sozinha. Podes florear para criar cenários idílicos que pretendes levar ao mais ínfimo dos pormenores ou criar charadas de quem foste realmente ou de como apenas te representaste nas histórias que escreveste quando não o pudeste ser na realidade. Tudo isto porque, quando conheces bem, dominas ainda melhor. E aprende, aprende a cada dia e com cada palavra.
O importante é não deixar nada em suspenso, pelo menos para ti, que escreves o teu texto. As dúvidas não fazem bem porque são como cruzamentos duvidosos e muito mal sinalizados em que, enquanto decides avançar ou não, podes ser surpreso por alguma infelicidade, por isso, não fiques na dúvida e se, no final daquele parágrafo, deverias ter deixado reticência, ou por fraqueza não quiseste colocar um ponto final, ou se aquele pensamento, esquecido entre outras frases, deveria ter tido destaque e passado a uma intervenção tua, mesmo que sem deixa, certifica-te que isso não te passou em vão.
Não deixes frases inacabadas em que, na posterioridade, alguém perversamente possa alterar o sentido de alguma circunstância que te envolveu ou em que, com a melhor das intenções, te envolveste apesar do anonimato que injustamente te atribuíram no final da história quando alguém gritou vitória e te esqueceu.
Talvez a razão de muito mal-estar que nos mitiga seja mesmo a falta de coerência e sanidade que nos assoma quando deixamos pontas soltas em algo que, ainda não estando o nosso texto acabado, pensamos lá voltar para resolvê-las, no entanto, não o fazemos porque são tantas e nos esquecemos e quando está publicado o nosso texto já é tarde demais. FIM!





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVIII, Aesthesys - Scrolling In Mind Images Of The Past Day Before Falling Asleep

À beira mar tudo parece mais sereno ainda que o mar queira mostrar a sua força.
Quando está calmo, faço barcos de papel e neles embarco os meus sonhos e ordeno que cheguem a um porto seguro e acolhedor, longe da angústia que está para lá do que fica à beira mar. Quanto está bravo, atiro nele e nas suas ondas as minhas mágoas e tristezas para que se dissolvam e encontrem algum repouso longe.
Estou cansado, mitigado e esta esperança, outrora mais forte que um colete à prova de bala, é hoje um casaco de malha desfeito que me dá aparência de mendigo. E quem sabe, sou mesmo um mendigo, não à procura de esmola, mas sim de um porto de abrigo.




Músicas para Escrever XLVII, The Best Pessimist - Forgive me

Um dia vou escrever-te uma carta, ou talvez já a tenha escrito – não sei ao certo onde e "quando" estou. Será uma carta peculiar, que nunca esquecerás, assim o espero. Será a minha última carta para ti, só para ti, porque já terá o mundo desaparecido. Estaremos só, tu e eu, num vazio e poeirento universo. Estaremos os dois, não propriamente em carne e osso, mas em espírito, âmago, algo, aquilo em que acreditares e se acreditares em alguma destas coisas. Desde que a morte me enterrou dentro do ataúde, prometi que o meu âmago apenas encontraria descanso quando te encontrasse e te entregasse esta carta, que já foi um testamento, mas agora é demasiado tarde para isso.
Porque me desapareceste no dia em que prometeste voltar, não consegui fazer-te herdeira da minha felicidade, não consegui delegar-te a minha força, não pude deixar-te a minha vontade, nem pedir que me fizesses feliz naquele minuto antes de partir eternamente e fixar-me no céu, cuidando-te até que também tu viesses brilhar comigo. Foram duros os últimos dias em que escrevi, resistindo a enfermidades que me arrastavam para uma morte penosa e estas palavras foram escritas com sangue e lágrimas. Perdoa-me se alguma delas é imperceptível, mas tentei encontrar-te e ler-ta, em vão.
Não pretendo que amoleças este papel com lágrimas, não pretendo ocupar-te com tristeza ou remorsos porque o culpado aqui sou eu, que sentindo-te faltar, fui induzindo a minha morte. Apenas peço: recorda-me nesses dias de esplendor em que sabia sorrir!




sábado, 12 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVI, Isis - Maritime

A tragédia da vida é saber que, perante dois caminho bem distintos, ficaremos na bifurcação e ali acabaremos porque a nossa falta de esperança e felicidade não nos deixa avançar. Porque não acreditam em nós,  também nós, por arrastamento, muitas vezes, desacreditámos nos e, momentaneamente, sentímo-nos felizes perante a nossa estupidez porque sentimos uma mão que rapidamente nos afaga as costas, no entanto, como rapidamente se presta a afagar, rapidamente desaparece e voltamos a mergulhar na profunda desilusão que tem vindo a ilustrar as nossas vidas.
É tão infeliz a bifurcação que se pudesse pedir um último desejo, não preferiria morrer agora, nem pediria que me levassem para um momento futuro, onde só há promessas banhadas a ouro. Simplesmente pediria que me fosse possível voltar a um momento de passado, onde me sentaria tranquilamente e ali, como quem assista a um filme, e não importaria se soubesse qual o final, porque depois de tanto desilusão, nada mais desejo do que acabar e levar comigo, como última memórias, um final seguramente feliz, ao invés de acabar num caminho cinzento e húmido como um tumulto aberto, murmurando as mais que conhecidas palavras dilacerantes de toda a gente, que deixou de sonhar, profere na esperança de que as minhas lágrimas e a minha miséria regassem o seu jardim de lâminas e espetos que, vezes sem conta, deixaram em nós inesquecíveis cicatrizes.




Músicas Para Escrever XLV, God Is an Astronaut - Point Plesant

Não olhes para mim assim, não outra vez, por favor - digo-te eu em silêncio porque não consigo fazer com que as palavras me saiam e não estou seguro se entenderás este meu constrangedor silêncio. Sabes que há nisso uma extrema crueldade? Sabes que a minha resistência, não é, de facto, uma resistência? Sabes que não é uma aceitação, mas sim uma dor difícil de se suportar? Não o faças, por favor, se ficarei só novamente, não terei força para esse confronto. Sabes que levas a melhor das vantagens sempre que o fazes e matas-me, matas-me de cada vez que isso acontece porque não está na minha natureza contrariar-te, nem repudiar-te, nem esquecer-te, nem desejar vingança. Ainda que na minha vontade, bem na sua essência eu possa contrariar-te e, no mais recôndito secretismo, ter-te, não ouso deixar-te sabê-lo, ou incorreria no meu penitenciário fim.
Fazes surgir em mim instintos fortes e de enorme adrenalina  que não consigo revelar porque esse teu olhar me petrifica. E aceito-me, assim, em condição de serventia, sendo o lacaio enamorado pela senhora que me prende, talvez sem saber, talvez tirando prazer desse arrebatamento que provocas em mim porque há diferentes fontes de prazer: uns por desejar, outros por infligir, outros por reconfigurar e aproveitar. Talvez tu mesma sejas vítima de uma condição e essa condição criou em mim uma outra condição inferior, uma ligação feita por um elo extremamente defeituoso que, ainda assim, se aguenta. E tu sabes, assim morrerei, sem ti, mas contigo por perto.

Elle s'appellait Belle, la plus Belle Fantasie que je pouvais croie.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Mort que je pouvais attendre.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Vie que j'ai eu.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle mort qu'un Misérable pouvait avoir.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIV, Julia Holter - Marienbad



Elegantemente saiu do seu banho, onde se submergia em espuma colorida e sais aromáticos. Continuou em bicos de pé pela casa fora, deixando que a espuma lhe assentasse como uma vestido colorido, visível pela luz das velas, e aroma dos sais deixasse um rasto. Dirigiu-se para pátio em frente ao jardim. Da janela do seu quarto propagava-se a música que saía da sua grafonola, que despertou todos aqueles que já se deixando apagar pelo sono.
No interior da enorme casa, as janelas preenchiam-se de rostos indignados de gente que segurava candelabros  Ela dançava entregue à música que a ia envolvendo e todas as plantas do jardim a acompanhavam amparadas pela brisa nocturna. A indignação não durou muito, dando lugar ao deleite de contemplar tamanha beleza, que o luar sem hesitar cobria de brilho salientando os seus contornos. Dançou até que sol viesse para a cortejar mas, com a elegância que para ali se dirigiu, voltou aos seus aposentos, entregando-se a um amante, que certamente num sonho a aguardava.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.