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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




sábado, 15 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XVIII, Agnes Obel - Riverside


Naquela noite de finais de Primavera a débil criatura encontrou o seu derradeiro repouso nos espaços das pedras da calçada. A sua queda foi um evento de investiduras desconhecidas, cada vez mais longe do seu ninho caloroso e suave, rodeada por outras criaturas que, na procura de mais conforto, quem sabe, a terão lançado nessa queda rumo a um exterior marcado pela fatalidade de se ser frágil.
Não foram longos os momentos de sofrimento neste seu último repouso. Quando não conhecemos o "desconhecido", muitas vezes, é maior em nós o espanto, a curiosidade, a ingenuidade, do que propriamente o medo, a angústia ou a morte por antecipação e, assim, caiu a criatura contemplando o momento até embater sobre o granito frio. Nunca soubera o que era a dor e foi estranha a sensação da gradual perda dos sentidos até repousar a cabeça no pequeno aglomerado de musgo, deixando-se ali ficar.
Terão passados alguns meses, veio o abrasador calor do Verão, vieram as chuvas do Outono e resta apenas uma esqueleto encolhido, tão aconchegado no ponto onde quatro pedras se encontram, coberto com algumas penas e ainda lá está a almofada de musgo sob o seu crânio.
Sem intervenções alheias, a Natureza proporcionou a essa criatura um túmulo, criando uma obra de arte e, todos os dias, o sol continua a dar um pouco de calor ao que resta dessa criatura, talvez relembrando-a do calor do ninho de onde partiu precocemente.




sábado, 8 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XII, Agnes Obel - Louretta


Tanta gente passa nestas ruas e eu gostava de fotografá-las a todas. Fotografias colectivas e individuais, discretamente. Ler o rosto e a expressão das pessoas, dia após dia, numa tentativa de aprender algo mais com a humanidade.
Como são os tempos que correm? Que sentimentos encontraria nos inúmeros rostos que preencheriam totalmente as paredes de uma sala?
De um modo geral caminharia também entre elas para que alguém me fizesse mesmo, sem que eu me apercebesse, talvez em ruas de outra cidade. Se me fotografasse a mim mesmo nesse contexto seria uma fingidor, rodeado por tanta gente mas, ao mesmo tempo, sem trocar um palavra ou sorriso, fingindo um bem-estar para evitar questões e pensamentos, ou dissimulando mal-estar carrancudo, cortando qualquer tentativa de aproximação e afecto.
E, eis, que surge essa pessoa feliz, tentando contagiar com sorrisos e com uma tenuidade que eu próprio a confundiria com um anjo. Mas a expressão dessa pessoa muda quando confrontada com amorfia de rostos e sentimentos das pessoas que iam sendo fotografadas. E, ainda assim, essa foi a única pessoa capaz de sentir. Sentou-se nesse solitário banco de jardim, chorando horas a fio, discreta porque ninguém a queria ver ou não a compreenderia. E eu nada fiz a não ser registá-la para não me esquecer daquele momento porque, afinal, lembro-e de ter sido assim também.