quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Músicas para Escrever XXXVI, The Waters Deep Here - Super Bia


Chove e chove de várias formas porque hoje a chuva dança com o vento. A vala comum vai-se enchendo com todas estas gostas dançantes que vão caindo sem limite e lavando o sangue dos muitos cadáveres que lá jazem, talvez tantos como essas gotas de chuva que se vão precipitando. É manchada a sangue a água que vai enchendo esta vala, como um vírus contaminante: morte!
Como o pequeno rebento que rasga a terra em busca da sua afirmação perante a vida, num "AQUI ESTOU!", irrompe uma mão que tenta sentir a chuva incessantemente, em vários movimentos elípticos, querendo certificar-se de que a única adversidade que a rodeia é a chuva. O prazer de estar viva, o prazer de sobreviver e restar para contar a história ou simplesmente esquecê-la.
Outra mão surge, entre o amontoado de cadáveres, uma cabeça e um olhar que se perde nesse céu momentaneamente cinzento, um elegante busto feminino e lentamente vai desviando os cadáveres que rodeiam e trepo-os, triunfante, como uma rainha. Integralmente fora, permanece quieta, deixando que o chuva faça o seu trabalho e limpe o seu corpo cada vez mais belo, gozando a como o banho que já não se lembra de ter desfrutado  Está nua, despiu-se daquele traje que lhe impunha a escravidão, rasgou o pedaço de pele que fazia dela mais um número, mais um saco de balas. Está nua, está limpa, pronta para viver de novo!
Como é inspirador o grito da sua afirmação! Como é perfeita a imagem da Resistência!




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