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domingo, 2 de junho de 2013

Memórias de Café XV - O Nero

O meu avô António era caçador!
Pelo menos tinha sido mas a licença caducou. Um dia disse-lhe que gostava de ir à caça com ele, mas nessa altura a doença já o tinha tornado débil e nem tínhamos cão de caça. Ainda assim ele fez-me a vontade: renovou a sua licença e arranjou um coelheiro de caça, o Nero.
Não fomos muitas vezes à caça, naquele ano a doença já tinha tido alguns avanços. Ainda assim ele treinou o Nero e fomos caçar algumas vezes, mas nunca conseguimos nada. Hoje entendo que aquilo foi uma bondade para satisfazer uma vontade.
Entretanto, voltou para o hospital com o agravar da doença, mas  Nero continuava connosco. Era um cão de pequeno porte castanho claro, muito afável e companheiro.
Quando o meu avô teve uma recaída inesperada e teve que ser internado, não durou muitos dias para que o Nero arranja-se maneira de quebrar a sua corrente e fugir. Depois de algumas semanas o meu avô voltou para casa e ficou desgostoso quando soube da notícia. Todos os dias ia ao fundo do quintal e olhava com tristeza para a casota vazia. Mas não tardou mais de uma semana e um vizinho encontrou o Nero a vaguear a uns quilómetros de casa, na zona onde costumávamos caçar. Que alegria foi aquele reencontro.
No verão desse ano, o meu avô voltou a piorar, ao ponto de ser novamente internado já sem esperanças de voltar a casa e poucos dias antes da sua partida, o Nero voltou a arranjar maneira de escapar...desta vez para nunca mais voltar!
Tenho-me lembrado disso ultimamente, pois agora temos um cadelinha lá em casa, a Sura, que está sempre a farejar no meio dos arbustos à procura de alguma coisa. Tem bom faro!
Ias gostar muito de a conhecer!

Um abraço eterno e até já =)


domingo, 30 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXIII, Epigram - What's Mine Is Yours


Jazia sozinho no sofá, embrulhando-se numa manta colorida por remendos. Nem nas noites mais frias de Inverno dormia na sua cama. Ficava no sofá da pequena sala com uma porta para a rua e nunca trancava a porta, acreditando que alguém poderia querer entrar para lhe dar algum conforto. A televisão ligada toda a noite para ter algumas companhia e já lhe eram familiares as vozes mais comuns como a voz de alguém próximo que o saúda na abertura do primeiro jornal e lhe deseja boa noite depois das últimas notícias, já que mais ninguém o faz.
A sua amada morrera acamada e havia-se habituado a ocupar o sofá para não perturbar o sono da pessoa que havia amado ao longo de toda a sua vida. Ali ficava e quando, por algum motivo, despertava durante a noite, espreitava pela porta entreaberta do quarto mas rapidamente voltava para o sofá para adormecer e esquecer que sua amada já ali não jazia como ele. A cama que, para ele, não fazia sentido, pelo menos só para ele.
Todas as manhãs, quando acordava, voltava ao quarto para enfrentar a sua dor e ter a certeza da sua solidão, abria a janela e voltava a fazer a cama que ainda guardava duas marcas corporais no colchão.
Nesse noite, decidiu ficar no quarto. Estava cansado das mesmas vozes da televisão que, apesar de o saudarem ou dele se despedirem, apenas lhe traziam notícias de um mundo triste, talvez mais triste do que ele. Adormeceu, ao lado do espaço côncavo da sua amada, para não mais acordar.



sábado, 29 de dezembro de 2012

Músicas para Escrever XXXII, Mono - Halo (II)


NOITE DESAFORTUNADA: Bom dia, ESQUECIMENTO!

(Porque é que a luz do quarto tinha que estar programada para se acender quando toca o despertador? Má ideia para dias como este!)

Não é que, de facto, seja um bom dia, mas então, por que raio, é que digo bom dia ao ESQUECIMENTO e não me calo ou me viro para o outro lado e adormeço de novo e tento, assim, curar esta ressaca de sentimentos? Que mania de cumprimentar tudo e todos e, na maioria das vezes, fazer figura de idiota porque não se é correspondido, como aquele aceno que ninguém vê, ou as palavras que ninguém ouve. Que mania de se acreditar que todos reagirão do mesmo modo que se reage com eles. Tretas!, na maioria das vezes não é porque não vêem, mas sim porque ignoram! Quem é que nunca ignorou um aceno ou desviou o olhar para evitar alguém?

(Por que é que tinha que estar a chover hoje também?)

Espera, já me lembro do porquê de ter dito bom dia:
Quis fazer-me amigo do ESQUECIMENTO para que ele levasse tudo o que tenho no pensamento para bem longe e me fizesse esquecer a quem tinha entregue as minhas MEMÓRIAS. Ontem deitei-me e não consegui sonhar, pelo menos, com não aquilo que necessito e que me ajudaria a encontrar uma realidade que se vai esfumando sem deixar rasto entre as minhas MEMÓRIAS e as imagens desse sonho vão ficando, aos poucos, cada vez mais desfocadas. Mas até o ESQUECIMENTO se esqueceu de mim ou me ignora: acenei-lhe, ensonado, e não reagiu, disse-lhe bom dia, para me fazer ouvir e, nem aí, obtive algo recíproco.

(Será que vale a pena sair da cama hoje? Será?)

O conforto caloroso da cama nesta manhã fria e chuvosa faz com que este cenário se torne num dos melhores remédios para tão agressiva ressaca de sentimentos porque oferece várias hipóteses: hibernação social ou alheamentos através de sonhos, sem termos que ver quem ou aquilo que nos esquece, ou pior ainda, encontrar quem ou aquilo que nos vimos forçados a esquecer sem intervenção voluntária do ESQUECIMENTO.
Se ainda alguém me trouxesse um chá à cama era perfeito. No entanto, há algo que se assemelha a um medo quando penso na hipótese de atravessar a porta do quarto e involuntariamente ver alguém pela janela, ou que esse alguém me veja a mim através dela.  Mas terá que ser, vou à cozinha rapidamente e volto para me enfiar aqui, como um ninja.

A CAMPAINHA!? (Quase deixei cair a chávena do chá!)

Alguém me viu. Não, não! Não pode ter visto! 
Não estou em casa. Deixa-me ficar aqui quieto.

Não, vou lá espreitar em silêncio.

- Abre a porta, sei que estás aí!

Como é que...?

- Sei que estás aí. Dá para ver a tua sombra por baixo da porta?

Eu não disse que deveria temer as janelas? Não diretamente por elas, mas através da luz que entra por elas, acabei por ser visto. Que faço agora?
Deixa-me entrar!

- Bom dia! - (Disse isto outra vez, depois de ceder e abrir a porta.)
- Tens a certeza disso?
- Definitivamente, não!
- Anda cá!
- Não sei se será boa ideia...
- Acredita que é a melhor.
- E se partes de novo?
- Não parto! Anda cá!

Não dei mais passos, deixei-me cair na direção desse alguém que me descobriu e se me ofereceu delicadamente.
E foi assim que vim ter a este estado de quarentena, que eu próprio criei para me proteger!




terça-feira, 12 de julho de 2011

ArtLeak - Special Acoustic Show

(Em Ronfe, junto à Farmácia [N206])

Contamos contigo para um concerto diferente, num formato totalmente acústico!
Abraço e siga o Rock,

António Campos Soares

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Memórias de Café XIII - As pombas voaram

Tudo começou quando, eu tinha 9 anos e o meu avô foi buscar, ao pombal de um tio, um casal de "borrachinhos", o macho era totalmente preto e a fêmea castanha.
Uns meses depois, a fêmea morreu e o meu avô voltou ao meu tio e trouxe outra fêmea, cor de mel.
Nasceu um borrachinho e a fêmea fugiu, no entanto, o macho conseguiu vingar o filho.
Continuamos a arranjar mais pombas, uma dadas, outras iam nascendo, outras iam aparecendo. Sempre quis ter uma pomba branca e castanha e um dia apareceu uma que por ali ficou.
Havia pombas brancas de leque, cinzentas, castanhas, pretas, pombos correio...Eu estava orgulhoso de todos aqueles animais e todos os dias ia ao pombal ver se havia algum casal novo com ovos ou se havia nascido mais algum.
Passava o tempo livre a juntar caruma para levar para lá e a fazer casulos para que as pombas pudessem fazer ninhos.
Depois do meu avô falecer, o resto da passarada foi desaparecendo...mas as pombas ficaram por ali!
Havia dobrado os cuidados com os bichinhos.
Fiquei orgulhoso no dia em que consegui que associassem o assobio à comida!
Entretanto, quando entrei para o seminário, passei a vir a casa somente uma vez a cada duas semanas.
As pombas foram parando de se reproduzir, outras foram desertando, as que ficaram passavam a dormir no telhado...
No espaço de um ano desapareceram todas...fiquei apenas com as fotos e com os bons momentos que passei! Eis a efemeridade das coisas, não das memórias...
Avô, as pombas voaram, quiseram partir, mas triste é quando as circunstâncias não nos deixam restar e somos obrigados a partir...


António Campos Soares

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Memórias de Café XII - Pesca e artimanhas

Era a festa do décimo aniversário de uma prima, em Outubro de 1998. Estavámos em casa dela, estava quase toda a minha turma do 5º ano. Teríamos todos as mesma idade.
A festa estava ser divertida, mas eu sabia que ali perto havia um ribeiro, onde costumava pescar com o meu avô e lembrei-me de sugerir:
- Vamos à pesca?
- P'ra onde?
- Há um ribeiro naquele campo de milho e não precisamos de canas - disse eu triunfante por captar a atenção de toda a gente.
Enumerei uma lista de objectos a reunir e lá fomos a cochichar pelo caminho, receosos e desconfiados, pois, eu tinha dito, como sempre me dizia o meu avô, que era proibido pescar ali, por causa da venatória.
Ao chegar ao ribeiro, escolhi o melhor sítio, onde se conseguia ver os peixes.
Pedi para me darem um frasco de vidro e o cordel, que eu atei, com um laço, à volta da boca do frasco. Coloquei um bocado de miolo de broa lá dentro e lancei o frasco ao ribeiro, que não devia ter mais de 30cm de profundidade.
Todos me rodeavam e tentavam ver o que passava. Ninguém falava, pois, alguém soltaria um "shhhiu" sibilante. Ninguém queria espantar os peixes.
Foi então que uma "panxorca" entrou no frasco, esperei que chegasse ao pão, que estava bem no fundo e, então, astutamente, puxei o cordel e, para espanto de todos, vinha um peixe lá dentro.
Todos quiseram ver o peixe!
Fomos para casa da minha prima. Pelo caminho, espreitávamos o peixe para ver se estava bem e, sempre que passava um carro, escondíamos o frasco, com receio.
Chegados a casa dela, pusemos o peixe num aquário que ela tinha e a festa continuou, com os parabéns e muito bolo.
Quem não gostou muito da brincadeira foi o meu avô que, uns dias mais tarde, em conversa com os pais da minha prima, veio a saber da façanha, no entanto, não disse nada aos meus pais, que ainda hoje acho que não o sabem, e, apesar do raspanete, sei que ele achou piada à artimanha.
Uns meses depois, a minha prima deu-me o peixinho e ainda durou uns longos anos no meu aquário, aquele que hoje já não existe...
Alguém dos presentes nesse dia ainda se lembra deste episódio?
Bons tempos!

domingo, 21 de novembro de 2010

Memórias de Café XI - O lado afortunado da vida é ter a amizade como bonança...

O lado afortunado da vida é ter amizade como bonança...



Instituto Missionário Coração, Coimbra, 2004

Estava eu no 11º ano, no seminário. As minhas dúvidas vocacionais arrastavam-se já há dois anos, mas sentia-me bem ali. A minha fé estava cada vez mais abalada, mas estava bem ali. Sentia-me bem em família. Sentia-me acolhido.

Apesar de todas as dúvidas que me tiravam o sono, eu tinha uma certeza: naquele ano eu iria formar uma banda a sério:

“P’rós lados da música esta merda está a correr muito bem...e já tenho um início de uma banda. Eu e o Nemo somos os leaders.


Constituições: voz: Pedro


Guitarra solo: António Soares


Guitarra Ritmo: Antonino


Baixo: Xavier???


Bateria: João Pedro???


Os primeiros concerto serão capazes apenas de ser acústicos. Tipo, duas guitarras acústicas e voz. Começamos pelos bares. Penso que o primeiro dos melhores concertos vai ser na escola da minha mãe porque vai ter todos os instrumentos essenciais para o rock. Vai ser espectacular. É só preciso dedicação....o melhor do rock vai explodir.” (03-10-2004)

Foi aqui que tudo começou. Éramos os Lost Soul, o Xavier e o João Pedro tinham alinhado. Quatro putos inocentes em busca do estrelato, num sonho infinito, dentro das quatro paredes do Basófias que, por sua vez, estava dentro das quatro paredes do seminário. No entanto, o nosso sonho foi mais longe. Apesar da troça dos colegas que nunca acreditaram em nós, apesar das “bocas” dos formadores, não desistimos. Alguns, mais influenciáveis às vezes tremiam mas, sempre que foi preciso, puxámos uns pelos outros.

Comecei a vestir preto, a deixar crescer a pêra, a javardar, a minha mente foi-se abrindo...olhei para tudo de outra maneira, foi aí que também comecei a adorar o que escrevia, tanto a nível de poemas, como músicas que ia compondo, foi aí que começamos, eu e o João Pedro, a seguir o culto da cerveja.

Os nossos Domingos eram marcados pela passagem no Cartola para encanar “dieseis” e cerveja à socapa. Tinha que ser assim, pois, no seminário também havia gente execrável, capaz de tudo para cair nas boas graças do Sr. Padre.

O Nando juntou-se à banda como percussionista...o destino vai juntando todas as peças!

A nossa primeira actuação caseira foi lá no seminário, no festival Capa Negra. Tocámos a nossa rockalhada com letras espirituais. Não me soube a nada e pelos visto, o que todos queria era um pouco de manteiga para barrar o pão. Também outra coisa não se podia esperar.

O ambiente começou a piorar depois das férias da páscoa de 2005...

Se o lado afortunado da vida é ter amizade como bonança, então, é essencial saber qual a medida ideal da bonança. Interpretem como quiserem, mais não digo, não vale a pena desenterrar venenos de há tanto...

O Pedro foi expulso da banda, pois, uma banda não anda para a frente com gente que só está lá para o estilo, para ter miúdas e beber umas copadas!

“Quanto à banda, nós queremos mandar o Pedro embora porque não tem os requisitos que nós queremos e porque não sabe nada de música, não escreve uma letra, não compõe uma música, não canta uma múscia em condições, não toca nenhum instrumento.” (09-05-2005) 

O Nando substituiu o Pedro na voz, passámos a ser os Lightning Shadows. Aí sim, começou o que viria a ser uma espectáculo pelos três anos seguintes: amizades fortes, bons concertos, grandes momentos, borracheiras de caixão à cova, miúdas “tolas” pelo "man" da guitarra, da bateria, do baixo ou da voz...desde que fosse músico, era capaz de seduzir qualquer miúda. O quanto me ri às custas disso...

Demos o nosso primeiro concerto em 2005, na escola onde acutalmente lecciono espanhol e onde voltei a tocar no presente ano, mas isso é outra conversa!

No dia em que íamos dar o concerto estávamos a passear pela escola e gravar um vídeo de recordação, até que ouvimos alguém “Olha, queres ver? Vinde cá que ides levar duas chapadas cada um...”. Era uma funcionária da escolha que vinha atrás de nós pensando que a estávamos a filmar a ela. O Xavier fechou a câmara e demos de frosques às gargalhadas.

Didáxis, Vale São Cosme, 08-07-2005

“Finalmente (...) à tarde voltámos à escola mas, nesse dia, íamos ter o último ensaio e finalmente o concerto. (...) O concerto foi curto mas correu pelo melhor. Repertório:

American Idiot, Green Day

Dunas, GNR

Lost Soul, Lightning Shadows

Knockin’On’Heaven’s Door, Bob Dylan

Apresentação da banda com a Last Resort

When I come around, Green Day

Terrible Silence, Lightning Shadows

Queda do Império, Vitorino”


Obviamente que, naquela altura, todos excitados, não vimos nada de mal no concerto, tudo tinha sido perfeito, mas agora, ainda nos rimos muito com os nossos pregos. Lembro-me perfeitamente do João Pedro a resmungar com a bateria por esta estar a deslizar “Oh filha da p***...”Ouvi-o melhor a ele do que à minha guitarra!

No dia seguinte acordámos de manhã, no sótão de minha casa, com o João Pedro agarrado aos tomates, à janela, enquanto simulava disparos sempre que via um pássaro a passar! WTF!!!???

Nesse verão voltámos a tocar, mas em Carvalhosa. Deixámo-nos pagar o sistema de som. No entanto, tudo o que queríamos era tocar e encantar. E quem nos safou sempre foi o padre Humberto, que eu considero como um grande amigo e mentor. Não será demasiado dizer que se não fosse ele, nenhum destes cinco putos seria o que é hoje!
Carvalhosa, 27-08-2005


“...No dia 25 e 26, foram ensaios p’ro concerto de Carvalhosa. Finalmente, no dia 27, foi o grande concerto dos Lightning Shadows. Eu estava excitado com tudo. Eram duas da manhã e já o público ‘tava freneticamente à nossa espera e foi então que, com uma distorção vinda do meu amplificador, soaram os primeiros acordes da música When I Come Around dos green Day. O público foi ao rubro. Tocámos doze músicas:


When I Come Around, Green Day

Lost Soul, Lightning Shadows

The Reason, Hoobastank

Terrible Silence, Lightning Shadows

Dunas, GNR

Why, Lightning Shadows

Like a Puppet in Your Hands, Lightning Shadows

Last Kiss, Pearl Jam

Nothing Man, Lightning Shadows

Maria Albertina, António Variações"

Foi fantástico ver o mosh e ver o pessoal a saltar. A melhor sensação foi quando eu ouvi o público a tentar cantar os refrões das nossas músicas. Senti mãos a serem passadas nas minhas All Star pretas quando me cheguei mesmo à frente do palco. (...) Foi nesse concerto que eu senti mesmo o que tinha uma banda e que aquilo se tinha tornado para mim um objectivo. Somos como irmãos!”

O lado afortunado da vida é ter a amizade como bonança...Bem o dizes, João Pedro!

Tinha sido, na verdade, um grande concerto, mas não o melhor da carreira dos Lighnting Shadows.

As férias do Verão de 2005 tinham acabado, eu tinha saído do semiário, mas eles voltaram para lá, eu fui para o liceu de Joane.

Nesses meses que iriam até ao Verão de 2006 fomos ensaiando na Fábrica de Som, no Porto e íamos sonhando, divangando, compondo, vivendo e javardando, sem nunca deixar de ser bons rapazes, ou não!

Falando de bons rapazes, na verdade, éramos e continuamos a ser, no presente, apesar de a banda ater cabado, bons rapazes. Orgulho-me de dizer que nunca consumimos qualquer tipo de droga enquanto banda, quanto ao resto, já não é da minha conta, no entanto, enquanto banda, eu certificava que o consumo desse tipo subtâncias não ocorria.

O auge dos Lightning Shadows ocorreu entre Setembro e Novembro de 2006.

O Verão de 2006 parecia um deserto, nada de concertos, poucos ensaios, o Antonino, por motivos pessoais decide abandonar a banda, estávamos a desaniamar...mas, mais uma vezes, fomos convidados para tocar nas festas da terrinha, por 200€. Naquela altura, aquilo pareceu-nos algo que nos poria ao nível de estrelas rock.

Foi nas festas em honra de São Bento, em Joane, num palco montado em cima de uma campo de couves, pois é! Na verdade, tínhamos um óptimo som e correu tudo pelo melhor. Tínhamos acrescentado a All The Small Things (Blink 182) e o Vira-Vira (Momonas Assassinas) ao repertório. O Vira-Vira passou a ser um dos nossos melhores covers e o público ria-se sempre quando eu fazia a parte do Herman. Imagine-se lá o esforço que eu não fazia para estar sério!

Foi fantástica a sensação de fazer 18 anos em cima de um palco...

No entanto, o verdadeiro momento da noite não foi esse. Umas duas semanas atrás quase fomos expulsos de Carvalhos, onde nos tinham prometido uma nova actuação, mas festeiros na vinhaça é o que dá.

Os nossos amigos de lá ficaram desanimados por não haver concerto, no entanto, mal confirmámos em Joane, avisei-os. Não tive uma única resposta.

“Cagaram p’ra nós, de certeza...”

Querem saber o que aconteceu? Caiu-me tudo...

Engoli estas palavras quando estava a tocar a Terrible Silence, em Joane, olho para o público e, afinal, eles apareceram, estavam lá com a mesma energia do ano anterior. Foi das melhores coisas que senti desde que ando pelas ruas da música.

No fim desse concerto, um sujeito vem ter comigo e diz-me “o que vos falta é gajas, gajas jeitosas a mostrar as pernas p’ra chamar povo”...Enchi-me de ascos, nojo, pejo, vontade de partir a cara àquele sujeito. Não desci de nível.

Um mês depois abrimos o concerto para a banda dele...O quanto eu me ri à pala deles. Nesse concerto, em São Martinho do Vale, fizemos um video da Nothing Man. Sim, esse video onde as miúdas berram por mim. Adoro quando o pessoal se junta e nos rimos de tudo o que passámos...


Mas antes disso, fomos convidados por uma lista do Liceu de Joane para tocar no Contempl’arte, no dia 31 de Outubro de 2006. Sabem que mais?

Este foi o nosso melhor concerto! Partimos tudo! Duzentas e tal pessoas para nos ver. Mal nos podíamos mexer. O público invade o balcão, sobe para as mesas, a casa é completamente nossa! Acabei a noite completamente bêbado com o João Pedro, ambos a javardar e a chatear o Picasso, dono do Contempl’arte!

No dia 15 de Junho actuámos no Liceu de Joane, nada de especial!

No ínicio do Verão de 2007, participámos num Tributo a Nirvana, realizado no mesmo bar com os Cratera e com os Ketamina. Outro concerto para arrasar, mas pela primeira vez na vida, tocámos todos bêbados, excepto o Xavier. O Nando já não atinava com as letras “lalalalala”, eu fiz o solo da Smells Like Teen Spirit com um garrafa de cerveja que tinha acabado de beber e o João Pedro, no fim, aterra atrás da bateria.
Esse foi o nosso último concerto! No entanto, a banda só se viria a espartilhar no final do verão de 2007, por motivos pessoais de cada membro!

Contávamos com 5 originais:

Nothing Man (letra e música por António Soares)

Lost Soul (letra e música por António Soares)

Why (letra e música por António Soares)

Terrible Silence (letra por António Soares e música por Antonino Sousa e António Soares)

Puppet in Your Hands (letra por Nando e música por Antonino)



Mais do que uma mera banda, fomos e somos ainda um grupo de amigos!



O Pedro, dizem que saiu do seminário no fim do 12º ano e foi para a universidade, a partir daí, desapareceu do mapa.

O Antonino, continua na vida religiosa, está actualmente no segundo de teologia na Universidade Católica, em Lisboa.

O João Pedro, no Verão desse ano, envereda no exército. Actualmente frequenta a licenciatura de Ciências da Educação.

O Xavier lincenciou-se em Ciências da Educação. Neste momento está em mestrado.
Para não fugir à regra, o Nando, ingressa também em Ciências da Educação, na Universidade do Minho, no entanto, ainda participou em alguns projectos comigo. Actualmente, já licenciado, está no mestrado em Recursos Humanos.

Quanto a mim, em Setembro de 2007, fui fazer Erasmus para Granada. Actualmente, formado em Línguas Aplicadas, sou professor de espanhol e alunos da Licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias. Sou também docente de EMRC.

Eu e o Nando temos um projecto em comum, os ArtLeak!

Coma alcoólico…

O lado afortunado da vida é ter a amizade como bonança...
Fecho os olhos, em coma, vendo como a minha insanidade avança…
Tornando-se escuridão que encobre a luz d’uma vela acesa.
Luz da felicidade, que nunca irei alcançar …por fraqueza!

Sou espantalho animado por realidades inteligíveis…
Acordo ressacado deste pesadelo chamado Vida, asfixiado por sonhos inatingíveis…
Vivo num mundo de quimeras onde esqueço que sou um odiável comodista,
Sou um monstro… uma espécie de anjo “psicomasoquista”.


Se deus existe… que arda comigo no inferno!
Somos fruto da Primavera apodrecidos por este obscuro Inverno…
Procurando o antídoto para a minha inata crueldade…
Apenas engulo lágrimas provocadas pela injusta e confusa realidade…

Onde danço, paralisado, melodias de um distante e inocente passado.
O álcool é um machado, e eu que era o carrasco, estou agora decapitado.
Nesta psicológica guerra onde sou o único soldado,
Resta-me aguardar calmamente o momento de ser sepultado…

Dedicado ao melhor amigo do mundo…






(poema por João Pedro)







Biografia por António Campos Soares

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Memórias de Café X - Conversas que já lá vão

Hoje, quando tomava o meu café-da-manhã na varanda da sala de professores e observava os alunos no recreio, apercebi-me que não tinha memórias das minhas conversas de amigos nos tempos de recreio da escola primária. Já lá vão uns bons anos, bem sei…
Lembro-me de jogar às escondidas, de fazer corridas, de preparar o recreio para jogar à carica, de coleccionar as caricas mais espectaculares para competir com os meus amigos, mas não me lembro das conversas.
As crianças estavam sentadas na beira de um muro, conversavam, riam-se, faziam caretas…mas de que falariam? Senti-me curioso!
Tentei, em vão, ir ao mais recôndito cantinho da minha memória buscar algo…
Depois, olhei mais abaixo, lá estavam os alunos mais velhos. Aí sim, lembrei-me das conversas em que se partilhavam experiências, namoriscos, aventuras das férias, miúdas que conhecia, coisas que fazia à socapa, dos meus amigos que, ainda que nos vejamos poucas vezes, rimos até chorar das peripécias de outros tempos….Arriscaria a afirmar que quase as eternizámos já de tantas vezes que as contámos!
Voltei a olhar para as crianças que ainda conversaram e sorriam e, apesar de me continuarem a falhar as memórias daqueles tempos pueris, senti-me capaz de depositar o futuro do mundo naquela felicidade que, espero eu, o tempo não apague…
Soou a campainha, o recreio foi ficando vazio, era hora de ir dar aula….

 
António Campos Soares

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Memórias de Café IX - Caixa de Recordações

Lembro-me dos jantares de despedida e de me terem oferecido uma t-shirt dizendo “Gibreirinho On Tour – Granada 2008”…


Lembro-me de preparar todas as malas, com tudo o que pudesses levar…

Lembro-me do friozinho no estômago, não de arrependimento, mas de ansiedade e expectativa…

Lembro-me de me despedir de pessoas e de as ver chorar…

Lembro-me do carro cheio, com todas as minhas tralhas, de me despedir da minha avó que tentava não chorar e de olhar para casa como um “adeus!”

Mas ainda faltava algo que não podia ficar para trás todos aqueles meses e voltei para a minha saleta, onde estão todas as minhas pequenas coisas, memórias, livros, objectos pessoais, para pegar na caixa de recordações: papéis com anotações do meu avô, fotografias de todos os tempos, bilhetes dos concertos que assisti no Contempl’arte e recordações e pessoas a eles associados, cartas, montes de cartas com fotografias de paixões dos tempos de seminário ou amores de Verão, coisas da minha adolescência…Faltavam cinco minutos para partir!

Ao chegar ao carro, com caixa das recordações na mão, parei, encolhi os ombros e voltei para trás, acomodei a caixa onde ela costumava estar e regressei a correr para o carro….Sozinho!

Todos os momentos que passei em Granada, até os mais solitários, nunca senti saudades, não havia nada para abrir de onde saltassem frenéticos momentos de nostalgia que corroessem, não foi egoísmo, mas sim uma protecção. Todos esses momentos tinham ficado em Joane, no seu cantinho, a minha família estava bem, tranquila, quase aumentada pela pequena Ana que mostrava energia já dentro do ventre, os meus amigos seguiam a sua vida e eu vivia totalmente entregue aos encantos de Granada!

Joane continuava cá com tudo o que lhe pertence, a 1200km de distância, que nem nos sonhos percorria e eu recolhia memórias, milhares de memórias de Granada, dos pessoas, dos bares, das ruas, do Albaicin e apenas libertei lágrimas quando tive que regressar, para junto da caixa das recordações, agora, mais completa do que nunca.

António Campos Soares

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Memórias de Café VIII - Despertar violento

07.08.1999

Havia sido mais tarde daquele Verão passada no IPO do Porto. Como nos últimos meses daquele ano era habitual, apanhava o expresso, junto ao Café Central, com a minha avó e lá íamos passara o dia ou a tarde com o meu avô. Ao final da tarde ou à noite, ia-nos buscar o meu pai e a minha mãe.
Naquele dia, o meu avô estava apagado, não falava muito, estava amarelo e com um rosto que imanava tristeza. Todos aqueles tubos afluíam para ele. Eu estava de joelhos ao lado da cama, acariciando-lhe a mão, esperando algumas palavras ou uma história, mas não vinha nada da boca dele. Apenas um olhar perdido e sem brilho que vagueava pela enfermaria.
Era um sábado e jogava o F.C.P. contra o Beira Mar.
Partimos e o meu avô tinha ficado a ver o seu clube jogar, como sempre tinha gostado.
Em casa, depois do jantar, o telefone tocou, parámos todos, imaginámos o pior, mas era ele, pedindo desculpa por não ter falado, disse que nos amava e depois a enfermeira disse também que ele tinha ficado contente por ter visto o seu clube vencer.
Todos se deitaram mais aliviados.

08.08.1999

Às sete da manhã o telefone tocou.
Não me lembro quem atendeu e houve gritos e choro.
Com dez anos e embrulhado em lençóis de sonhos e pueris ilusões, virei-me para o outro lado da cama, fechei os lhos com força e tentei voltar a adormecer a todo o custo. Quis acreditar piamente que era tudo fruto de um pesadelo, como ocorria habitualmente, mas a minha avó irrompeu pelo quarto a chorar, abraçando-me e ouço o meu pai de cabeça baixa, junto à porta “Filho, o teu avô faleceu”. Dissipou-se, então, bruscamente, qualquer réstia de esperança que estivesse ainda adormecida em algum cantinho da cama e chorei, ainda choro...

Ainda hoje continuo, em muitos dos meus momentos de divagação e sonhos despertos, perdido no tempo, entre o século XX e o século XXI, à espera que alguém me acorde de maneira natural de volta para os meus dez anos, no verão de 1999. Até já, avô…

António Campos Soares

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Memórias de Café VII - Há uma necessidade...

Há uma necessidade tremenda de ficar acordado, e marcar os segundos com palavras, as horas com poemas, a noite com criações.

Há uma necessidade enorme de não adormecer, por haver mais um verso para escrever, mais um pensamento para libertar.

Há uma necessidade inquestionável de sentir o frio da noite a entranhar-se corpo adentro, enquanto vagueio, relembrando façanhas de outros tempos, ditando divagações que me mantêm acordado.

Há uma necessidade desmedida de encarar a noite com livros intemporais, em diálogos imaginários com Eça, Camilo, Quental ou mesmo Poe.

Há uma necessidade inviolável de partir, sem destino, sem saber onde verei o amanhecer.

Há uma necessidade calada de dormir, há tanto para fazer, tanto para descobrir e partilhar.

Há uma necessidade extrema de ficar aqui….e escrever até sucumbir à fragilidade humana de cair nos braços de Morfeu.


António Campos Soares

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Memórias de Café VI - Coca-Cola com 7UP


Há pequenas coisas (à partida insignificantes) que nos ficarão para sempre na lembrança. Refiro-me, neste caso, a misturar Coca-Cola com 7Up.
Todos os dias, no final do jantar, saímos. Rua abaixo até ao Café Central.
Perguntava-me se já tinha feito os deveres, principalmente os de matemática e, não raras vezes, perguntava-me a tabuada. Outras vezes perguntava-me as dinastias ou os rios.
Entretanto, chegávamos ao café, cumprimentava as mesmas pessoas que ele, que sempre diziam que eu já estava um homenzinho e perguntavam se já tinha “moça”. Eu teria os meus sete ou oito anitos.
Ficávamos ao balcão. Eu pedia uma Coca-Cola e ele uma 7Up. Mal as bebidas eram postam no balcão, ele fazia questão de misturá-las para que a Coca-Cola não me tirasse o sono e fazia questão de que eu prometesse que não diria ao meu pai o que tínhamos bebido, que deveria dizer, caso o meu pai me perguntasse, que tomei um carioca de limão.
Enquanto eu saboreava a bebida fresca, ele via as chaves do totobola e do totoloto, via-as com os amigos, jogavam em sociedade. Também falavam da passarada e dos cães de caça.
Ao ser nove e meia, pagava e vínhamos nós, rua acima, até casa, numa tentativa de chegarmos antes do meu pai, para que, quando ele chegasse, me visse de pijama vestido, pronto para ir para cama.
Ia para o meu quarto mas acabava por me escapar para dormir com ele. Eu falava muito, aliás, ainda falo e, então, ele dizia-me que o primeiro a adormecer, no dia a seguinte, teria uma Coca-Cola ou uma 7Up. E adormecíamos…
E, assim foi, até ao dia em que lhe foi diagnosticado um cancro que o levou, em cerca de um ano, há cerca de uma década…
Não é que, hoje em dia, goste muito de Coca-Cola com 7Up, mas, de vez em quando, arrisco-me a tragar esse sabor, na ilusão de, quem sabe, abrir os olhos e estar ao balcão do Café Central ao lado do meu avô António.


António Campos Soares

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Memórias de Café V - Relembrar Granada I



Son las cinco de la mañana y en pocas horas entraré en una aula de la facultad para hacer el examen de relaciones internacionales. Estoy estudiando desde que terminé la cena y ahora decidí parar un poco.
Hice café (nada semejante al café portugués) y decidí sentarme a la ventana que está vuelta para una de las calles con más movimiento de Granada, la Calle Pontezuelas. Es una calle que no es muy ancha, flanqueada por todo tipo de tiendas, mí facultad se queda en el otro extremo da la calle.
Me gusta la ciudad, esta mágica ciudad que es tan tranquila pero que nunca se duerme. Siempre se suele escuchar los coches de la Calle Recogidas o de Gran Vía Colón. Siempre hay grupos de personas que pasan en la calle y me saludan, preguntado me si quiero bajar para ir de copas con ellos. Les contesto “Gracias, pero en cinco horas tengo mi último examen”. “¡Qué pena, tío!”, me dicen y siguen hacía alguno bar donde invitan a la vez. He pasado una gran parte de mí tiempo conociendo a personas, haciendo amigos, bebiendo con gente que no conocía, con personas que nunca más las vería, con personas que todavía hablo y las invito a que vengan a mi casa a cenaa o beber unas copas de vino de Oporto o Super Bock…
En pocos días me voy a Portugal definitivamente. No sentí dolor cuando vine, sin embargo la siento cuando pienso en la partida. Hago promesas de volver pronto y nunca digo a nadie “Adiós”, sino “Hasta pronto” o “Hasta luego” y sonrío.
La taza de café está vacía, voy a volver a concentrarme en apuntes que alguien me los prestó para que estudiara para aprobar a la signatura.
Belén, está durmiendo, pues, mañana trabaja, Agnés también estuvo estudiando un poco conmigo pero fue acostarse hace casi dos horas, está cansada con todas las fiestas de despedida y partirá una semana antes que yo parta también y Fray, el perrito, si no está aquí brincando, está durmiendo también…

Três anos depois, relembro tudo como se ainda hoje estivesse naquela janela, ou a tomar aquele café deslavado, mas ainda não voltei lá, continuo a fechar os olhos quando caminho à noite e imagino-me a percorrer a Calle Pontezuelas, enquanto volto para casa…mas estou em dívida, ainda não cumpri o “hasta pronto”, nem o “hasta ahora”…até quando?

(Tres años después, me acuerdo de todo como si todovía estuviera en aquella ventana, o bebiendo café con poco gusto, pero aún no volví allá, sigo cerrando los ojos cuando camino por la noche y me imagino andando en la Calle Pontezuelas, mientras vuelvo a mi casa...pero tengo una deuda, todavía no cumpli el "hasta pronto" ni tanpoco el "hasta ahora"...¿hasta cuándo?

António Campos Soares

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Memórias de café III - Chegada do Outono

Bom dia!
Mais um dia em que não saí de t-shirt de casa, pela manhã, como fiz nos últimos meses… Os dias ameaçam pintar-se com um ligeiro toque de melancolia, que acabará por se alastrar e cobrir toda uma tela.
O céu, com um tom cinza faz com as pessoas andem mais apressadas, mais fugidias, mais frias, mais sós…Encolhem-se, tentado passar nos mais estreitos espaços entre a multidão, muitas vezes chocando com gente conhecida, não esboçando um único sorriso, ou um “Bom dia!”
Peço um leite com chocolate quente e uma tosta, não é muito habitual tomar o pequeno-almoço fora, mas hoje apeteceu-me.
O café está cheio de gente que tenta despertar com o auxílio de um café, a esplanada está montada, mas ninguém opta por ficar por lá. A empregada traz-me o que pedi e eu agradeço, creio que não me ouviu, ou ignorou para não perder o seu tempo, o que não julgo.
Coloco o copo de leite entre as mãos para as aquecer, sinto-as frias, como nos dias de Inverno em que a sala de ensaios se torna numa arca frigorífica e não sinto os dedos macerados, arrastando-se nas cordas do baixo.
Estou sentado numa mesa junto à vitrina, gosto de ver quem passa. Muitas caras conhecidas às quais aceno alegremente, muitas das vezes em vão. De olhos cravados no chão, nem vêem, ou então fingem não ver (provavelmente para não tirarem as mãos dos bolsos para um aceno de retribuição) e eu faço figura de parvo para quem me vê constantemente levantar a mão e ser ignorado. Que me importa?
Nada sabem de mim…Não sabem que reparo quando olham para o telemóvel para não terem que enfrentar alguém, ou quando acendem mais um cigarro porque não sabem o que dizer enquanto estão à conversa e eu continuo a ser o parvo de olhos colados na vitrina!
Finalmente alguém me vê, acena, sorri e volta para trás para entrar no café onde estou. Cumprimenta-me e eu convido a que se sente.
Já não era o único a estar sozinho a uma mesa, tendo como companhia os meus monólogos, as meus pensamentos e observações, ou conversas paralelas que me vão captando a atenção e me fazem reflectir…àsvezes boas, outras vezes origem de dor!
“Dois cafés, por favor!”, pedi…
Falámos, rimos, partilhámos, relembrámos…doeram-me as bochechas de tanto rir!
Ainda que cinza o dia ganhou um tom mais quente, descobri a receita para atrasar o toque amargo da melancolia dos primeiros dias de Outono!


António Campos Soares

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memórias de café II...

Há um cigarro a consumir-se, libertando um rasto de fumo, numa dança vertical…observo-o até que se dissipe e volto a olhar para o cinzeiro onde ele está pousado. O cinzeiro tem poucas beatas, o dia está ainda a começar ao som da máquina de café que trabalha ao ritmo fulminante.
Entram e saem muitas pessoas, pessoas diferentes, pessoas carentes, pessoas decentes, pessoas indecentes…Todo o tipo de gente que me agrada, que adoro, que ignoro, que desgosto e que odeio. Não pedi nada ainda e observo-os sem qualquer pudor. Apetece-me ver as pessoas, apetece-me ver o que fazem e como o fazem.
A maioria bebe café, tomam-no sem trocar um único olhar com alguém. Entram de olhos no chão, sentam-se ao balcão, pedem com os olhos postos no jornal, pagam de olhos postos na mão cheia de trocos e voltam a sair de olhos no chão.
Alguns levam o seu tempo olhando a vitrina dos bolos, escolhendo o que querem para o seu pequeno-almoço. Irrita-me ouvir a palavra “adoçante” acompanhada de o nome de algum bolo. É daquelas coisas que me dá vontade de chegar perto da pessoa e perguntar “Mas porquê?”, enquanto a abano. Sinto, ainda, que prefiro voltar para o meu lugar antes de ouvir a resposta.
O cigarro continua a queimar, a cinza não caiu ainda no cinzeiro e faz uma ligeira curva, volto a centrar-me naquela dança vertical. A dona do cigarro continua de olhos postos no jornal, lê a secção dos classificados, que buscará? Emprego? Casa? Acompanhante?
Eu não busco nada, não sei o que buscar. Talvez um pouco de alento, inspiração, motivação? O inconformismo aumenta e dor também. É inevitável, o inconformista não se doer pelos outros, por mais distantes que sejam.
Aumentam ao volume da televisão, paira a palavra crise pelo ar e olho em volta: ao balcão, alguém está a beber um bagaço de uma só vez e contorce o rosto, junto à máquina de tabaco um jovem bastante gordo trinca, com máximo prazer, uma bola de Berlim, enquanto a mãe lhe diz para ter cuidado para não deixar cair creme na camisola nova. Ninguém liga, ou então já se acostumaram ao tema, que não passa de uma comichão chata (como a típica comichão dos homens que é tão lixada quando aparece, mas totalmente esquecida quando desaparece) que aparece e desaparece, fazendo com que seja possível criar todas as possíveis artimanhas para viver na corda bamba, para construir na falésia que ameaça desmoronar-se.
Pedi um café, está quente!
Na mesa ao meu lado, sentou-se um grupo, não muito mais novos do que eu. Estariam a chegar de uma noitada. Por onde terão andado? Que arrependimentos, ou não, trarão de uma noite levada ao limite? Lembro-me dos meus amigos, cada um correndo o seu caminho, ou procurando um caminho para seguir, antes que não haja pernas para andar. Passo a mão no sítio onde me apareceram os primeiros cabelos brancos e suspiro, cansado…
Não deito açúcar, é amargo como gosto, o seu sabor natural! Está quase no fim, o cigarro, como um CD, nas suas últimas faixas, por vezes, as mais calmas…
Entrou um arrumador de carros, não vem comer nem tomar nada, vem cravar a quem deixa o maço em cima da mesa e dirige-se à rapariga que lia os classificados. Ela dá-lhe um cigarro e acaba por pegar no seu, que estava quase morto. Senti-me angustiado, aquela dança tinha acabado por ali. Tudo se tinha consumido e o mais angustiante é que o fim havia sido forçado, em duas longas passas, havia sido apressado e, para colmatar, esmagado, contra o fundo do cinzeiro.
O despertar é duro, até onde estará o meu tempo consumido…até onde? Até onde…


António Campos Soares

terça-feira, 31 de março de 2009

Memórias de Café I - Promessas de amor eterno, leva-as o tempo...

Acordei bem cedo, um olho mais aberto que o outro, vi a janela entreaberta…Mexi os pés, estou vivo! Fiz a minha rotina habitual e fui para Braga!
Como habitualmente faço, fui tomar café…perdi-me nos meus pensamentos…
Promessas? Que promessas poderei eu fazer ao longo de toda a vida? Que estranho quebra-cabeças me envolveu.
Fazer promessas de amor eterno, que crueldade! Crueldade, pois, toma-nos o momento presente. Ficava a pensar em tudo o que teria que fazer para que uma eternidade fosse edificada e não entrasse em decadência. Senti-me angustiado. Tudo pode mudar de um dia para o outro: impérios levam séculos a atingir o seu auge, mas rápido caem, uma árvore leva décadas a crescer mas rápido é abatida.
Decidi então nunca fazer uma promessa de amor eterno. Que besta vos pareço, não?
Mas a verdade é que um amor eterno não se promete, caminha-se para ele, passo a passo. São as pequenas coisas de vida que o fortalecem, são aquelas conversas sérias ou de definhar que aumentam a cumplicidade, é a partilha de sentimentos que gera a empatia, são aqueles abraços únicos, os sorrisos e os olhares que nos fazem suspirar…Por estes fortes motivos, apenas prometo sinceridade, verdade, fidelidade e aproveitar o momento presente. É isto, sim, que não leva ao arrependimento dilacerante!
O café estava frio já, era hora de ir para as aulas…

António Campos Soares