terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Diálogo Perdido




- Que me farias, agora mesmo, se pudesses?
- Apertava-te até sucumbires…?
- Estás-te a passar!?
- Tens razão! Isso seria demasiado…
- Bem me pareceu.
- Demasiado fácil e rude para sujar as mãos!
- Noto algum tipo de desequilíbrio em ti. Estás bêbado?
- Estamos aqui há tanto, viste-me beber algo?
- Não, mas, também não poria o meu pescoço aconchegado nas tuas mãos…
- Atava-te a essa cadeira, sem te selar a boca para que te pudesse ouvir e fazer com que te ouvisses e pudéssemos conversar, acima de tudo, dialogar, ou gritar um com o outro…
- Importas-te de parar com essa palhaçada…
- Dizes isso demasiado cedo…mas é só um princípio!
- Princípio?!
- Sim, estamos a começar alguma coisa…
- Quem te disse que quero começar algo contigo?
- Eu… e continuas demasiado egocêntrica quando podemos ser nós.
- Que treta…
- Depois de te atar, rasgo-te a roupa até te despir…e fico a ver-te, enquanto o suor te escorre pelo corpo, enquanto as lágrimas te lavam a cara e soluças…
- Não…
- Sim, vou adorar, vou adorar-te, vais-me adorar a mim depois de tudo isto.



- Qual a sensação?
- Solta-me…
- Não, enquanto, não me cansar...Fica-te bem essa corda como adorno dessa lingerie.
- Por favor…
- És demasiado bela assim, frágil, tão simples, sem essa tua arrogância habitual de quem abusa e ganha trunfos com isso. Choras, soluças como uma criança assustada, com medo de algum papão que viva debaixo da cama sem pagar renda…
- Por favor, não me faças mal…
- Longe de mim fazer-te mal ou provocar-te danos. Nota-se que nunca me quiseste conhecer.
- Estás a falar de quê?
- De coisas que nunca te lembrarias…
- Tenta, por favor, uma vez, pelo menos…
- Não, hoje, não! Não te valeria de nada e gosto de te ver assim!
- Não te compreendo…
- Se te acalmares um bocado, será mais fácil perceber o que dizes.
- PÁRA, ANORMAL!
- Estás a faltar-me ao respeito. Já viste a maneira como me estás a falar? Creio nunca ter falado assim contigo. Ou estou enganado?
- Desculpa, desculpa, tens razão… Solta-me, por favor! Não me faças mal…
- Tenho que repetir que fazer-te mal não faz parte das minhas intenções?
- Então, por que razão me estás a fazer isso?
- Diz-me tu…
- Não sei…
- Tens fome ou sede?
- Achas mesmo? Quero é que me soltes? JÁ…OUVISTE? SOLTA-ME!
- Então, que te disse eu há pouco sobre a maneira como me estás a falar? Não estás a tornar as coisas fáceis… E não precisas de me olhar com essa raiva toda, com vontade me fulminar à primeira tentativa que tenhas. Não tarda nada, apago a luz e deixas de me ver.
- Não, por favor! Desculpa!
- Tens medo do escuro!? Guarda o raio das desculpas e desfaz-te delas, não me servem de nada a mim, nem, tampouco, a ti. Mais ainda, não tenho nada a cobrar-te.
- Onde vais?
- Voltarei…
- Espera, não vás!
- Precisas de algo?
- Sim, tenho frio.
- Tudo bem! Vou pôr-te uma manta…Pode ser?
- Sim, por favor!
- Estarei cá a tempo de não te deixar passar mal. No entanto, podes sempre chamar-me, caso necessites algo, sem histerismo, por favor. Queres música?
- Onde vais?
- Voltarei…
- Não me deixes só…
- Nem pensar, terás companhia.
- Quem?
- Depois contas-me como foi.
- Estás a assustar-me ainda mais.
- Eu? Não! Mas tu, sim…
- Por favor…
- Vá, já vai demasiado longa a conversa para hoje! Voltarei…
- Não vás, por favor!
- Já te disse! Voltarei...



- Bom dia!
- Já é dia?
- Sim, dormiste bastantes horas.
- Então, vais soltar-me ou não?
- Vou buscar-te o pequeno-almoço e vou libertar-te as mãos...
- Só?
- Só?! Com calma...pode ser?
- Sim! Já não é mau, mas já chega desta brincadeira perversa...
- Não é uma brincadeira e não é nada perverso, pensei que já tinhas percebido!
- Deves-te achar com muita piada...
- Não imaginas a ironia das coisas, um dia também a ironia te assentará lindamente... Que queres que te traga para o pequeno-almoço? Bolo de chocolate? Batido de frutas? Algum cocktail exótico?
- Hum! Deixa-me pensar, então!
- Acabou-se o tempo! Achas mesmo que isto é uma espécie de hotel de luxo, cujo lacaio sou eu.
- Anormal!
- E continuas mal-encarada, és ruim...Que tal uma torrada e um copo de leite com chocolate? Prometo pôr pouca manteiga para não abusar nas calorias, sim?
- Engraçadinho!
- Já encontro em ti algum espírito. Hum…
- Onde vais?
- Buscar o teu pequeno-almoço, não foi o que te disse ainda agora...
- Demoras?
- Voltarei...
- Da última vez que disseste isso foi ontem e só te vi hoje...
- Também preciso de descansar. E ao contrário do que poderias imaginar ou desejar, não ia dormir contigo!
- Não gostavas!?
- Curioso, primeiro perguntas-me desesperada se te vou fazer mal ou abusar de ti e imploras-me para não fazê-lo, e agora...tentas um assédio tão ultrapassado? Isso já não se usa.
- Não é nada disso!
- Se o dizes...
- Foi só curiosidade!
- Até já!



- Obrigada!
- Vou soltar-te as mãos, como prometi...Deixas-me?
- Pois, claro, quase me esquecia!
- Não é bom quando as pessoas se acostumam a condições de serventia. Ficam escravas de circunstâncias envolventes e de si mesmas. Não é esse o meu propósito, por isso, não o faças, não comeces mal.
- Não?
- Come, antes que comeces a fazer demasiadas perguntas, porque não vou levar isso para trás quando arrefecer.
- És sempre assim?
- Outra pergunta desnecessária, visto conheceres-me há tanto tempo...
- A sério, ainda não te consegui perceber.
- Espero que não demores muito.
- Estou farta de te ouvir e mal o dia começou...
- Come e cala-te um bocadinho. Pode ser?
- Anormal!
- Isso é um “obrigada” pelo pequeno-almoço, Sra. Ingrata?
- Não!
- Já imaginava isso...
- Onde vais?
- Voltarei...
- ONDE VAIS?
- Baixo, por favor!
- Desculpa! Onde vais?
- Para junto de alguém mais interessante...
- Conheces pessoas?
- Sim, muitas. E, ainda que às vezes possa falhar, ao contrário de ti, não sou ingrato, arrogante, nem sofro de nenhum complexo de ansiedade por notoriedade para ser o centro das atenções.
- Sou assim?
- Se és, minha cara, mas poderás deixar de sê-lo.
- Acreditas assim tanto na mudança das pessoas e que elas têm um lado bom?
- Sim, definitivamente.
- Talvez não me espante que sejas tão idiota por isso.
- Apesar de ter medo de pessoas, continuo a acreditar nelas e a gostar delas, por isso, vou passar um bom bocado com alguém menos mal-encarado.
- Espera, por favor! Não me deixes só...
- Falaremos disso depois...
- Mas...
- Mas...Voltarei...



- Boa noite!
- Demoraste!
- Sim, distraí-me com o tempo...
- Estou com fome!
- Desculpa a minha distração. Não foi por mal, não penses que foi para te deixar passar mal. Como te disse, às vezes, também posso falhar apesar de a ti não te dever nada.
- Não tem mal...
- Que simpatia... Obrigado!
- Estou cansada também...
- Estiveste a chorar?
- Sim, passei uns momentos de angústia...Nunca me senti tão só como este tempo em que me deixaste.
- Não pensei que fosse tão duro. Até nos meus momentos mais sós, sinto alguma companhia.
- Como?
- As pessoas acompanham-me.
- Como fazes isso? Algum tipo de insanidade para acrescentar ao que tenho visto? Amigos imaginários, com essa idade? Hilariante!
- Pelo vistos, passo melhor do que tu...aí, angustiada, deprimida, com olheiras profundas e a marca das lágrimas que te escorreram na cara, enquanto estive ausente...Essa tua maquilhagem ridícula denuncia-te ainda mais.
- PÁRA, por favor! Desculpa.
- Queres que te vá buscar o jantar?
- Por favor, mas não tragas muita comida.
- Trago o que tenho, mas comes só o que quiseres.
- Obrigada!
- Ora essa!



- Estava óptimo.
- Grato!
- Ainda não consegui perceber o porquê de me manteres assim e seres tão atencioso. Não devias tratar-me mal, ser desagradável, rude e fazer-me sofrer para que eu sentisse medo?
- Não creio que pudesses perceber o meu objetivo se eu fosse assim. Como te disse, não quero, nem vou fazer-te mal.
- E o objectivo?
- Isso é contigo...Mas posso assegurar-te que já estiveste mais longe...
- Continuo a não perceber!
- Café?
- Sim, por favor!
- Então, trago dois bem fortes, a noite vai ser longa... Importas-te?
- Depende das tuas intenções!
- Recorda-te lá das nossas conversas...
- Tens razão. Vou ficar descansada e confiar...
- Onde vais?
- Calma, voltarei, vou só fazer os cafés...
- Pois...
- Até já!
- Não demores, por favor... Obrigada!



- Cheira bem.
- Gosto de saborear um bom café...
- Onde está o açúcar?
- Não tenho, como te disse, gosto de saborear um bom café...
- Mas, assim, é muito azedo.
- Talvez, no entanto, com açúcar, estarias a adulterar o seu sabor natural.
- Tu e as tuas coisas esquisitas...
- Tu e as tuas maneiras de adulterar as coisas para ficarem ao teu jeito para servirem os teus proveitos...
- Já estou ver o rumo desta conversa.
- Vá, saboreia-o calmamente e sente o aroma.
- Azedo, até me arrepia!
- É só o primeiro trago...
- Mesmo assim...
- Experimenta degustá-lo calmamente como se deixasses um quadrado de chocolate derreter suavemente na boca.
- E se eu gostar de trincar o chocolate?
- Quase aposto que és daquelas pessoas que ao ler um livro, ainda não acabou de ler uma frase e já está a olhar para a próxima. Se fosse do sexo aposto sofrerias de ejaculação precoce.
- Idiota!
- Há muitas coisas na vida que devem ser apreciadas com calma e desfrutadas, como num livro, sublinhar palavras, frases, pensamentos e ir dormir com toda essa nova aquisição de paisagens, personagens, que não existem na realidade, na mente...assim, na vida também devem haver momentos que tu assinalas e não  esquecerás...
- Muito bonito de dizer, mas não há tempo para tudo!
- Antes houvesse e pudéssemos viver mais anos do que aqueles que nos permite a nossa condição.
- Em alguma coisa concordo contigo! Finalmente...
- Ainda bem, mas tenho a certeza que os viverias da mesma maneira que vives agora.
- Teria que pensar no assunto, pois, certamente surgiriam outras coisas e voltaria a não haver tempo para tudo.
- Vês? Bem me pareceu. Se não tens tempo para tudo, porque não concentras o teu tempo em coisas especiais? Nunca leste o Principezinho?
- Lembro-me de ter visto a peça, quando era pequena. Eleger essas coisas especiais é uma treta porque levaria mais tempo ainda.
- Então, preferes viver, num escassear de tempo, onde tudo o que tens, tudo o que podes fazer, tudo o que podes desfrutar será incompleto por não haver tempo?
- Menos mal, faço um bocadinho de tudo e não me chateio.
- Exacto, como ler um bocadinho de cada livro e não encontrar todo o seu sentido ou ler só as letras gordas dos títulos de um jornal e especular sobre o que diz o resto do artigo; como ir a um restaurante, comer só um bocadinho de cada acepipe e não ficar saciado com nada; como gostar de uma música e aprender só a tocar os primeiros acordes para impressionar alguém; como decidir escrever um livro e não passar do primeiro capítulo; como fazer uma longa escalada e ver o cume, mas não o atingir porque já o viste e leva muito tempo e muito esforço para alcançá-lo...
- Mas toda a gente faz isso, acho eu.
- Permite-me discordar de ti...
- Não me digas que te achas a excepção...
- Não sou e ainda bem, mas confesso que já sofri desse mesmo sintoma que tu, querer fazer um pouco de tudo e ser um inútil diletante...
- E?
- Aprendi a fazer o contrário...
- Planeias tudo ao pormenor agora?
- Longe disso, mas imaginei que algo do género fosse uma solução para ti... A vida não é uma agenda de marcações infalível! Até podes ter tudo agendado, mas há imprevistos, atrasos...
- E, então, com que coisas é que já aprendeste algo?
- Uma vez decidi fazer uma viagem pela Europa. Quinze dias a viajar de autocarro…
- Que luxo, quem me dera ter tido essa oportunidade!
- A princípio, gabava-me por ter estado em imensos países mas depois…
- Depois o quê? Também eu me gabaria…
- Depois apercebi-me que isso não me valeu de muito. Passava o dia no autocarro e, nos sítios em que parava, era só para passar a noite. Conheci melhor o autocarro do que as cidades onde estive.
- Foste um bocado idiota, então. E, afinal, qual a moral da história?
- Agora, quando quero viajar, escolho um sítio e deixo-me perder por lá.
- Sem nada planeado?
- Não necessariamente. Vejo o que poderá haver de interessante e parto, conheço pessoas, descubro a cultura, construo novas perspectivas…
- Muito bonito, mas nada melhor do que passar duas semanas na praia, sem me chatear, sem ter que pensar muito. Acordar e ir para a praia, apanhar sol...
- Não é mau e, de vez em quando, é uma boa terapia, mas há muito mais do que a resignação a uma rotina constante. Par fazer todos os dias o mesmo já basta a miséria de vida que vives.
- Mas a vida é uma rotina.
- Não te cansas de, ao ir para o trabalho, percorrer sempre os mesmos caminhos, ver sempre as mesmas caras, àquela hora, à espera da boleia ou do autocarro para irem também trabalhar? Eu até acho que essas mesmas pessoas se devem cansar de me ver passar ali todos os dias à mesma hora, já devem estar fartas de ver a minha cara de sono.
- Achas que as pessoas reparam nisso?
- Todas não, mas algumas pensarão também como eu.
- Mas não gostas de trabalhar, ter um sustento para tuas coisas?
- Adorao trabalhar! Tinha um emprego que me permitia conhecer pessoas novas todos os anos, encarar situações diferentes e espontâneas, contribuir para um futuro mais próspero e aprender com essas pessoas. Isto porque não me resignava só à profissão, tentava garantir, o mais possível, a natureza humana.
- Que fazias?
- Em tempos, fui professor, agora, sou apenas mais um número nas estatísticas do desemprego.
- Não sei o que te dizer.
- Não precisas de dizer nada. Aprende comigo e eu aprenderei contigo.
- Vou soltar-te completamente.
- Mesmo? Também só faltam os pés e a cinta…
- Já, há muito, que me está a causar impressão teres-te acostumado aos pés atados à cadeira.
- Obrigada.
- Aprende algo com isto.
- E que mais é que eu poderei ensinar a um professor?
- Achas que aprender se restringe apenas ao que vem detalhado nos programas?
- Mas já viveste mais do que eu, já fizeste mais do que eu…
- Sabes, tinha um amigo, que deveria ter os seus setenta e tal anos e garanto-te que ele era bem mais jovem do que eu ou tu.
- És mesmo esquisito.
- Não me interrompas, por favor.
- Desculpa, mas, às vezes, é inevitável não constatar isso.
- Era um homem sábio. Mostrava-lhe coisas que não conhecia e ele tinha uma explicação para tudo e eu ficava a ouvir quantas horas ele falasse. Quando me chamava à atenção, eu tremia, mas era o jeito dele, num tom teatral, erguendo os braços e enchendo o peito, como um indignado. O escritório dele, a abarrotar de álbuns de selos, era a maior enciclopédia universal que alguma vez pude ver e cada selo ganhava vida quando me contava a sua história. E sabes o que mais me fascinava nele?
- Não!?
- É que, de vez em quando, pegava no Fiat Panda dele e fazia uns dois mil quilómetros até sua à terra natal. Quantos jovens arriscariam uma viagem destas?
- Aprendeste muito com ele?
- Na verdade, foi um grande mentor e quando penso em fazer algo, lembro-me de que ele me disse com tom muito sério “Difícil não é começar, mas sim continuar”.
- Ainda falas com ele?
- Infelizmente faleceu há uns anos. A última vez que falei com ele, teria os meus dezasseis anos e soube da morte dele um mês depois de ele falecer.
- Que pena…
- Sabes o que é o pior de tudo?
- Não, mas diz-me.
- Andei muito tempo a planear visitá-lo, mas nunca me decidi a fazê-lo. Uma oportunidade que nunca mais terei.
- Estás com os olhos embaciados.
- Eu sei, de vez em quando também choro.
- Sinceramente, não me lembro da última vez que chorei…
- Eu recordo-me.
- A sério?
- Sim, e não me chames esquisito.
- Leste-me o pensamento.
- Mais café?
- Não sei, isso de o beber sem açúcar…
- Queres ou não?
- Sim, lá terá que ser, não é?
- Até já…
- Não demores…
- Só o tempo de fazer o café e trazê-lo e vê se não tentas fugir, ainda temos muito para conversar.
- Ficarei…



- Aqui está o…



- Não podias ter batido mais devagar? Com que raio é que me bateste?
- Não tenho experiência em bater em pessoas para fazê-las desmaiar. Com a lombada daquela enciclopédia.
- Pelo menos, não me podes acusar de te ter feito nenhum dano e pena que nenhum conhecimento me tenha entrado com a pancada.
- De facto!
- E agora que vais fazer? Chamar a polícia?
- Não sei…
- Então, enquanto pensas, podes, pelo menos, ir buscar um bocado de gelo para me pores na cabeça? A cozinha é na segunda porta à esquerda do corredor.
- Tem mesmo que ser?
- Pelo menos compensa-me por esta dor de cabeça e pela bagunça que fiz por tua causa.
- Muito engraçado.
- É o que alguém, com o mínimo de educação faria se fizesse asneira em casa de alguém.
- O teu humor não muda, nem agora que és tu que estás na outra posição e quem leva a vantagem sou eu?
- Temo que não.
- Não é fácil aturar-te.
- Vais-me buscar o gelo ou não?
- Vou!
- Obrigado! Até já!
- Até já!



- Não és boa a bater em ninguém, nem a atar ninguém. Desculpa ter passado para este sofá, mas assim sinto-me mais confortável. Calma, não vou retaliar.
- Mesmo?
- Sim, prometo.
- Desculpa. Está aqui o gelo.
- Antes de te sentares, pega naquele envelope, está por fechar.
- O que é?
- Lê…
- É teu?
- Não, é de um amigo.
- Que tem ele?
- Muito pouco. Está em fase terminal, tem dois meses de vida.
- Quantos anos tem?
- O mesmo que nós.
- Não estou a perceber. Que tem isso a ver comigo, com esta situação e contigo?
- Comigo, porque é meu amigo e precisa de mim. Contigo porque irás vê-lo comigo amanhã.
- Eu? E era preciso tudo isto?
- Sim, temo que sim. Não pretendo que apenas lhe faças uma visita.
- Então, o que queres?
- Nenhum dos teus órgãos nem favores sexuais para alguém com o tempo a escassear.
- Então?
- Vamos numa viagem com ele.
- Mas eu não o conheço.
- Isso é irrelevante.
- Não!
- Sim, vais!
- Porquê? Não quero conhecer alguém a quem me vou afeiçoar e depois vê-lo morrer.
- Esse é ponto. Não vamos fazer contas ao tempo.
- Mas, eu…
- Mas tu vives sozinha, não tens emprego e estamos no verão. Não me digas que tens algum hotel marcado para duas semanas?
- Não tenho.
- Então, anda! Pelo menos um vez na vida, vem fazer alguém feliz e aprender o valor do tempo.
- Não sei…
- Sabes, sinto o teu coração a palpitar com adrenalina. Tu queres esta aventura de saber que o não importa o tempo que tens mas como o aproveitas.
- Tenho que decidir já?
- Sim, amanhã ele vem embora definitivamente do hospital com um final certo. Não chores.
- Não sei se consigo.
- É claro que consegues. Não te vais arrepender.
- Porquê tudo isto?
- Terias descartado a hipótese e dito que não. Anda. Depois de tudo isto, não precisas de me ver mais.
- Mas vou querer.
- É diferente. Não precisas!
- Apaixonei-me por ti. Amo-te!
- Não te deixes levar por sentimentos precoces.
- Não são.
- Vai a casa e prepara as tuas coisas.
- Vou. Vens comigo?
- Vou.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever L, Mono - The Battle To Heaven


"Car tous les hommes désirent d'être heureux: cela est sans exception. Quelques différens moyens qu'ils y emploient , ils endent tous à ce but. Ce qui fait que l'un va à la guerre, et que l'autre n'y va pas, c'est ce même désir qui est dans tous deux accompagné de différentes vues." 

Blaise Pascal


A vida é como um texto porque a língua – escrita ou não – é também uma forma de acção. Não é que todas as regras que envolvem a língua tenham que ser seguidas escrupulosamente porque, se deténs o conhecimento formal que é fundamental, podes reinventar.
Podes usar reticências ao invés de um ponto final. Podes escrever frases mais longas e fazê-las semelhantes a um sonho que queres prolongar ou a uma divagação que não queres abandonar e continuar... Podes fazer essas mesmas frases curtas! É contigo! Podes adulterar a ortografia, se assim entenderes, porque há palavras que ditas ou escritas de outra maneira, em alguma circunstância, te soam melhor assim, te fazer rir, te perpetuam aquele momento, te relembrar alguma pessoa – infelizmente agora não me estou a lembrar de nenhuma mas isso acontece! Podes jogar com as palavras porque, em determinado momento, uma mesa pode ter sido muito mais que uma mesa onde costumas jantar só e naquele exacto momento não estavas sozinho ou sozinha. Podes florear para criar cenários idílicos que pretendes levar ao mais ínfimo dos pormenores ou criar charadas de quem foste realmente ou de como apenas te representaste nas histórias que escreveste quando não o pudeste ser na realidade. Tudo isto porque quando conheces bem dominas ainda melhor. E aprende, aprende a cada dia e com cada palavra.
O importante é não deixar nada em suspenso, pelo menos para ti, que escreves o teu texto. As dúvidas não fazem bem porque são como cruzamentos duvidosos e muito mal sinalizados em que, enquanto decides avançar ou não, podes ser surpreso por alguma infelicidade, por isso, não fiques na dúvida e se, no final daquele parágrafo, deverias ter deixado reticência, ou por fraqueza não quiseste colocar um ponto final, ou se aquele pensamento, esquecido entre outras frases, deveria ter tido destaque e passado a uma intervenção tua, mesmo que sem deixa, certifica-te que isso não te passou em vão.
Não deixes frases inacabadas em que, na posterioridade, alguém perversamente possa alterar o sentido de alguma circunstância que te envolveu ou em que, com a melhor das intenções, te envolveste apesar do anonimato que injustamente te atribuíram no final da história quando alguém gritou vitória e te esqueceu.
Talvez a razão de muito mal-estar que nos mitiga seja mesmo a falta de coerência e sanidade que nos assoma quando deixamos pontas soltas em algo que, ainda não estando o nosso texto acabado, pensamos lá voltar para resolvê-las, no entanto, não o fazemos porque são tantas e nos esquecemos e quando está publicado o nosso texto já é tarde demais. FIM!





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIX, Agnes Obel - Over The Hill

Gostava de lá estar, over the hill!
Ver os meus sonhos de infância e ver o quanto me desviei ou aproximei de os realizar.
Over the hill a ver o pôr-do-sol tranquilamente esperando pela noite para contar as estrelas que, quando era criança, me diziam para não contar porque me isso me faria crescer tanto cravos nos dedos quantos as estrelas que contava.
Over the hill, fingindo ser aquilo que não sou mas que desejaria ter sido.
Over the hill, cruzando o limite de encontro a uma realidade que não tive.
Over the hill, perecendo tranquilamente e em silêncio sob o manto de estrelas que sonhei. Não conto cordeiros para adormecer, conto estrelas para me despedir!




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVIII, Aesthesys - Scrolling In Mind Images Of The Past Day Before Falling Asleep

À beira mar tudo parece mais sereno ainda que o mar queira mostrar a sua força.
Quando está calmo, faço barco de papel e neles embarco os meus sonhos e ordeno que cheguem a um porto seguro e acolhedor, longe da angústia que está para lá do que fica à beira mar. Quanto está bravo, atiro nele e nas suas ondas as minhas mágoas e tristezas para que se dissolvam e encontrem algum repouso longe.
Estou cansado, mitigado e esta esperança, outrora mais forte que um colete à prova de bala, é hoje um casaco de malha desfeito que me dá aparência de mendigo. E quem sabe, sou mesmo um mendigo, não à procura de esmola, mas sim de um porto de abrigo.




Músicas para Escrever XLVII, The Best Pessimist - Forgive me

Um dia vou escrever-te uma carta, ou talvez já a tenha escrito – não sei ao certo onde e "quando" estou. Será uma carta peculiar, que nunca esquecerás, assim o espero. Será a minha última carta para ti, só para ti, porque já terá o mundo desaparecido. Estaremos só, tu e eu, num vazio e poeirento universo. Estaremos os dois, não propriamente em carne e osso, mas em espírito, âmago, algo, aquilo em que acreditares e se acreditares em alguma destas coisas. Desde que a morte me enterrou dentro do ataúde, prometi que o meu âmago apenas encontraria descanso quando te encontrasse e te entregasse esta carta, que já foi um testamento, mas agora é demasiado tarde para isso.
Porque me desapareceste no dia em que prometeste voltar, não consegui fazer-te herdeira da minha felicidade, não consegui delegar-te a minha força, não pude deixar-te a minha vontade, nem pedir que me fizesses feliz naquele minuto antes de partir eternamente e fixar-me no céu, cuidando-te até que também tu viesses brilhar comigo. Foram duros os últimos dias em que escrevi, resistindo a enfermidades que me arrastavam para uma morte penosa e estas palavras foram escritas com sangue e lágrimas. Perdoa-me se alguma delas é imperceptível, mas tentei encontrar-te e ler-ta, em vão.
Não pretendo que amoleças este papel com lágrimas, não pretendo ocupar-te com tristeza ou remorsos porque o culpado aqui sou eu, que sentindo-te faltar, fui induzindo a minha morte. Apenas peço: recorda-me nesses dias de esplendor em que sabia sorrir!




sábado, 12 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLVI, Isis - Maritime

A tragédia da vida é saber que, perante dois caminho bem distintos, ficaremos na bifurcação e ali acabaremos porque a nossa falta de esperança e felicidade não nos deixa avançar. Porque não acreditam em nós,  também nós, por arrastamento, muitas vezes, desacreditámos nos e, momentaneamente, sentímo-nos felizes perante a nossa estupidez porque sentimos uma mão que rapidamente nos afaga as costas, no entanto, como rapidamente se presta a afagar, rapidamente desaparece e voltamos a mergulhar na profunda desilusão que tem vindo a ilustrar as nossas vidas.
É tão infeliz a bifurcação que se pudesse pedir um último desejo, não preferiria morrer agora, nem pediria que me levassem para um momento futuro, onde só há promessas banhadas a ouro. Simplesmente pediria que me fosse possível voltar a um momento de passado, onde me sentaria tranquilamente e ali, como quem assista a um filme, e não importaria se soubesse qual o final, porque depois de tanto desilusão, nada mais desejo do que acabar e levar comigo, como última memórias, um final seguramente feliz, ao invés de acabar num caminho cinzento e húmido como um tumulto aberto, murmurando as mais que conhecidas palavras dilacerantes de toda a gente, que deixou de sonhar, profere na esperança de que as minhas lágrimas e a minha miséria regassem o seu jardim de lâminas e espetos que, vezes sem conta, deixaram em nós inesquecíveis cicatrizes.




Músicas Para Escrever XLV, God Is an Astronaut - Point Plesant

Não olhes para mim assim, não outra vez, por favor - digo-te eu em silêncio porque não consigo fazer com que as palavras me saiam e não estou seguro se entenderás este meu constrangedor silêncio. Sabes que há nisso uma extrema crueldade? Sabes que a minha resistência, não é, de facto, uma resistência? Sabes que não é uma aceitação, mas sim uma dor difícil de se suportar? Não o faças, por favor, se ficarei só novamente, não terei força para esse confronto. Sabes que levas a melhor das vantagens sempre que o fazes e matas-me, matas-me de cada vez que isso acontece porque não está na minha natureza contrariar-te, nem repudiar-te, nem esquecer-te, nem desejar vingança. Ainda que na minha vontade, bem na sua essência eu possa contrariar-te e, no mais recôndito secretismo, ter-te, não ouso deixar-te sabê-lo, ou incorreria no meu penitenciário fim.
Fazes surgir em mim instintos fortes e de enorme adrenalina  que não consigo revelar porque esse teu olhar me petrifica. E aceito-me, assim, em condição de serventia, sendo o lacaio enamorado pela senhora que me prende, talvez sem saber, talvez tirando prazer desse arrebatamento que provocas em mim porque há diferentes fontes de prazer: uns por desejar, outros por infligir, outros por reconfigurar e aproveitar. Talvez tu mesma sejas vítima de uma condição e essa condição criou em mim uma outra condição inferior, uma ligação feita por um elo extremamente defeituoso que, ainda assim, se aguenta. E tu sabes, assim morrerei, sem ti, mas contigo por perto.

Elle s'appellait Belle, la plus Belle Fantasie que je pouvais croie.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Mort que je pouvais attendre.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle Vie que j'ai eu.
Elle s'appellait Belle, la plus Belle mort qu'un Misérable pouvait avoir.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIV, Julia Holter - Marienbad



Elegantemente saiu do seu banho, onde se submergia em espuma colorida e sais aromáticos. Continuou em bicos de pé pela casa fora, deixando que a espuma lhe assentasse como uma vestido colorido, visível pela luz das velas, e aroma dos sais deixasse um rasto. Dirigiu-se para pátio em frente ao jardim. Da janela do seu quarto propagava-se a música que saía da sua grafonola, que despertou todos aqueles que já se deixando apagar pelo sono.
No interior da enorme casa, as janelas preenchiam-se de rostos indignados de gente que segurava candelabros  Ela dançava entregue à música que a ia envolvendo e todas as plantas do jardim a acompanhavam amparadas pela brisa nocturna. A indignação não durou muito, dando lugar ao deleite de contemplar tamanha beleza, que o luar sem hesitar cobria de brilho salientando os seus contornos. Dançou até que sol viesse para a cortejar mas, com a elegância que para ali se dirigiu, voltou aos seus aposentos, entregando-se a um amante, que certamente num sonho a aguardava.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLIII, Muhr - Sunrise On Her Cheekbones

Viajou por muito tempo e vivia saudavelmente, alimentando-se de memórias e paixões. De cada substância que o alimentava guardava uma fragrância, que ia colhendo e colando em cada página do diário que sempre o acompanhava. Quando se sentia só, folheava esse precioso diário e tudo vinha ter consigo novamente: as memórias e paixões ganhavam traços tão definidos como quando os viveu intensamente. A fragrância era a parte física que restava dessas mesmas memórias e paixões. 
Hoje está velho e sabe que lhe restarão poucos anos mas continua feliz. Decidiu deixar a sua vida nómada e realizar o seu último desejo para, assim, dar o seu último suspiro em plenitude. Comprou uma pequena casa de madeira numa clareira. O suficiente para acabar de escrever e rever as suas vastas memórias. 
Assim, se instalou modestamente e, durante um ano, compilou todas fragrâncias da sua vida. No ano seguinte, cultivou o jardim à volta da sua casa, cruzando as memórias e as paixões e não tardou para que tudo começasse a crescer e todos aqueles aromas contagiassem a clareira. Adormecia com a janela do quarto aberta e, por aí, entravam as fragrâncias com as quais partilhava o pensamento, os sonhos, o leito... 
Suspirou pela última vez numa tarde de verão, sentado no seu inesquecível jardim com o diário aberto sobre o colo, onde apenas escreveu a data desse último dia para o qual acordou, pois, o resto seria escrito por todas aquelas fragrâncias porque a felicidade é um misto de tudo aquilo que guardámos de melhor e, no seu caso, fez com que eles permanecem para quem quisesse conhecer e continuar o seu legado.

 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLII, Aesthesys - I Am Free, That Is Why I'm Lost


Será um ser dependente enquanto seguir os caminho que não são os seus. Não será vitorioso enquanto lhe atribuírem sucessos atingidos numa batalha que não é a sua. Será um feliz sem ânimo enquanto apenas contribuir para uma felicidade que não é a sua. Este é o mais que conhecido Fidalgo Maldição. 
Continua sentado com a chávena de chá que se vai esfriando nas suas mãos. Há muito que os dias que contempla pela ampla janela, onde a vidraça é fustigada por fortes chuvas, são cinzentos e com muito poucas horas de luz. É uma tempestade perene e já não guarda em si esperança de avistar dias de bonança.
Rodeia-se de diplomas encaixilhados e cobertos por pó que se vai acumulando porque se cansou de os limpar e os exibir magistralmente. Também não deixa que os abrilhantem mais, salvo para um propósito diferente, que nunca aparece. Até hoje não o levaram a nenhuma saída que não fosse a previsibilidade dos mesmos resultados de sempre. É este o seu (só seu?) triste apanágio.
Está já gasto o veludo dessa poltrona majestosa onde se senta e as almofadas estão côncavas, como um caixão feito à medida para que o cadáver não se mova com a mínima trepidação. Se tarda a bonança, sabe que não deve tardar o tempo para apenas sair dali solenemente deitado e embrulhado num lençol de linho branco com insígnias que o prenderam e de pouco lhe valeram.
Decisões dos passados tempos de bonança com pesadas correntes consequenciais que o prendem num luxuoso salão nobre quando já passou o tempo da nobreza e esse é o seu cárcere.
Cai-lhe a chávena, espalhando-se os cacos nesse lustroso chão que emana o cheiro da cera. Arremessa os candelabros com velas acesas e começa a ver o fim, uma luz forte que se propaga e o aquece como os dias de sol que há tanto espera contemplar. Deixa para trás traz o robe de cores ridículas  que rapidamente é consumido pelo fogo, assim como todos aqueles papéis escritos pela rotina. Sai e assoma-se-lhe o espanto quando vê o sol e apercebe-se que todo o cinzento, que via da janela, era uma ilusão criada pela desilusão que sentia. Quebra-se assim a Maldição do Fidalgo que, celebrando as ruínas de tudo aquilo que o prendia, se torna Fidalgo Libertação, Fidalgo Criação, Fidalgo Imaginação, Filho De Algo que há tanto ansiava.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XLI, The Echelon Effect - Sleep Patterns


São sons de fundo: conversas, sussurros, passos, folhas de papel, músicas, vento, chuva, mar...
Em determinados momentos, para alguém avançar, alguém tem que ceder. Outras vezes, alguém tem que ceder para alguém avançar. Em algum dos casos, jogando correctamente  ninguém perderia porque, sempre que há mais do que uma pessoa no mesmo lugar, não é só um que aprende.
E se cedermos os dois? E se aprendermos os dois, um do outros, juntando os nossos sons, as nossas vivências, os nossos saberes, as nossa memórias?
Uma cedência não tem que ser uma imposição de uma das partes. De imposições estamos todos nós cansados e, talvez por isso, aprendemos a não ceder, vendo na cedência um sinal de fraqueza. Seguimos caminho diferentes mas, em determinado ponto, esses caminhos podem cruzar-se e, aí, não temos que virar costas um ao outro e voltar a seguir esses caminhos distintos. Podemos aproveitar esse vértice para comunicar, para receber e dar recomendações, para pedir ou dar ajuda. Por vezes, há até caminhos diferentes que se percorrem lado a lado e esse pequeno espaço que os separa não precisa de ser um muros de impedimentos para caminhar com palas.
Se me permitires, eu cedo e saltarei essa pequena distância que nos separa para fazer parte do caminho contigo e tu poderás fazer o mesmo, que te receberei de bom grado. Se a distância for maior, estou aqui para me certificar que não cais num abismo qualquer que possa existir nesse pequeno espaçamento que aparta os nossos caminhos  Há momentos em podemos e devemos transgredir para quebrar a monotonia que nos envolve. Agora, qual de nós salta?




Músicas para Escrever XL, Sleep Dealer - Point Of No Return


Vamos embora daqui? 
Já viste quantos é que já partiram também e não são mais do que nós?
Pois, eu conheço esse aceno. Quanto dinheiro tens no bolso?
Eu tenho o mesmo. Chega para os dois. Não podemos esperar mais um dia ou tiram-nos o pouco que guardamos.
Tens comida?
Chega. Duas sandes para cada um chegarão para a viagem. Depois, quando chegarmos, lá nos orientaremos.
Assim apanhámos o comboio há uns meses. Libertámo-nos dessa mendicidade que nos corrompia. Éramos mendigos e o pouco dinheiro que juntávamos servia para engordar quem mais tinha. Davam-nos esmolas magras, sabendo que a eles voltariam obesas quantias. Deixámos de os alimentar e, nesses dias, em que ninguém sentiu a falta do nosso contributo, juntámos uma escassa quantia para comprar o bilhete e assim partimos.
Por alguns tempos vivemos num nomadismo que não tinha uma ínfima comparação com o sedentarismo da nossa realidade passada. Cruzámos planícies, montanhas, pontes, rios, cidades...os dias passavam e o mapa que levávamos connosco ia ficando com mais anotações do que com nomes de cidades.
De onde viemos, não havia notícias. Deixaram de dar importância a esse sítio de onde só ouviam misérias e de misérias toda a gente se farta e, por vezes, há que saber virar as costas, ou comprometermos a nossa felicidade porque nunca tudo, nem nunca nada.
Um dia, o que começou como uma brincadeira num labirinto, fez-me perder-te. Durante dias percorri cada espaço desse labirinto, sem sucesso, sem pistas, sem nada. Gritei por ti, não te ouvia. Estava só, estava longe, estava perdido também.
Voltei ao comboio, mas não voltei a atrás.
Decidi continuar a minha jornada. Se não te encontrei, nem viva, nem morta, é porque ainda por aí estarás e, se continuas também a tua jornada, aquela que começámos juntos num lúgubre apeadeiro, em algum ponto, te encontrarei, talvez solucionando um outro labirinto, num outro sítio, num outro momento, numa outra esperança...




Músicas para Escrever XXXIX, Epigram - The Spectator (Interlude 2)


Já imaginaste a escuridão que se vincularia à noite se, a cada oportunidade de brilhar, cada estrela se desertasse da constelação que integra em busca de um brilho a solo num "sabe-se lá onde", que ninguém conseguiria achar? Ficaríamos sob a monotonia de uma manto unicamente negro onde, talvez, apenas restasse a lua, já que é o único planeta secundário que assegura algum destaque. Mas o que é cada estrela a brilhar individualmente, ainda mais longe, um ponto cintilante ainda mais imperceptível?
A beleza das estrelas deixaria de existir com o colapsar das constelações, esses conjuntos que integram e que todos os que vêem procuram encontrar porque são belos, porque neles há uma geometria natural criadora de harmonia, porque são tão antigos que nos serviram de inspiração e, em torno deles, criámos lendas, demos repouso a personagens únicas.
E da lua? O que seria dela sem o adorno das estrelas e das constelações? Um pobre corpo nu sem qualquer amparo, que não conquistaria outro corpo, nem com essa exibição de nudez. Que comparação teria ela, no restante firmamento, para se vangloriar do seu brilho que, mesmo não sendo mais do que um reflexo, é o que mais se destaca à nossa vista quando a noite nos envolve?
Talvez outro Big Bang não fosse, de todo, uma má ideia. Todos os corpos desfeitos e novos corpos feitos com os restos espartilhados de todos esses corpos desfeitos.




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVIII, Mogwai - Kids Will Be Skeletons


Quando a inspiração e o sonho nos abandonam, desaparece o caminho que temos vindo a descobrir, desaparece a vontade, desaparece a vida lentamente. Cresce a angústia, já não sabemos desfrutar a solidão porque nos esquecemos do seu limite. Tudo o que caminhámos transforma-se numa labirinto de muros altos e enegrecidos e, à nossa frente, um beco sem saída, ao nosso lado, pedra fria, atrás de nós, uma porta que se trancou. Encolhêmo-nos no chão, como um feto que sabe que não nascerá, cada um no seu cubículo, que se vai estreitando. À medida que o tempo passa, há momentos de insanidade e, pela força, tentamos destruir paredes indestrutíveis e manchámo-las com as nossas mãos feridas e ensanguentadas. São paredes que vão crescendo e a luz vai escasseando. Os nossos corpos vão ficando frios e empalidecemos, somos apenas pele e osso com rostos de olheiras salientes, cada vez mais débeis e sem força para nos erguermos. Mitiga-nos uma doença para a qual nunca tivemos tempo de desenvolver imunidade. Somos (e amanhã apenas fomos) crianças e destruíram o nosso futuro quando nos disseram que não valia a pena sonhar, quando nos disseram que a vida é assim, quando nos apontaram um único caminho, quando nos cegarão, quando nos ensinaram o que pensar ou o que falar. E este labirinto de cubículos não é mais do que um enorme cais de gavetões onde repousamos sem descanso.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVII, Epigram - I'm Sorry, I'm Lost


How long? How long? This is where we are supposed to meet. And I'm still waiting. I can't figure out why I'm still here awake for days or months perhaps. Háblame aunque tus palabras me las traiga el viento o las olas del oceano cuando se rompen en las rocas bajo mis pies. Se a tua boca não quiser soltar palavras, escreve-me. Não precisam de ser palavras numa folha. Escreve com as pegadas na floresta ou na areia e que elas sejam um mapa que me possa guiar até ti e não importa quando. Un'altra notte di luna. Sto solo aspettando qualcuno che non arriva mai. Ma io rimarrò qui. Rien a changé, sauf ma volonté qui est plus fort maintenant et c'est pourquoi je crois qu'un jour tu viendras. Je ne sais pas vraiment quand, mais il ya quelque chose en moi qui me donne espoir. Рано или поздно небо исчезнет. Я буду пыли. E se tudo acabar, pelo menos a vontade ficará. El viento me va a conceder un último deseo. We will be dust and the wind will carry the will. Estaremos juntos, os nossos restos darão forma ao vento. Nous serons un seul et le vent. É por isso que, ainda que o tempo passe e eu lhe perca a conta vezes sem conta, me detenho aqui porque no final não estarei só. A vontade acabará por te encontrar, ainda que num ínfimo resto de mémoires.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!




Músicas para Escrever XXXV, I Am The Architect - Quit


Estou exausto, sem ter mais nada para oferecer, sem ter mais nada para brilhar, mais ninguém para me aquecer. Toda a minha vida fui como uma caixa de fósforos nas mãos de diferentes "alguéns" e, enquanto havia mais algum fósforo para incendiar, eu fui feliz, eu aqueci,eu criei luz, eu deixei memórias ou, na maioria da vezes, fui apenas ocasionalmente útil, como alguém que é prostituído sem saber o que realmente lhe estará a acontecer. A princípio tudo era fulminantemente belo e radiante, aquela áurea inicial era o um fascínio nunca me apercebi da sua efemeridade de tão cego que o clarão me deixava... Aos poucos fui-me apercebendo que, a a cada fósforo que esses "alguéns" acendiam, a minha insanidade começava a alastrar-se como um cavalo num galope furtivo. Houve dias em que não distinguia a realidade e as miragens, ficava perdido sem ter para onde ir, cada vez mais mentalmente instável e enfermidades me foram acometendo o interior. Este é o meu último momento de sanidade, antes de se queimar o último fósforo e este sou eu que o quero acender e, assim que o fizer, será disparada a bala destinada para o meu fuzilamento.