sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost


How long? How long? This is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't figure out why I'm still here awake for days or months perhaps. Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent. É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de mémoires.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!




Músicas para Escrever XXXV, I Am The Architect - Quit


Estou exausto, sem ter mais nada para oferecer, sem ter mais nada para brilhar, mais ninguém para me aquecer. Toda a minha vida fui como uma caixa de fósforos nas mãos de diferentes "alguéns" e, enquanto havia mais algum fósforo para incendiar, eu fui feliz, eu aqueci,eu criei luz, eu deixei memórias ou, na maioria da vezes, fui apenas ocasionalmente útil, como alguém que é prostituído sem saber o que realmente lhe estará a acontecer. A princípio tudo era fulminantemente belo e radiante, aquela áurea inicial era o um fascínio nunca me apercebi da sua efemeridade de tão cego que o clarão me deixava... Aos poucos fui-me apercebendo que, a a cada fósforo que esses "alguéns" acendiam, a minha insanidade começava a alastrar-se como um cavalo num galope furtivo. Houve dias em que não distinguia a realidade e as miragens, ficava perdido sem ter para onde ir, cada vez mais mentalmente instável e enfermidades me foram acometendo o interior. Este é o meu último momento de sanidade, antes de se queimar o último fósforo e este sou eu que o quero acender e, assim que o fizer, será disparada a bala destinada para o meu fuzilamento.