quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Músicas para Escrever LVI, Mumford & Sons - Awake My Soul



Era o fim de tarde de um dos últimos dias quentes de verão, sentou-se na laje do túmulo que nunca quis ver edificado, tirou um papel do bolso e leu-lhe aquele carta, a sua última carta, a carta que queria que fosse lida, que lhe queria enviar mas que, por infortúnio da vida, nunca lhe havia de chegar.


"Morreste-me demasiado cedo…

Como aquele bebé nascido demasiado prematuro, que ninguém acredita que sobreviverá, mas sobrevive, e tu morreste-me!

A questão não se põe no quando, mas no facto de que não me deverias ter morrido.

As pessoas como tu não merece morrer assim, cedo e em agonia. As pessoas como tu são genuínas, constituídas por uma matéria tão pura que se fossem escarnadas, laminadas, analisadas ao mais ínfimo dos pormenores, não lhes seria encontrada uma ponta de maldade ou qualquer tipo de mácula.

Morreste-me demasiado cedo, quando precisava de ti e porque ainda preciso. E se não me tivesses morrido, os meus monólogos não seriam tantos nem tão longos e o meu olhar não se perderia tanto na linha do horizonte à espera de ver-te chegar um dia, ou nas longas noites de insónia a imaginar como seria cada momento que passei se não me tivesses morrido.

Estou certo que todos teremos o momento de largar este corpo e eu não me atreveria a pedir que ficasses cá para sempre, pois, isso seria sobrecarregar-te de sofrimento. Se não me tivesses morrido, apenas pediria que partisses um pouco antes de mim porque, se já sofri uma vez com a tua partida, voltaria a sofrer, no entanto, de maneira diferente porque teria vivido muito mais ao teu lado.

Aquilo que pensámos ser um enorme círio, cujo pavio poderia arder durante uma vida, tornou-se numa pequena vela que fulminantemente se consumiu.

Morreste-me demasiado cedo porque és insubstituível. Cada pessoa é única, no entanto, e concordarão comigo, há pessoas que, apesar da sua característica una, podem ser substituídas, dependendo das suas circunstâncias, mas tu és insubstituível, não importando o lugar, o dia ou a circunstância.


Morreste-me demasiado cedo ontem, hoje e amanhã porque a tua morte é uma ferida sem cura que vai infeccionando cada vez mais com a alastrar do tempo e se retirar a minha camisola verás que tenho já meio corpo com chagas em carne viva. Vou acalmando a minha dor lambendo essas chagas com memórias, mas essa cura não se tem mostrado eficaz.

Morreste-me demasiado cedo e a incerteza de saber se me ouves enquanto te leio esta carta também me corrói porque sou um homem de pouca fé, mas hoje, que te leio, quero acreditar que me ouves, ainda que não saiba se eventualmente, de alguma forma, me responderás.


Dadas todas as incertezas da vida, e sem saber para onde me levam as marés do tempo, despeço-me num até já porque o adeus fere-me e remete-me novamente à tua despedida, o dia em que essa chaga começou a alastrar em mim como uma peste.



Com amor,

Até já!"


Dobrando novamente a carta humedecida pelas lágrimas que lhe foram caindo, guardou-a novamente no bolso. Desse mesmo bolso tirou uma pequena caixa de fósforos, acendeu uma vela e despediu-se. Não tinha dado três passos quando voltou para trás, retirou a carta do bolso e deixou-a em cima da vela para que ali se consumisse.




terça-feira, 4 de junho de 2013

Músicas para Escrever LV, Collapse Under The Empire - Captured Moments

Hoje tive que ouvir música e escrever, imperativamente. São demasiado os infortúnios que necessito de expurgar do meu pensamento e tantos as vontades e visões que tenho que guardar bem gravadas, ainda que em cicatrizes para nunca me esquecer o que representam porque as cicatrizes são mais permanentes e incógnitas que a tatuagens.
As minhas noites oscilam entre pesadelos mórbidos e melancólicos e sonhos que desejava serem realidade. A ironia é que não quero acordar nem dos pesadelos, nem dos maravilhosos sonhos que com eles se alternam. Os pesadelos, quero resolvê-los e dar-lhes um final digno e os sonhos não os quero abandonar, ao ponto de não saber se, por vezes, são realidade ou imaginário e, nesses casos, apodera-se de mim a angústia quando desperto para dita realidade, que também não prefiro em detrimento dos pesadelos.
Num dos pesadelos paguei com o consentimento da minha lobotomia uma vida que queria salvar de um contínuo decepamento. E a anestesia, os perder dos sentidos era real que acabei por perecer num túnel numa manhã de nevoeiro e não terá sido um parecer no seu lato sensu, mas sim num stricto sensu que me terá abandonada num hospício perdido, de onde um dia me hei-de resgatar. Outras vezes a visão é demasiado trôpega e cansada que me encontro em lugares desconhecidos, estando só em cenários de um pós-apocalipse que levou para longe todos aqueles que conheço e não quero despertar, pois naquele pesadelo, ainda que assim o seja, consigo encontrar esperança para me perder na busca de alguém e, no oscilar da noite, essas personagens cruzam habilmente as fronteiras da noite que separam os sonhos dos pesadelos.
Eu sou o homem de lugar nenhum que busca incessantemente o bem e o mal, o infortúnio e a graça, o ódio e o amor, a dor e a cura, a escassez e a abundância, as chagas e o bálsamo porque tenho uma necessidade imperante em sentir-me vivo e a dor faz parte desse processo, a imunidade cria-se assim, os objectivos e os caminhos que seguimos traçam-se assim.



domingo, 2 de junho de 2013

Memórias de Café XV - O Nero

O meu avô António era caçador!
Pelo menos tinha sido mas a licença caducou. Um dia disse-lhe que gostava de ir à caça com ele, mas nessa altura a doença já o tinha tornado débil e nem tínhamos cão de caça. Ainda assim ele fez-me a vontade: renovou a sua licença e arranjou um coelheiro de caça, o Nero.
Não fomos muitas vezes à caça, naquele ano a doença já tinha tido alguns avanços. Ainda assim ele treinou o Nero e fomos caçar algumas vezes, mas nunca conseguimos nada. Hoje entendo que aquilo foi uma bondade para satisfazer uma vontade.
Entretanto, voltou para o hospital com o agravar da doença, mas  Nero continuava connosco. Era um cão de pequeno porte castanho claro, muito afável e companheiro.
Quando o meu avô teve uma recaída inesperada e teve que ser internado, não durou muitos dias para que o Nero arranja-se maneira de quebrar a sua corrente e fugir. Depois de algumas semanas o meu avô voltou para casa e ficou desgostoso quando soube da notícia. Todos os dias ia ao fundo do quintal e olhava com tristeza para a casota vazia. Mas não tardou mais de uma semana a um vizinho encontrar o Nero a vaguear a uns quilómetros de casa, na zona onde costumávamos caçar. Que alegria foi aquele reencontro.
No verão desse ano, o meu avô voltou a piorar, ao ponto de ser novamente internado já sem esperanças de voltar a casa e poucos dias antes da sua partida, o Nero voltou a arranjar maneira de escapar...desta vez para nunca mais voltar!
Tenho-me lembrado disso ultimamente, pois agora temos um cadelinha lá em casa, a Sura, que está sempre a farejar no meio dos arbustos à procura de alguma coisa. Tem bom faro!
Ias gostar muito de a conhecer!

Um abraço eterno e até já =)


Músicas para Escrever LIV, Fever Ray – If I Had a Heart


Ele nunca disse nada, não porque as palavras fossem poucas ou porque sofresse de mudez em determinados momentos. Não disse, nem dizia, porque, no seu entendimento, não deveria afectar as decisões ou as acções das pessoas que o rodeavam. Este era o seu meio de respeitar a liberdade total de quem conhecia.
O seu silêncio de liberdade era considerado muitas vezes como uma apatia profunda e estagnação emocional. Na verdade, tinha os seus momentos de apatia e solidão por ser incompreendido, no entanto, também compreendia as pessoas e estava consciente da condição de repressão sentimental. Ele próprio havia diagnosticado essa patologia nele mesmo.
Muitas vezes não falava porque não lhe perguntavam e não se lembrava de que às vezes era necessário ceder.
Muitas vezes não falava porque algo o prendia bem lá dentro.
Mas ele não era apático. Ele adorava as pessoas e queria conhecer sempre mais pessoas e, de facto, conheci-as, mas os quilómetros de distância sempre foram uma constante sempre que conhecia alguém. Muita gente pensaria talvez que seriam as pessoas erradas, mas isso foi algo que nunca lhe ocorreu. Ele próprio havia sido desde sempre uma deambulante, aqui e ali, sem um lar fixo, pois qualquer sofá poderia ser o seu lar perfeito.
Um dia apoderou-se dele uma enfermidade gravíssima e foi aí que tudo começou a desabar, tornou-se um desgraçado mendigo de emoções que não sabia processar ou expressar. O seu mundo já não era o mesmo. Uma fobia social foi-se apoderando dele. Já não falava em público. Já não caminhava de cabeça erguida. Os seus projectos já não saiam mais do pensamento, a vontade estava perdida ou esquecia-se sempre dele para onde quer que fosse e isso era que mais o dilacerava e os seus olhos estavam baços como nunca haviam estado, tinham perdido o brilho de tantas lágrimas que tinham salgado a pele áspera do seu rosto e, em consequência disso, a visão havia-se deturpado, vendo apenas sombras em alguns momentos.
Um dia, estando a passear numa falésia, tentando encontrar respostas, aproximou-se demasiado do limite e, esquecendo a sua vontade viver, caiu e não mais foi visto. Quero acreditar que encontrou conforto naquele mar imenso tão salgado quanto as suas incontáveis lágrimas.




segunda-feira, 8 de abril de 2013

Músicas para Escrever LIII, Fever Ray - Concrete Walls


O local ao qual chamava lar é agora um ambiente funesto que gera asfixia. Temo que em breve os que nela habitam comecem a perecer vítimas de apoplexia induzida ou de venenos letais cada vez mais semeados em lugares onde costumávamos fazer picnics e passeávamos em tardes de Verão. 
Em tempos vivíamos felizes e dedicados por mantê-lo assim, talvez, as minhas memórias são ainda reduzidas, mas lembro-me de ter sido feliz e ter acreditado num futuro. Hoje esse lugar é apenas uma memória e a felicidade encontra paredes sempre que tenta mover se. A felicidade dos que ainda vivem neste lugar não é felicidade mas, sim, apenas uma memória daquilo que foi a felicidade como a sensação da presença de um ente querido nos primeiros tempos após o seu último suspiro. Mas um dia tudo isso desaparecerá totalmente também…E nesse dia nem os fantasma vão querer ficar mais, nem um minuto que seja. 
Já não chamo lar a esse local! Também não tenciono desenvolver por ele ou pelos seres vis e infames, que o mitigaram, uma espécie de Síndroma de Estocolmo como já terá acontecido a algumas pessoas. Este lugar ao qual chamei lar é um local onde a esperança se encontra em estado vegetativo e não me espanta que, sem escrúpulos, dêem ordem para que a máquina da qual depende seja desligada. 
O local ao qual chamava lar já não é o meu lar. É agora um pequeno apartamento, semelhante a uma sala, pelo qual pago uma renda demasiado cara. Um espaço frio que já não reconheço e me provoca insónias ou pesadelos, quando penso que afortunadamente adormeci. Aqui o tempo passa como noutros sítios mas sem rumo e a cada dia a angústia cresce porque o que queremos alcançar está muito distante ainda e o tempo que teremos para desfrutar será o resto de uma vida miserável. 
Este é a minha carta de despedida para uma partida cada vez mais inevitável, para a qual só comprarei um bilhete de ida sem regresso. 
Pobre local ao qual chamei lar que em breve não serás mais do um deserto com fronteiras litorais formadas por falésias de onde mais nenhuma nau partirá com optimismo ou saudade, embaciando os olhos dos seus corajosos tripulantes.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Músicas para Escrever LII, God Is an Astronaut - Shining Through

A tormenta entre a razão e as matérias que envolvem a emoção é tudo o que resta de um ser que hoje não é mais do que um sopro errante. Desde sempre este dilema, que já foi e é comum a muitos outros como eu, me tem vindo a forjar estigmas.
Já não sei se existo mais para a vida para a qual acordo todos os dias ou para os sonhos que anseio a cada momento que tento adormecer. A vida é para mim cada vez mais diluída, mais imperceptível, mais fosca, como um livro escrito à mão cuja tinta se vai diluindo debaixo de uma chuva torrencial que as minhas lágrimas vão acentuando porque são elas a razão de toda esta precipitação absurda sobre este meu mundo de amorfia, paralisação e desassossego.
Já os sonhos, a cada noite que adormeço, apresentam-se mais nítidos e reais. São perceptíveis os sons, os rostos começam a deixar-me conhecê-los e os habitantes desses sonhos, talvez um mundo paralelo que sempre quis conhecer, deixam agora que me aproxime e que lhes possa tocar, como prova da sua real existência.
Talvez por passar demasiado tempo acordado, assimilei esta circunstância à qual chamam vida a um mundo real e talvez seja demasiado tarde para mudar as coisas e aquela voz que me acordou e que tento recordar todas as noites tarda em chegar. No entanto, a minha esperança em ouvi-la de novo continua.
Brevemente será hora de adormecer e sonhar, vivendo tranquilamente.




terça-feira, 12 de março de 2013

Músicas para Escrever LI, Mono - Pure as Snow (Trails of the Winter Storm)

05h31m: Ainda tenho duas horas para dormir.

07h30m: Depois de ter desligado o despertador após um anunciante one, two, three, four, voltei a adormecer (constantemente peço mais cinco minutos ao despertador, mas hoje, sem querer desliguei-o).

08h04m: Acordei cerca de meia hora depois com uma voz feminina muito dócil que sussurrou o meu nome, “António!”, uma única vez. Abri os olhos lentamente e não era ninguém, quando julguei ter sentido uma respiração bem junto do meu rosto. Olhei novamente e não havia mais ninguém ali no quarto.

08h08m: Abri a janela e levantei-me preguiçosamente para mais um dia de busca de respostas, conclusões, soluções…talvez algumas considerações também.

Não sei se aquela voz misteriosa seria a minha consciência a relembrar-me que tinha que acordar para não faltar às aulas. Tenho a certeza que não! A voz da minha consciência é parecida ou igual à minha, é aquela voz que ouço nos meus monólogos constantes e plurilingues, na maioria das vezes, que ocorrem no banho, quando conduzo ou quando tento combater as insónias.
A verdade é que gostei daquela voz, ainda a ouço constantemente, agora mesmo, como um eco porque se repete vezes e vezes sem conta. Quero voltar a ouvi-la, mesmo que não conheça a forma física que a pronuncia.
Talvez esteja a enlouquecer. Talvez um pouco mais. E a loucura total tem como pano de fundo vozes assim? Se sim, então, é para lá que quero caminhar.
Boa noite, noctívagos e noctívagas. Não digo até amanhã, mas até que essa voz me volte a despertar.




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"A Morte do Autor" (Barthes, 1987)


O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”
Há já vários anos que o Autor reflectia sobre as palavras de Roland Barthes, tentando encontrar nelas algum sentido para a sua moderna existência e para o seu futuro, ora trémulo ou pungente, ora corroborado ou exaltado. Todos esses anos, sob reflexões sobre essas palavras de Barthes, foram também os necessários para o Autor produzir a sua última obra, que seria a mais brilhante e aclamada. Este foi o tempo profícuo da sua existência, da sua vida, talvez da sua longa linhagem, da qual não contarei já o desfecho.
Desde o final da Idade Média, com o Renascimento e os seus ideais humanistas antropocêntricos de afirmação do indivíduo, com o racionalismo francês, com a Reforma Protestante, com o empirismo inglês, com o positivismo, instalou-se no mundo ocidental a família do Autor, uma estirpe centrada no “prestígio pessoal do indivíduo”. É uma família com imensos membros que começaram a afirmar-se e a vigorar, um pouco por todo o lado, detendo a autoria de tudo o que iam produzindo, criando uma cisão com o anonimato ou colectivos anteriores dos apreciados cancioneiros.
A verdade é que ainda hoje os vários membros deste clã Autor reinam na história da literatura, nas biografias dos escritores, em revistas, em jornais, em entrevistas, nas críticas devido à incapacidade dos críticos em dissociar a obra e a pessoa que a produz, na feroz necessidade de encontrar na obra os gostos, os ideais, as paixões, a pessoa, o carácter autobiográfico do Autor, levando a que a imagem da literatura destes tempos seja “tiranicamente centrada no autor”.
De facto, o Autor detinha, na sua enorme mansão, um grande espólio de recortes, registos de tudo aquilo que havia sido centrado nele: entrevistas, resenhas e críticas literárias, biografias oficiais e não oficiais, autorizadas e não autorizadas, artigos de jornais ou de blogues, estudos que entrelaçam o escritor e a obra. Tudo isto estava num mausoléu que criou, como um santuário, o seu próprio santuário, que ele próprio venerava mas que, nesses últimos tempos, pensando nas palavras de Barthes, havia descuidado e o pó amontoava-se sobre todos aqueles livros, a luz ia fazendo desaparecer as letras dos recortes, assim como a humidade os ia fazendo apodrecer.
Anteriormente, o Autor queria ser ele próprio conhecido através da escrita que considerava sua, de uma linguagem que também pensava ser sua, de tudo que cria ser centrado em si. Mas a escrita não era sua, a linguagem também não o era. Nada era seu, a não ser a mão que escrevia e a vontade! Primeiro estranhou: o seu mundo, até ali tão idílico, aparentemente inefável e tão seu, abalou-se, desmoronou-se, desconstrui-se. Depois entranhou-se: a sensação era boa, sentia uma liberdade correr em toda a sua inspiração. A linguagem passou a falar por ela própria e não o Autor, que sentia a magia de desaparecer, como um mago, deixando apenas um pouco de magia que daria liberdade total a quem a recebesse. A performance descentralizou-se assim, passando do “eu” para a “linguagem”, dando seguimento à poética de Mallarmé: “suprimir o autor em proveito da escrita”. É isto que passa a ser importante para esse intitulado Autor que, assim sendo, já não é mais Autor, mas simplesmente aquele que escreve. Durante algum tempo, o Autor invejou Proust pelo sei feito de, ao invés de passar a sua vida para o romance, fazer da sua vida uma obra. Depois descobriu o seu próprio caminho.
Previamente, durante o Surrealismo viveu um período de eremitismo. A ideia de partilhar um texto com alguém, de experimentar uma escrita a vários fazia-lhe confusão, provoca-lhe náuseas por ter de misturar uma substância, que considerava tão sua, com a de outrem, que provavelmente nunca havia conhecido. Sentiu raiva com o contributo dos surrealistas “para dessacralizar a imagem do autor”, que fez do Autor aquele que simplesmente escreve, passando a linguagem apenas a conhecer o “sujeito” e não a “pessoa”. O Autor, isolado em sua ermida, sentia a dor de algo que considerava uma doença que acometia outros membros da sua estirpe e, esse foi um tempo diferente, não produziu nada.
Após esses tempos de isolamento, novas tendências vieram e o Autor ia ficando atento, no entanto, mantendo a sua distância, preservando a sua integridade de Autor. Continuava sem escrever, aumentava-lhe a angústia dessa solidão, desse individualismo, desse reconhecimento massivo impertinente em tudo aquilo que escrevia e do qual nunca conseguia dissociar-se. Mas, eis, que chegou o dia e muralhas de conceitos e ideias se demoveram para deixar entrar em si algo novo, algo conquistado por uma liberdade que no fundo, sem que o soubesse, lhe agradava. Nasceu em si, então, o scriptor. Começou a fazer sentido em si o aqui e o agora, ao invés de eternidades monótonas que com ele se arrastavam, como correntes das quais não conseguia libertar-se. Esse seu íntimo scriptor nasceu quando começou a escrever o seu texto, esse derradeiro texto de liberdade, que será delegada, de dimensões múltiplas, entre matrimónios e uniões de escritas variadas, que originam novas escritas, sem que nenhuma delas fosse contudo original, quando sem amarras oferecer o texto ao mundo. Assim, já não detém, como anteriormente, quando acerrimamente se afirmava como “o Autor”, paixões, impressões, sensações, sentimentos, ilusões, “mas sim esse imenso dicionário onde vai buscar uma escrita que não pode conhecer nenhuma paragem”.
O Autor, agora ancião, mas dotado de uma nova perspetiva plena de liberdade, sua e dos que receberem o texto que escreveu, já não procura impor-se à sua obra ou impor ao seu texto um último e derradeiro significado, castrando o desconstruir que possa vir a ser processado pelo leitor para deslindar o que lê, fazendo disso “coisa” do passado, dos seus antepassados retrógrados.
Após todos esses anos, o Autor encontra um herdeiro, que nunca imaginou vir a ter. Todo o seu individualismo e tentativas de exaltação levaram ao seu isolamento, a uma envelhecer solitário. Desconstruíram-se, então, ideias e pensamentos tidos como verdades absolutas e, assim, um texto passou a ser “feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação.” No entanto, há um lugar, alguém onde tudo se encontra e esse alguém é o herdeiro do Autor, que passou a scriptor, o leitor, alguém que até li nunca tinha sido valorizado. É este leitor que dará vida ao escrito porque é para ele que, afinal de contas, o escrito conflui.
Terminado o seu texto, o Autor em tempos, agora scriptor, consciente da realidade e da liberdade que se propõe a delegar, após entregar o texto ao leitor, bebe o seu derradeiro cálice de licor onde acrescentou algumas gotas de cianeto porque “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. Era uma bela tarde de primavera e o sol brilhava no horizonte. Na mesa onde se sentava, de frente para uma jardim que começa a ganhar imensas cores, restou uma carta que serviria de testamento e havia um único pedido:
“Por toda a felicidade e tranquilidade que a escrita me trouxe, pelo sentido que ela deu à minha débil existência, nestes derradeiros anos e pela companhia que me foi oferecida pelo scriptor, peço gentilmente que não tirem liberdade ao derradeiro texto que envio ao mundo, que quando lido será do leitor e não meu, e, ao invés de um nome, vigente durante séculos, que comigo quero enterrar, conste apenas o scriptor”.
O texto percorreu o mundo, em várias línguas até, como nunca havia acontecido, e, respeitando a último pedido de quem escreveu, sem que ninguém soubesse quem era o misterioso “o scriptor”, o texto foi desconstruído inúmeros vezes, deslindado pela milésima vez, lido vez sem conta porque ninguém sabia que paixões alheias procurar, que pessoas procurar. Afirmou-se o aqui e agora, rodeado de “sujeito” e não “pessoas”. Era um texto sobre a loucura e ninguém sabia se essa era a loucura do Autor, que ninguém conhecia, do scriptor, do “sujeito”, da “pessoa”, do leitor, de alguém. Era a loucura para quem quisesse vivê-la, para quem quisesse experimentá-la, interpretá-la à sua maneira e seria sempre diferente, dependendo do aqui e do agora, da circunstância da sua leitura.




António Campos Soares



Bibliografia específica

BARTHES, Roland – “A morte do autor”, O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, pp. 49-53

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Diálogo Perdido




- Que me farias, agora mesmo, se pudesses?
- Apertava-te até sucumbires…?
- Estás-te a passar!?
- Tens razão! Isso seria demasiado…
- Bem me pareceu.
- Demasiado fácil e rude para sujar as mãos!
- Noto algum tipo de desequilíbrio em ti. Estás bêbado?
- Estamos aqui há tanto, viste-me beber algo?
- Não, mas, também não poria o meu pescoço aconchegado nas tuas mãos…
- Atava-te a essa cadeira, sem te selar a boca para que te pudesse ouvir e fazer com que te ouvisses e pudéssemos conversar, acima de tudo, dialogar, ou gritar um com o outro…
- Importas-te de parar com essa palhaçada…
- Dizes isso demasiado cedo…mas é só um princípio!
- Princípio?!
- Sim, estamos a começar alguma coisa…
- Quem te disse que quero começar algo contigo?
- Eu… e continuas demasiado egocêntrica quando podemos ser nós.
- Que treta…
- Depois de te atar, rasgo-te a roupa até te despir…e fico a ver-te, enquanto o suor te escorre pelo corpo, enquanto as lágrimas te lavam a cara e soluças…
- Não…
- Sim, vou adorar, vou adorar-te, vais-me adorar a mim depois de tudo isto.



- Qual a sensação?
- Solta-me…
- Não, enquanto, não me cansar...Fica-te bem essa corda como adorno dessa lingerie.
- Por favor…
- És demasiado bela assim, frágil, tão simples, sem essa tua arrogância habitual de quem abusa e ganha trunfos com isso. Choras, soluças como uma criança assustada, com medo de algum papão que viva debaixo da cama sem pagar renda…
- Por favor, não me faças mal…
- Longe de mim fazer-te mal ou provocar-te danos. Nota-se que nunca me quiseste conhecer.
- Estás a falar de quê?
- De coisas que nunca te lembrarias…
- Tenta, por favor, uma vez, pelo menos…
- Não, hoje, não! Não te valeria de nada e gosto de te ver assim!
- Não te compreendo…
- Se te acalmares um bocado, será mais fácil perceber o que dizes.
- PÁRA, ANORMAL!
- Estás a faltar-me ao respeito. Já viste a maneira como me estás a falar? Creio nunca ter falado assim contigo. Ou estou enganado?
- Desculpa, desculpa, tens razão… Solta-me, por favor! Não me faças mal…
- Tenho que repetir que fazer-te mal não faz parte das minhas intenções?
- Então, por que razão me estás a fazer isso?
- Diz-me tu…
- Não sei…
- Tens fome ou sede?
- Achas mesmo? Quero é que me soltes? JÁ…OUVISTE? SOLTA-ME!
- Então, que te disse eu há pouco sobre a maneira como me estás a falar? Não estás a tornar as coisas fáceis… E não precisas de me olhar com essa raiva toda, com vontade me fulminar à primeira tentativa que tenhas. Não tarda nada, apago a luz e deixas de me ver.
- Não, por favor! Desculpa!
- Tens medo do escuro!? Guarda o raio das desculpas e desfaz-te delas, não me servem de nada a mim, nem, tampouco, a ti. Mais ainda, não tenho nada a cobrar-te.
- Onde vais?
- Voltarei…
- Espera, não vás!
- Precisas de algo?
- Sim, tenho frio.
- Tudo bem! Vou pôr-te uma manta…Pode ser?
- Sim, por favor!
- Estarei cá a tempo de não te deixar passar mal. No entanto, podes sempre chamar-me, caso necessites algo, sem histerismo, por favor. Queres música?
- Onde vais?
- Voltarei…
- Não me deixes só…
- Nem pensar, terás companhia.
- Quem?
- Depois contas-me como foi.
- Estás a assustar-me ainda mais.
- Eu? Não! Mas tu, sim…
- Por favor…
- Vá, já vai demasiado longa a conversa para hoje! Voltarei…
- Não vás, por favor!
- Já te disse! Voltarei...



- Bom dia!
- Já é dia?
- Sim, dormiste bastantes horas.
- Então, vais soltar-me ou não?
- Vou buscar-te o pequeno-almoço e vou libertar-te as mãos...
- Só?
- Só?! Com calma...pode ser?
- Sim! Já não é mau, mas já chega desta brincadeira perversa...
- Não é uma brincadeira e não é nada perverso, pensei que já tinhas percebido!
- Deves-te achar com muita piada...
- Não imaginas a ironia das coisas, um dia também a ironia te assentará lindamente... Que queres que te traga para o pequeno-almoço? Bolo de chocolate? Batido de frutas? Algum cocktail exótico?
- Hum! Deixa-me pensar, então!
- Acabou-se o tempo! Achas mesmo que isto é uma espécie de hotel de luxo, cujo lacaio sou eu.
- Anormal!
- E continuas mal-encarada, és ruim...Que tal uma torrada e um copo de leite com chocolate? Prometo pôr pouca manteiga para não abusar nas calorias, sim?
- Engraçadinho!
- Já encontro em ti algum espírito. Hum…
- Onde vais?
- Buscar o teu pequeno-almoço, não foi o que te disse ainda agora...
- Demoras?
- Voltarei...
- Da última vez que disseste isso foi ontem e só te vi hoje...
- Também preciso de descansar. E ao contrário do que poderias imaginar ou desejar, não ia dormir contigo!
- Não gostavas!?
- Curioso, primeiro perguntas-me desesperada se te vou fazer mal ou abusar de ti e imploras-me para não fazê-lo, e agora...tentas um assédio tão ultrapassado? Isso já não se usa.
- Não é nada disso!
- Se o dizes...
- Foi só curiosidade!
- Até já!



- Obrigada!
- Vou soltar-te as mãos, como prometi...Deixas-me?
- Pois, claro, quase me esquecia!
- Não é bom quando as pessoas se acostumam a condições de serventia. Ficam escravas de circunstâncias envolventes e de si mesmas. Não é esse o meu propósito, por isso, não o faças, não comeces mal.
- Não?
- Come, antes que comeces a fazer demasiadas perguntas, porque não vou levar isso para trás quando arrefecer.
- És sempre assim?
- Outra pergunta desnecessária, visto conheceres-me há tanto tempo...
- A sério, ainda não te consegui perceber.
- Espero que não demores muito.
- Estou farta de te ouvir e mal o dia começou...
- Come e cala-te um bocadinho. Pode ser?
- Anormal!
- Isso é um “obrigada” pelo pequeno-almoço, Sra. Ingrata?
- Não!
- Já imaginava isso...
- Onde vais?
- Voltarei...
- ONDE VAIS?
- Baixo, por favor!
- Desculpa! Onde vais?
- Para junto de alguém mais interessante...
- Conheces pessoas?
- Sim, muitas. E, ainda que às vezes possa falhar, ao contrário de ti, não sou ingrato, arrogante, nem sofro de nenhum complexo de ansiedade por notoriedade para ser o centro das atenções.
- Sou assim?
- Se és, minha cara, mas poderás deixar de sê-lo.
- Acreditas assim tanto na mudança das pessoas e que elas têm um lado bom?
- Sim, definitivamente.
- Talvez não me espante que sejas tão idiota por isso.
- Apesar de ter medo de pessoas, continuo a acreditar nelas e a gostar delas, por isso, vou passar um bom bocado com alguém menos mal-encarado.
- Espera, por favor! Não me deixes só...
- Falaremos disso depois...
- Mas...
- Mas...Voltarei...



- Boa noite!
- Demoraste!
- Sim, distraí-me com o tempo...
- Estou com fome!
- Desculpa a minha distração. Não foi por mal, não penses que foi para te deixar passar mal. Como te disse, às vezes, também posso falhar apesar de a ti não te dever nada.
- Não tem mal...
- Que simpatia... Obrigado!
- Estou cansada também...
- Estiveste a chorar?
- Sim, passei uns momentos de angústia...Nunca me senti tão só como este tempo em que me deixaste.
- Não pensei que fosse tão duro. Até nos meus momentos mais sós, sinto alguma companhia.
- Como?
- As pessoas acompanham-me.
- Como fazes isso? Algum tipo de insanidade para acrescentar ao que tenho visto? Amigos imaginários, com essa idade? Hilariante!
- Pelo vistos, passo melhor do que tu...aí, angustiada, deprimida, com olheiras profundas e a marca das lágrimas que te escorreram na cara, enquanto estive ausente...Essa tua maquilhagem ridícula denuncia-te ainda mais.
- PÁRA, por favor! Desculpa.
- Queres que te vá buscar o jantar?
- Por favor, mas não tragas muita comida.
- Trago o que tenho, mas comes só o que quiseres.
- Obrigada!
- Ora essa!



- Estava óptimo.
- Grato!
- Ainda não consegui perceber o porquê de me manteres assim e seres tão atencioso. Não devias tratar-me mal, ser desagradável, rude e fazer-me sofrer para que eu sentisse medo?
- Não creio que pudesses perceber o meu objetivo se eu fosse assim. Como te disse, não quero, nem vou fazer-te mal.
- E o objectivo?
- Isso é contigo...Mas posso assegurar-te que já estiveste mais longe...
- Continuo a não perceber!
- Café?
- Sim, por favor!
- Então, trago dois bem fortes, a noite vai ser longa... Importas-te?
- Depende das tuas intenções!
- Recorda-te lá das nossas conversas...
- Tens razão. Vou ficar descansada e confiar...
- Onde vais?
- Calma, voltarei, vou só fazer os cafés...
- Pois...
- Até já!
- Não demores, por favor... Obrigada!



- Cheira bem.
- Gosto de saborear um bom café...
- Onde está o açúcar?
- Não tenho, como te disse, gosto de saborear um bom café...
- Mas, assim, é muito azedo.
- Talvez, no entanto, com açúcar, estarias a adulterar o seu sabor natural.
- Tu e as tuas coisas esquisitas...
- Tu e as tuas maneiras de adulterar as coisas para ficarem ao teu jeito para servirem os teus proveitos...
- Já estou ver o rumo desta conversa.
- Vá, saboreia-o calmamente e sente o aroma.
- Azedo, até me arrepia!
- É só o primeiro trago...
- Mesmo assim...
- Experimenta degustá-lo calmamente como se deixasses um quadrado de chocolate derreter suavemente na boca.
- E se eu gostar de trincar o chocolate?
- Quase aposto que és daquelas pessoas que ao ler um livro, ainda não acabou de ler uma frase e já está a olhar para a próxima. Se fosse do sexo aposto sofrerias de ejaculação precoce.
- Idiota!
- Há muitas coisas na vida que devem ser apreciadas com calma e desfrutadas, como num livro, sublinhar palavras, frases, pensamentos e ir dormir com toda essa nova aquisição de paisagens, personagens, que não existem na realidade, na mente...assim, na vida também devem haver momentos que tu assinalas e não  esquecerás...
- Muito bonito de dizer, mas não há tempo para tudo!
- Antes houvesse e pudéssemos viver mais anos do que aqueles que nos permite a nossa condição.
- Em alguma coisa concordo contigo! Finalmente...
- Ainda bem, mas tenho a certeza que os viverias da mesma maneira que vives agora.
- Teria que pensar no assunto, pois, certamente surgiriam outras coisas e voltaria a não haver tempo para tudo.
- Vês? Bem me pareceu. Se não tens tempo para tudo, porque não concentras o teu tempo em coisas especiais? Nunca leste o Principezinho?
- Lembro-me de ter visto a peça, quando era pequena. Eleger essas coisas especiais é uma treta porque levaria mais tempo ainda.
- Então, preferes viver, num escassear de tempo, onde tudo o que tens, tudo o que podes fazer, tudo o que podes desfrutar será incompleto por não haver tempo?
- Menos mal, faço um bocadinho de tudo e não me chateio.
- Exacto, como ler um bocadinho de cada livro e não encontrar todo o seu sentido ou ler só as letras gordas dos títulos de um jornal e especular sobre o que diz o resto do artigo; como ir a um restaurante, comer só um bocadinho de cada acepipe e não ficar saciado com nada; como gostar de uma música e aprender só a tocar os primeiros acordes para impressionar alguém; como decidir escrever um livro e não passar do primeiro capítulo; como fazer uma longa escalada e ver o cume, mas não o atingir porque já o viste e leva muito tempo e muito esforço para alcançá-lo...
- Mas toda a gente faz isso, acho eu.
- Permite-me discordar de ti...
- Não me digas que te achas a excepção...
- Não sou e ainda bem, mas confesso que já sofri desse mesmo sintoma que tu, querer fazer um pouco de tudo e ser um inútil diletante...
- E?
- Aprendi a fazer o contrário...
- Planeias tudo ao pormenor agora?
- Longe disso, mas imaginei que algo do género fosse uma solução para ti... A vida não é uma agenda de marcações infalível! Até podes ter tudo agendado, mas há imprevistos, atrasos...
- E, então, com que coisas é que já aprendeste algo?
- Uma vez decidi fazer uma viagem pela Europa. Quinze dias a viajar de autocarro…
- Que luxo, quem me dera ter tido essa oportunidade!
- A princípio, gabava-me por ter estado em imensos países mas depois…
- Depois o quê? Também eu me gabaria…
- Depois apercebi-me que isso não me valeu de muito. Passava o dia no autocarro e, nos sítios em que parava, era só para passar a noite. Conheci melhor o autocarro do que as cidades onde estive.
- Foste um bocado idiota, então. E, afinal, qual a moral da história?
- Agora, quando quero viajar, escolho um sítio e deixo-me perder por lá.
- Sem nada planeado?
- Não necessariamente. Vejo o que poderá haver de interessante e parto, conheço pessoas, descubro a cultura, construo novas perspectivas…
- Muito bonito, mas nada melhor do que passar duas semanas na praia, sem me chatear, sem ter que pensar muito. Acordar e ir para a praia, apanhar sol...
- Não é mau e, de vez em quando, é uma boa terapia, mas há muito mais do que a resignação a uma rotina constante. Par fazer todos os dias o mesmo já basta a miséria de vida que vives.
- Mas a vida é uma rotina.
- Não te cansas de, ao ir para o trabalho, percorrer sempre os mesmos caminhos, ver sempre as mesmas caras, àquela hora, à espera da boleia ou do autocarro para irem também trabalhar? Eu até acho que essas mesmas pessoas se devem cansar de me ver passar ali todos os dias à mesma hora, já devem estar fartas de ver a minha cara de sono.
- Achas que as pessoas reparam nisso?
- Todas não, mas algumas pensarão também como eu.
- Mas não gostas de trabalhar, ter um sustento para tuas coisas?
- Adorao trabalhar! Tinha um emprego que me permitia conhecer pessoas novas todos os anos, encarar situações diferentes e espontâneas, contribuir para um futuro mais próspero e aprender com essas pessoas. Isto porque não me resignava só à profissão, tentava garantir, o mais possível, a natureza humana.
- Que fazias?
- Em tempos, fui professor, agora, sou apenas mais um número nas estatísticas do desemprego.
- Não sei o que te dizer.
- Não precisas de dizer nada. Aprende comigo e eu aprenderei contigo.
- Vou soltar-te completamente.
- Mesmo? Também só faltam os pés e a cinta…
- Já, há muito, que me está a causar impressão teres-te acostumado aos pés atados à cadeira.
- Obrigada.
- Aprende algo com isto.
- E que mais é que eu poderei ensinar a um professor?
- Achas que aprender se restringe apenas ao que vem detalhado nos programas?
- Mas já viveste mais do que eu, já fizeste mais do que eu…
- Sabes, tinha um amigo, que deveria ter os seus setenta e tal anos e garanto-te que ele era bem mais jovem do que eu ou tu.
- És mesmo esquisito.
- Não me interrompas, por favor.
- Desculpa, mas, às vezes, é inevitável não constatar isso.
- Era um homem sábio. Mostrava-lhe coisas que não conhecia e ele tinha uma explicação para tudo e eu ficava a ouvir quantas horas ele falasse. Quando me chamava à atenção, eu tremia, mas era o jeito dele, num tom teatral, erguendo os braços e enchendo o peito, como um indignado. O escritório dele, a abarrotar de álbuns de selos, era a maior enciclopédia universal que alguma vez pude ver e cada selo ganhava vida quando me contava a sua história. E sabes o que mais me fascinava nele?
- Não!?
- É que, de vez em quando, pegava no Fiat Panda dele e fazia uns dois mil quilómetros até sua à terra natal. Quantos jovens arriscariam uma viagem destas?
- Aprendeste muito com ele?
- Na verdade, foi um grande mentor e quando penso em fazer algo, lembro-me de que ele me disse com tom muito sério “Difícil não é começar, mas sim continuar”.
- Ainda falas com ele?
- Infelizmente faleceu há uns anos. A última vez que falei com ele, teria os meus dezasseis anos e soube da morte dele um mês depois de ele falecer.
- Que pena…
- Sabes o que é o pior de tudo?
- Não, mas diz-me.
- Andei muito tempo a planear visitá-lo, mas nunca me decidi a fazê-lo. Uma oportunidade que nunca mais terei.
- Estás com os olhos embaciados.
- Eu sei, de vez em quando também choro.
- Sinceramente, não me lembro da última vez que chorei…
- Eu recordo-me.
- A sério?
- Sim, e não me chames esquisito.
- Leste-me o pensamento.
- Mais café?
- Não sei, isso de o beber sem açúcar…
- Queres ou não?
- Sim, lá terá que ser, não é?
- Até já…
- Não demores…
- Só o tempo de fazer o café e trazê-lo e vê se não tentas fugir, ainda temos muito para conversar.
- Ficarei…



- Aqui está o…



- Não podias ter batido mais devagar? Com que raio é que me bateste?
- Não tenho experiência em bater em pessoas para fazê-las desmaiar. Com a lombada daquela enciclopédia.
- Pelo menos, não me podes acusar de te ter feito nenhum dano e pena que nenhum conhecimento me tenha entrado com a pancada.
- De facto!
- E agora que vais fazer? Chamar a polícia?
- Não sei…
- Então, enquanto pensas, podes, pelo menos, ir buscar um bocado de gelo para me pores na cabeça? A cozinha é na segunda porta à esquerda do corredor.
- Tem mesmo que ser?
- Pelo menos compensa-me por esta dor de cabeça e pela bagunça que fiz por tua causa.
- Muito engraçado.
- É o que alguém, com o mínimo de educação faria se fizesse asneira em casa de alguém.
- O teu humor não muda, nem agora que és tu que estás na outra posição e quem leva a vantagem sou eu?
- Temo que não.
- Não é fácil aturar-te.
- Vais-me buscar o gelo ou não?
- Vou!
- Obrigado! Até já!
- Até já!



- Não és boa a bater em ninguém, nem a atar ninguém. Desculpa ter passado para este sofá, mas assim sinto-me mais confortável. Calma, não vou retaliar.
- Mesmo?
- Sim, prometo.
- Desculpa. Está aqui o gelo.
- Antes de te sentares, pega naquele envelope, está por fechar.
- O que é?
- Lê…
- É teu?
- Não, é de um amigo.
- Que tem ele?
- Muito pouco. Está em fase terminal, tem dois meses de vida.
- Quantos anos tem?
- O mesmo que nós.
- Não estou a perceber. Que tem isso a ver comigo, com esta situação e contigo?
- Comigo, porque é meu amigo e precisa de mim. Contigo porque irás vê-lo comigo amanhã.
- Eu? E era preciso tudo isto?
- Sim, temo que sim. Não pretendo que apenas lhe faças uma visita.
- Então, o que queres?
- Nenhum dos teus órgãos nem favores sexuais para alguém com o tempo a escassear.
- Então?
- Vamos numa viagem com ele.
- Mas eu não o conheço.
- Isso é irrelevante.
- Não!
- Sim, vais!
- Porquê? Não quero conhecer alguém a quem me vou afeiçoar e depois vê-lo morrer.
- Esse é ponto. Não vamos fazer contas ao tempo.
- Mas, eu…
- Mas tu vives sozinha, não tens emprego e estamos no verão. Não me digas que tens algum hotel marcado para duas semanas?
- Não tenho.
- Então, anda! Pelo menos um vez na vida, vem fazer alguém feliz e aprender o valor do tempo.
- Não sei…
- Sabes, sinto o teu coração a palpitar com adrenalina. Tu queres esta aventura de saber que o não importa o tempo que tens mas como o aproveitas.
- Tenho que decidir já?
- Sim, amanhã ele vem embora definitivamente do hospital com um final certo. Não chores.
- Não sei se consigo.
- É claro que consegues. Não te vais arrepender.
- Porquê tudo isto?
- Terias descartado a hipótese e dito que não. Anda. Depois de tudo isto, não precisas de me ver mais.
- Mas vou querer.
- É diferente. Não precisas!
- Apaixonei-me por ti. Amo-te!
- Não te deixes levar por sentimentos precoces.
- Não são.
- Vai a casa e prepara as tuas coisas.
- Vou. Vens comigo?
- Vou.