Ver os meus sonhos de
infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o
pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as
estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque
me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas
que contava.
Over the hill, fingindo
ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o
limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo
tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não
conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!
Naquela noite de finais
de Primavera a débil criatura encontrou o seu derradeiro repouso nos
espaços das pedras da calçada. A sua queda foi um evento de
investiduras desconhecidas, cada vez mais longe do seu ninho caloroso
e suave, rodeada por outras criaturas que, na procura de mais
conforto, quem sabe, a terão lançado nessa queda rumo a um exterior
marcado pela fatalidade de se ser frágil.
Não foram longos os
momentos de sofrimento neste seu último repouso. Quando não
conhecemos o "desconhecido", muitas vezes, é maior em nós
o espanto, a curiosidade, a ingenuidade, do que propriamente o medo,
a angústia ou a morte por antecipação e, assim, caiu a criatura
contemplando o momento até embater sobre o granito frio. Nunca
soubera o que era a dor e foi estranha a sensação da gradual perda
dos sentidos até repousar a cabeça no pequeno aglomerado de musgo,
deixando-se ali ficar.
Terão passados alguns meses, veio o abrasador calor do Verão, vieram as chuvas do Outono e
resta apenas uma esqueleto encolhido, tão aconchegado no ponto onde
quatro pedras se encontram, coberto com algumas penas e ainda lá
está a almofada de musgo sob o seu crânio.
Sem intervenções
alheias, a Natureza proporcionou a essa criatura um túmulo, criando
uma obra de arte e, todos os dias, o sol continua a dar um pouco de
calor ao que resta dessa criatura, talvez relembrando-a do calor do
ninho de onde partiu precocemente.
Tanta gente passa nestas
ruas e eu gostava de fotografá-las a todas. Fotografias colectivas e
individuais, discretamente. Ler o rosto e a expressão das pessoas,
dia após dia, numa tentativa de aprender algo mais com a humanidade.
Como são os tempos que
correm? Que sentimentos encontraria nos inúmeros rostos que
preencheriam totalmente as paredes de uma sala?
De um modo geral
caminharia também entre elas para que alguém me fizesse mesmo, sem
que eu me apercebesse, talvez em ruas de outra cidade. Se me
fotografasse a mim mesmo nesse contexto seria uma fingidor, rodeado
por tanta gente mas, ao mesmo tempo, sem trocar um palavra ou
sorriso, fingindo um bem-estar para evitar questões e pensamentos,
ou dissimulando mal-estar carrancudo, cortando qualquer tentativa de aproximação
e afecto.
E, eis, que surge essa
pessoa feliz, tentando contagiar com sorrisos e com uma tenuidade que eu
próprio a confundiria com um anjo. Mas a expressão dessa pessoa muda
quando confrontada com amorfia de rostos e sentimentos das pessoas que iam sendo fotografadas. E, ainda assim, essa foi a única
pessoa capaz de sentir. Sentou-se nesse solitário banco de jardim,
chorando horas a fio, discreta porque ninguém a queria ver ou não a
compreenderia. E eu nada fiz a não ser registá-la para não me
esquecer daquele momento porque, afinal, lembro-e de ter sido assim
também.