Quando a inspiração e o
sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a
descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce
a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos
esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa
labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco
sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que
se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não
nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida
que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força,
tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as
nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão
crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando
frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de
olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos
erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de
desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena
sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram
um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que
pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do
que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost
How long? How long? This
is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't
figure out why I'm still here awake for days or months perhaps.
Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del
oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca
não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser
palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e
que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa
quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non
arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui
est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu
viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en
moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо
исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos
a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We
will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os
nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent.
É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes
sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A
vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de
mémoires.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia
Chove e chove de várias
formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se
enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite
e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem,
talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É
manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento
que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num
"AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva
incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo
certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva.
O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a
história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre
o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse
céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente
vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como
uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o
chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado Está
nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o
pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de
balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o
grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!
Músicas para Escrever XXXV, I Am The Architect - Quit
Estou exausto, sem ter
mais nada para oferecer, sem ter mais nada para brilhar, mais ninguém
para me aquecer. Toda a minha vida fui como uma caixa de fósforos
nas mãos de diferentes "alguéns" e, enquanto havia mais
algum fósforo para incendiar, eu fui feliz, eu aqueci,eu criei luz,
eu deixei memórias ou, na maioria da vezes, fui apenas
ocasionalmente útil, como alguém que é prostituído sem saber o que
realmente lhe estará a acontecer. A princípio tudo era fulminantemente belo e radiante, aquela áurea inicial era o um fascínio nunca me apercebi da sua efemeridade de tão cego que o
clarão me deixava... Aos poucos fui-me apercebendo que, a a cada
fósforo que esses "alguéns" acendiam, a minha insanidade
começava a alastrar-se como um cavalo num galope furtivo. Houve dias em que não
distinguia a realidade e as miragens, ficava perdido sem ter para
onde ir, cada vez mais mentalmente instável e enfermidades me foram
acometendo o interior. Este é o meu último momento de sanidade,
antes de se queimar o último fósforo e este sou eu que o quero
acender e, assim que o fizer, será disparada a bala destinada para o
meu fuzilamento.
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